domingo, 26 de dezembro de 2010

Bem-vindo de volta, desastre.


http://www.youtube.com/watch?v=k-ImCpNqbJw


Quando entrei dentro do táxi percebi que o frio era ainda maior. O condutor estava à espera que lhe dissesse para onde queria ir, e mal ele sabia de onde eu tinha vindo e para onde eu ia. Na verdade só me apetecia gritar:

- Para casa! 

Depois de lhe dizer para onde queria ir, e depois do carro começar a andar, passei a mão pelo vidro da janela. Queria ver tudo, ou melhor, queria rever tudo. Estava ansioso por rever a família e amigos de infância. Naquele momento não queria lembrar os motivos pelo qual deixei tudo aquilo. Sentia-me totalmente diferente da pessoa que me estava a transformar quando deixei para trás tudo e todos. O objectivo era partir sem levar comigo toda aquela riqueza e toda aquela identificação de poder.
Sempre tive medo de não ter a capacidade de ser humilde o suficiente, e era o que estava a acontecer. Eu estava a tornar-me, aos poucos e poucos, a pessoa fútil e sem sentimentos que recusava admitir. No fundo, afastei-me das raízes para me perder e voltar a encontrar. Foi preciso perder a maior parte das coisas para ficar saudável novamente, para voltar a ser o que era antes de tudo se desmoronar. 
De um momento para o outro comecei a lembrar-me das ruas e de todos os cantos que frequentava. A simples imagem do colégio em que estive inserido durante anos foi a alavanca para ficar emocionado. Sempre pensei que seria mais forte e que o regresso a casa não fosse tão pesado e doloroso, mas estava a ser. Era como ver um filme que já não vemos há muito tempo, mas que para nosso bem tivemos de o deixar de ver, para não enjoar. 
Passado uns cinco minutos o táxi dá a volta a uma rotunda e eu sabia que estávamos perto de minha casa. Quando o carro parou estava em frente ao enorme portão. A cara do taxista era um símbolo cómico porque demonstrava a 100% o seu choque perante o que estava a ver. 
- É aqui? 
- É sim. 
Eu saí do táxi e o segurança dirigiu-se a mim. 
- Boa dia. 
- Bom dia. Sou eu Sr. Mendes, o Martim. 
Ele fechou os olhos durante uns segundos e disse:
- Menino Martim? 
- Sim, sou eu! 
Era adorável a sua reacção, e surpreendentemente abraçou-me. 
- Bem Vindo a Casa.
O Táxi entrou pelos portões da casa apalaçada logo depois. Quando o carro voltou a parar o condutor limitou-se a ficar imóvel no banco. 
- Pode ajudar-me com a bagagem novamente? 
Notou-se o olhar atrapalhado do senhor:
- Claro. 
Levámos as coisas até ao cimo das escadas. Olhei em volta e apreciei a paisagem à bastante esquecida que me era dada todos os dias, antes de ter partido. Esbocei um sorriso de orelha a orelha e agora o nervosismo começava a sentir-se. Depois de ter pago e agradecido ao taxista subi as escadas novamente, pronto para o reencontro, para o que viesse, para os abraços, lágrimas e sorrisos. 
Toquei à campainha. Inevitavelmente comecei a saltitar no mesmo ponto onde me encontrava. A porta começou a abrir-se e pensei: "é agora". 
Era a governanta, a minha querida amiga e companheira de tempos difíceis: D.Helena. 
Foi um dos melhores sorrisos que vi na vida. 
- Menino Martim! 
Levei a mão à boca, tapando-a, emocionado por vê-la. Ela veio direita a mim e abraçou-me. Digamos que quase que me partiu as costelas, e repetia sempre o mesmo:
- Menino Martim. Menino Martim. Menino Martim.
Eu sorria mesmo que ela não estivesse a ver. Era bom voltar a sentir o seu carinho, e voltar a ouvir o meu nome chamado por ela, só como ela o sabia dizer. Olhou para mim e voltou a abraçar-me, desta vez realmente comovida. 
- Vamos para dentro. Está frio! 
Seguia-a. O Hall de Entrada estava na mesma, por estranho que pareça. A minha mãe pouco ou nada tinha alterado. 
- A Srª vai ficar tão espantada quando o vir. Ninguém esperava que viesse!
- Era esse o objectivo Helena. Quis vir agora, e de surpresa. 
- Está com melhor aspecto menino. 
Respondi-lhe com um dos meus sorrisos parvos, mas puros: 
- E a Helena continua na mesma. A Governanta mais esbelta e doce que alguma vez tive oportunidade de conhecer. 
De súbito ouvimos passos a vir do andar de cima. Olhámos os dois ao mesmo tempo sem dizermos uma única palavra. 
- Martim? 
A minha mãe. Olhei para ela, e foi aí que milhares de pensamentos me atingiram. Tudo o que se tinha passado naquela casa, todos os confrontos, todas as guerras, pareciam agora desfeitos e esquecidos. Pareciam.
- Martim! 
Ela desceu as escadas como se de uma criança se tratasse. Chegou junto a mim e disse: 

- Meu querido! 
Nunca esperei tal atitude pela parte dela. Afectos e beijos eram coisas que não ligavam com a Srª Vilar. 
Foi então que caiu nela e me largou, agora mais calma e serena. 
- Vieste sem dizer nada! Porquê agora? 
- Porque não? 
- Estou tão contente por te ver! 
- E eu a ti, mãe. 
- Anda lá dentro, os teus irmãos e o teu pai têm saudades. 
Acabei por me rir quando a ouvi dizer aquilo, do género: "imagino". 
Entrei no salão e lá estavam eles. A Laura veio logo abraçar-me completamente eufórica. 
O Gustavo manteve-se imóvel de boca aberta. E o meu pai. O meu pai olhou para mim tentando ser o mais simpático possível, mas ambos sabíamos que era ele a representar, pura e simplesmente. 
Ele levantou-se, dirigiu-se a mim, enquanto abraçava a Laura, e disse: 
- Bem vindo de volta. 
Continuei a falar com ela como se nada fosse, até que decidi "ouvi-lo". 
- Pai - disse eu sorrindo ligeiramente. 
Ela correu para o sofá novamente gritando vezes sem conta: "o mano voltou! yeah! o mano voltou!" 
O meu pai pousou-me a mão no ombro.
- Sentimos a tua falta. 
Respondi baixo e firmemente.
- E eu a vossa. 
Dirigi-me ao Gustavo, por um lado para evitar o meu pai e por outro porque na verdade, depois de todas as brigas que tive com ele, sentia a sua falta. De todos, penso que era o de quem mais sentia. 
- G. 
Ele manteve-se estático a olhar para mim. 
Nem uma palavra. 
Nem um som. 
Até que ajeitou a voz...
- Olá Martim. 
Disse aquilo tal e qual como se me tivesse visto ontem, ou até mesmo à 5 minutos. 
Não sabia o que dizer. Na verdade, o ambiente estava pesado e silencioso. 
- Bom, eu vou preparar qualquer coisa para o menino comer, sim? 
- Obrigado Helena, agradecia. 
- Pode vir comigo? 
- Claro... 

Entrámos na cozinha. Ali sim, haviam algumas mudanças. Novos desenhos no frigorífico, electrodomésticos novos, etc. 
- Menino, eu quis que viesse comigo porque...porque o menino Gustavo tem sentido a sua falta. Por favor, não lhe diga nada, se ele sabe que lhe contei corta-me a cabeça, literalmente! 
- Esteja descansada eu não lhe conto.
- Ele sofreu bastante quando partiu. 
- Ai foi? Pelas atitudes dele ele não me estimava lá muito. Porque sofreria? 
- Ele sempre gostou de si, mas...sabe bem que ele sempre foi como a sua mãe. Diferente de si e da menina Laura que mostram sentimentos e pedem afectos. Ele tem bom coração, mas você conhece-o, ele é difícil. 
- Continua? 
- Ainda mais depois do menino ter partido. 
- Que bom! 
- Vá, volte para dentro e tente animar os ânimos. Por favor. 
- Será que fiz bem em voltar depois destes anos, Helena? 
- Tinha de voltar menino, algum dia. E para além disso, a sua família pode precisar de si agora. 

Olhei para ela. 
Era normal as coisas terem mudado após a minha ida para o estrangeiro. Mas não liguei muito ao facto da Helena dizer: "a sua família pode precisar de si agora". 
Mas... 
ela tinha razão.
Ela agarrou-me na mão e disse: 
- Estou tão contente por tê-lo de volta Martim.
  

 CONTINUA...  

domingo, 21 de novembro de 2010

A vida familiar de Eva





"Eva estava no limite.

Pertencia a uma família de classe média alta.
Há três anos que a história era sempre a mesma. O pai começou a beber regularmente, e ver as discussões entre os pais tiravam-lhe toda a sua energia. 
Ela estava deitada na cama a assistir a mais um dos filmes: "mãe e pai numa discussão", mas desta vez a paciência e força, para superar todo o cenário, já não eram tanta.
Eva estava no limite. E desta vez estava mesmo. Ela levantou-se da cama e dirigiu-se à janela, simplesmente. O barulho entrava pelo quarto como se estivessem ambos ali, a discutir à sua frente. Eva voltou para a cama, mas desta vez nem se limitou a tentar dormir. Pôs os fones nos ouvidos e fechou os olhos. A realidade começava agora a ser afastada, cada vez mais. A música, a pintura e o canto tinham sido a sua "saída de emergência" nos últimos anos.
Ela acabou por adormecer envolvida num manto de pensamentos.
A manhã seguinte foi comum a qualquer outra, arranjou-se para a escola e saiu de casa sem fazer o mínimo barulho. Eva era perita em fugir sem deixar rasto.
No final do dia, Eva estava com a melhor amiga, a irmã com quem nunca teve a sorte de partilhar o mesmo ADN. Enquanto falavam entretidas, Eva recebeu um telefonema da mãe completamente de rastos e as suas únicas palavras foram: "Vem para casa, por favor" ao que ela respondeu: "vou levar a Sofia". E a chamada terminou.
Sofia estava a par de cada pequeno detalhe da sua vida familiar e o quanto Eva sofria, e no quão no limite se encontrava. O caminho até casa foi um pouco stressante para Eva. Ela era uma pessoa extremamente calma e sempre pôs a família num patamar bastante elevado, senão no mais importante, mas ultimamente ela tinha vindo a conhecer uma parte dela mais arrogante e muito menos paciente. Na verdade era compreensível, ver o pai alcoolizado dia sim dia não, durante 3 anos consecutivos deveria ser no mínimo sufocante. Por um lado ela sentia uma raiva enorme quando o via a gritar com a própria mulher, mas por outro percebia toda a sua situação: tinha de gerir uma empresa, olhar pela família, e ainda tinha o peso de toda uma infância problemática em que perdeu o pai e um dos irmãos. Mas Eva achava-o egoísta e fraco por não conseguir ser forte o suficiente e não conseguir olhar para todas aquelas situações como testes evolutivos.
Mal pôs a chave à porta o som, já habitual, dos gritos começou a ser ouvido por ambas as raparigas. A expressão calma e serena de Eva não estava mais presente. Esta agarrou na mão de Sofia e dirigiram-se para o quarto, apressadamente. Sofia começou então com um longo discurso em que lhe pedia para ter calma e não agir de cabeça quente. Eva, completamente descontrolada, agarrou numa mala e começou a pôr roupa ao acaso dentro dela juntamente com todos os produtos de higiene dentária, isto tudo sem deixar escapar uma única palavra. Depois da mala estar pronto dirigiu-se à mãe e ao pai, como se nada fosse.
 - Mãe, vou dormir a casa da Sofia hoje.
 - Sim, sim. Vai. Ia pôr-te essa hipótese.
 - Até amanhã.
 - E onde é que pensas que vais? - perguntou o pai irritado.
As lágrimas começaram a formar-se nos olhos de Eva, mas esta manteve sempre uma postura séria e austera como antes.
 - Como se tivesses o mínimo de interesse.  
Eva dirigiu o olhar a Sofia em que esta percebeu ser a permissão para dormir em sua casa. Sofia sorriu tristemente, devido à situação, e pegou na mala dela ao mesmo tempo em que esta abria a porta de entrada. Ultimamente nem lhe podíamos chamar "porta de entrada" soava muito melhor aos ouvidos de Eva "porta de saída" ou até mesmo "porta da liberdade".
Júlia, mãe de Sofia, já estava completamente habituada a ter a "filha adoptiva" como hospede. Sabia de toda a situação, não pela filha mas sim pela própria mãe. Eram amigas há bastante tempo mas esta sentia-se impotente perante os factos, mas ao ajudar a filha já se sentia automaticamente a ajudar a mãe, o que a deixava mais aliviada.
Sofia mal saiu do alcance da mãe começou a arranjar mil e uma coisas para a distrair. Ela era boa nisso, com ela Eva conseguia mesmo divertir-se e soltar gargalhadas que durassem mais do que 5 segundos. Na presença dela, esquecia-se da família, ou melhor dos pequenos grandes dramas e problemas familiares.
Nessa noite Eva não ouviu nenhum som de voz para além das gargalhadas compulsivas de ambas. Fora isso, foi uma noite de completo sossego. Silêncio. Paz.  

Eva estava disposta a mudar as coisas. Estava disposta a sair de casa e acabar com todo o seu sofrimento diário. Tinha 18 anos, era um facto, mas sempre achou que isso não era razão para faltar ao respeito da mãe, daí ter decidido ir falar primeiro com a mãe antes de sair sem dar qualquer explicação.

No dia seguinte voltou a casa. Era um sábado frio, quase chuvoso. O pai continuava na cama, o que a deixava mais à vontade para falar com a mãe.
As primeiras palavras da mãe, mal a viu, foram "desculpa" por, mais uma vez, ter assistido a uma triste discussão e desta vez com a bónus de ser na companhia da melhor amiga.
Eva não aguentou mais e as palavras tão desejadas saíram finalmente:
- Mãe, vamos embora.
A expressão facial da mãe era correspondente à resposta.
- Eu não posso, querida. Não posso deixar o teu pai sozinho.
- Podes sim, ele é crescido e dinheiro não lhe falta. Ele fica bem.
- Eva...tu não percebes.
Estas palavras foram o impulso necessário e que Eva estava à espera para poder explodir.
- Não mãe, tu é que não percebes. Não tens a mais pálida noção daquilo que sinto nas noites em que vos oiço aos dois a discutir. Não sabes como me sinto quando oiço vidros a partir ou quanto oiço portas a abrir e a fechar. Não calculas o que sofro quando tenho um mau dia e chego a casa e recebo como consolo um pai bêbado e uma mãe fraca que se recusa a ver que o marido não está bem!"
"Eva! Pára! Tu não eras assim. Eras compreensível e sempre foste a mais calma da família. Eu compreendo tudo isso mas tenta..."
"Mas isso mudou mãe, eu tenho limites, e sou uma pessoa normal como as outras. Tem sido assim desde os meus 15 anos, como é suposto reagir? Não sou uma boneca de porcelana, sou tua filha e a tua filha tem sentimentos e só quer ter um ambiente familiar e estável, será pedir muito?"
"Sempre te demos tudo o que querias, não é uma fase fácil Eva..."
"Não, não deram. Ultimamente têm-se esquecido do essencial, sabes?"
Sempre lhe tinham dado muito dinheiro, mas Eva sentia que o principal necessário, o carinho dos pais lhe faltava e era o que mais queria. Sentia falta disso à três anos por parte deles. Por isso é que a vida social lhe era tão importante porque começou em busca de amor fora das paredes de casa.
Desta vez Eva tinha a plena noção que o ponto final da discussão não seriam as suas lágrimas, daquela vez não era assim que a discussão ia terminar.
"Eu vou-me embora, de vez. Tu vens?"
"Filha..."
"Mãe, vens ou não vens?"
Eva sabia qual seria a resposta, no fundo sempre soube, não a julgava por isso mas ela já não era a menina indefesa e a menina dos pais como sempre se foi. As coisas estavam diferentes. Durante 3 anos a mágoa e sofrimento de Eva tinham-na feito crescer, e perceber que a vida era mais do que o conto de fadas que lhe era contado antes de adormecer. Eva estava uma mulher, madura e consciente.
"Eu..."
Eva naquele momento percebeu que não era apenas o pai que precisava de ajuda, mas também a mãe. Ela ia embora definitivamente. Não aguentava mais aquele espaço e aqueles dois seres humanos. Tudo aquilo era sufocante e lhe davam, quase, impulsos suicidas e homicidas. Eva pousou a mão no balcão e foi fazer as malas, desta vez numa quantidade bastaste superior.
Quando pousou as malas à porta voltou a dirigir a palavra à mãe:
- Tens mesmo a certeza mãe?
- Tenho, sim.
- Sempre foi tudo por vocês. Está na altura de fazer algo por mim e por vocês, ao mesmo tempo.
Eva não notou, mas enquanto esta pegava nas malas a mãe desfez-se em lágrimas, tal e qual como uma criança quando perde algo que estima.
Nada foi fácil para ambas, não se pode avaliar quem sofreu mais nestes três anos. Ou podemos? Quem sofreu mais nesta história toda. Eva? A mãe, ou o próprio pai?
Eva tinha a plena noção que não era a única a sofrer, mas não tinha alternativa senão sair dali.
Eva era perita em fugir sem deixar rasto. Mas desta vez não era essa a sua intenção.
A mãe de Sofia já tinha proposto várias vezes para que Eva se mudasse lá para casa durante uns tempos, e foi desta vez que aceitou. Eva sabia que Sofia ia ficar radiante.
Na família de Eva ninguém sabia do que se passava, nem mesmo a sua tia mais próxima. O desespero de Eva fez com que esta lhe quisesse contar, e ela sabia perfeitamente que se lhe contasse ela teria uma atitude exemplar como sempre tinha tido até então. Aquela tia era conhecida como o pilar da família e conhecida como o líder, sem ninguém lhe dizer é claro, mas era.
No caminho para casa de Sofia, Eva pegou no telemóvel e começou a escrever. Desta vez o papel da pessoa sem limites e enervada tinha sido posto de parte e tinha sido substituído pelo papel de rapariga sensível. Pelo papel da própria Eva. As lágrimas formaram-se novamente, desta vez sem serem símbolo de tristeza mas sim lágrimas de alívio e do resultado da revivência dos últimos três anos. O peso no peito ia passando conforme ia contando a sua própria história à tia. As últimas palavras na mensagem foram:


                                                                                                    
  Para: Tia Zé                                                                                 
                                                                                                      
  A mãe precisa de ajuda. E acho que eu também. Amo-te              
  Eva                                                                                               
                                                                                                       
                                                                                                      


- MENSAGEM ENVIADA -




Eva tinha a plena noção que aquela mensagem ia mudar tudo. Mas não a tinha conseguido enviar antes. Talvez por medo de admitir que todos precisavam de ajuda e que ela própria esteve a sofrer imenso com a situação. 
Ao enviar a mensagem à  tia, Eva sentiu-se a acordar de um pesadelo duradouro, que parecia não ter fim. Mas sabia que ia acabar brevemente. Eram uma família, apesar de tudo.

E Eva não era como o pai, Eva no fundo sabia perfeitamente olhar para todas aquelas situações como testes evolutivos.



sábado, 23 de outubro de 2010

Uns simples minutos mudam uma vida. Ou duas.


Uma corrente de acontecimentos fizeram com que a conhecesse. E hoje, fico grato por me ter atrasado aqueles 15 minutos.

- DIA 1 -
Eram 10:15 da manhã e estava atrasado para o emprego.  
Eu ainda estava a caminho do café matinal como era costume. Fazia parte da minha rotina: sair de casa e logo a seguir ir ao café antes de me dirigir para o trabalho.
Conforme saí do carro, uma rapariga entra no café antes de mim, o que me deixa ainda mais stressado.
A empregada chamada Clara minha ex colega, que me costuma atender todos os dias, quando me viu a entrar pela porta cerca de 20 minutos atrasado do habitual comentou: 
"Não estás atrasado hoje?" 
"Estou, claro que sim!"
A rapariga que tinha entrado antes de mim, percebendo a minha situação, olhou para mim e disse:
"É melhor ser primeiro, eu não tenho pressa."
Sinceramente fiquei sem saber o que dizer. Saiu-me apenas:
"Oh, obrigado"
Ela sorriu e dirigiu-se para trás de mim de forma subtil.
"É o habitual, já sabes!" disse eu para a Clara.
"Vai sentar que já te levo."
Eu soltei uma gargalhada, porque o seu tom de voz foi um tanto ou quanto provocador e engraçado. 
"Eu hoje não me sento!"
Quando me entregou o café olhei para a rapariga e agradeci novamente.
"Vê se chegas a horas amanhã!"
"Sabes que sim!" respondi-lhe literalmente a correr. 


Foi um dia normal tal como todos os outros. Ou pelo menos era o que eu pensava.

- DIA 2 -
Curiosamente, no dia seguinte o meu despertador não tocou, e já eram 10:16 da manhã.
Entrei no café, voltei a ouvir a Clara resmungar que estava atrasado e antes de sair para me dirigir para o carro reparei que a rapariga do dia anterior já estava sentada. Não sei bem porquê mas ela olhou para mim, tal e qual como se tivesse gritado o seu nome. Visto que não estava à espera que tal fosse acontecer limitei-me a sorrir e ela retribuiu um pequeno sorriso, abanando a cabeça ao mesmo tempo, tal como se estivesse a dizer: "atrasado outra vez!".
Saí do café e o dia continuou, naturalmente.

- DIA 3 -
Acordei a horas decentes e a rotina normalisou. Entrei no café, desta vez com um ar mais calmo e sereno, e meti conversa com a Clara:
"Hoje não me atrasei, vês?"

"Estava a tornar-se um hábito!"
Conforme ela acabou de dizer estas palavras a tal rapariga entrou pelo café, com o meu ar do dia anterior, ou seja - "estou atrasado para o emprego".
Quando está precisamente a dois passos de mim, a Clara comenta:
"Tão cedo hoje?"
"Na verdade estou atrasada! Tenho reunião e perdi completamente a noção do tempo!"
Eu achei piada à situação no geral, então olhei para trás e disse:
"É melhor ser primeiro, eu não tenho pressa."
Ela mostrou-me o melhor sorriso do mundo: sincero e belo.
"Obrigada, fico a dever-lhe uma."
"Não não, na verdade estamos quites."
Fiquei admirado quando ela me esticou a mão e disse o seu nome:
"Isabel."
"Chamo-me Afonso, prazer"
Ela estava a olhar-me nos olhos. Era como se estivesse a ler todo o meu interior numa fracção de segundos. 
"Está aqui Isabel!"
Desunimos as mãos e ela pegou no café. 
"Bom, até amanhã então."
Sorri e respondi:
"Até amanhã Isabel" 
Na verdade era quase impossível voltar a encontrá-la. Só no caso de eu estar atrasado ou no caso de ela chegar mais cedo é que nos podiamos voltar a ver.
"Simpática ela..."
"É, simpática e gira! E pelo que sei solteira!"
"És engraçada tu!"

- DIA 4 -

O despertador tocou.

"Aqui está o café..."
"Obrigado..."
Houve uns segundos de pausa.
"Fazes-me um favor?"
"Sim Clara, claro!"
Ela respirou fundo e aconselhou-me:
"Espera por ela!"
Não me conti e soltei uma gargalhada tão grande que o café inteiro olhou para mim.
"Desculpa?"
"Sim, espera pela Isabel, ora!"
Fiquei estupefacto por ela me estar a incentivar a esperar por ela. Na verdade fiquei de boca aberta uns 15 segundos.
"Sim, e digo o quê?"
"Simples! Toma um café comigo."
"E atrasei-me hoje novamente, foi?"
"Não, dizes que ficaste aqui, exactamente para tomar o café da manhã com ela" disse ela a sorrir.
"Não sei porque te dou ouvidos!"
"Shiu! Ainda me vais agradecer! De joelhos! Trago já o café dela, ela deve estar quase aí."
Estava parvo comigo mesmo! Não sabia porque tinha concordado com a ideia. Bom, na verdade sabia. Eu queria conversar com ela e até me pareceu uma boa ideia tomarmos café juntos.
Quando ela entrou já eu estava sentado com os dois cafés. Tenho a impressão que ela nem me viu.
"Bom dia Clara, já sabes é o habitual..."
"Não, não é querida. Hoje é diferente." disse a Clara com o seu ar engraçado.
Consegui notar a sua cara de espanto a falar com ela, e depois passado alguns segundos, olhou para mim e sorriu. Eu levantei-me do sofá e fiz sinal. Ela pegou na mala e dirigiu-se lentamente para a mesinha onde eu estava. Quando chegou ao pé de mim sentou-se, colocou a voz e disse:
"Obrigado pelo café." Fez uma pausa breve "A que se deve todo este cavalheirismo?" disse ela com um ar extremamente doce.
"Pensei que não haveria mal em tomarmos café juntos. Ambos vimos todos os dias a este mesmo café, a horas diferentes, sem companhia. Agora estamos aqui, à mesma hora, ambos com a companhia um do outro."
Ela sorriu e voltou a olhar para mim.
"Mas está atrasado!"  
Olhei para ela, directamente nos olhos, tal e qual como se a estivesse a ler numa fracção de segundos. 
"Não me parece."  


Uma corrente de acontecimentos fizeram com que a conhecesse. E hoje, fico grato por me ter atrasado aqueles 15 minutos.
Não existem coincidências.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

ilusão de óptica


            A chamada terminou. Dois minutos a conversar mudaram a razão de uma semana inteira de lágrimas e sofrimento. Era o esclarecimento de uma história, falsa história, agora. Uma ilusão de óptica. Tudo estava esclarecido e tudo estava claro. Eu estava estático no centro da sala. Não conseguia sair do mesmo ponto, desde que desliguei o telemóvel.
É então que uma corrente de força, vinda não sei de onde, me fez movimentar as pernas e agarrar no casaco. Acho que nunca desci tão rápido as escadas do meu prédio. Abri a porta da rua, e a chuva caía violentamente. Pensei voltar atrás, a sério que pensei, mas não podia, não queria e não podia! Respirei fundo e começei a correr novamente.
Como podia estar errado em relação a algo que me parecia tão real? Ela foi julgada por mim, pela pessoa que mais amava, e não acreditei nela simplesmente. Porque tudo parecia encaixar como um puzzle perfeito.  Era essa a razão pela qual estava a correr. Ela merecia um enorme pedido de desculpas. Na verdade, no lugar dela nem sei se eu próprio me perdoaria. 
E à medida que inspirava e expirava, à medida que levava com cada uma das gotas de água na cara apenas me perguntava: "Como pudeste NÃO acreditar nela?"
As pessoas que olhavam para mim naquele momento tinham a imagem de um adolescente em êxtase, sem chapéu de chuva e completamente ensopado...e com pressa.
Mas eu queria lá saber! Na verdade, sentia-me feliz, por toda a passada semana ter sido uma completa mentira. Não me conseguia pôr no lugar dela, mesmo que me esforçasse imenso. Naquele momento ela devia estar devastada por estar a ser acusada por mim, e por todos. Eu tinha sido um péssimo juíz. E lamento admiti-lo, mas falhei.
Tirei o casaco, e nesta altura já conseguia ver a sua casa. O momento mais vergonhoso e o momento mais feliz da minha vida estavam prestes a acontecer, ao mesmo tempo. Dei finalmente um último passo, e parei. Fiquei ali sem saber o que fazer. A chuva continuava a cair e a minha respiração estava acelarada como se tivesse feito a maratona. Foi então que eu decidi levantar o braço e tocar à campaínha. Olhei para a janela à espera de um pequeno sinal dela. Mas nada. Olhei para o relógio e cada segundo parecia uma eternidade. Não era costume mas comecei a mexer a perna devido à ansiedade. No meio de tudo isto ouvi a janela a abrir-se e quando levantei a cara, dei por ela. Para surpresa minha ela fechou a janela, como se eu fosse um total estranho, antes mesmo de eu poder dizer fosse o que fosse. Senti-me um desastre, senti algo parecido com o que um rapaz de 6 anos sente quando lhe  rebentam um balão.
               A porta abriu e eu sorri ligeiramente, não querendo mostrar uma feição de extrema felicidade. Ela desceu os degraus em menos de nada, e depois parou a um passo de mim. Foi um dos momentos mais longos e mais pesados que vivi.
Quando lhe olhei directamente nos olhos, senti revolta e falta de paixão nela própria. Sem saber o que fazer, susurrei: "amor" e abracei-a. "Perdoa-me".  Ela retribuiu o abraço, e as lágrimas começaram a percorrer-lhe a cara. Eu amava-a, e não acreditei nela. Foi bom senti-la nos meus braços sabendo que não me tinha traído nem mentido, mas ela estava, provavelmente, a sentir exactamente o contrário, que a pessoa que dizia amá-la não acreditou nela.
Isto fez-me ama-la mais. A capacidade de perdoar. Não por me ter perdoado a mim, mas simplesmente por conseguir,  e por saber fazê-lo.

E o perdão é da família do amor.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

a) , b) ou c) ?

Por vezes dou por mim a tentar resolver questões de escolha múltipla da minha prória vida. São das mais difíceis e complexas que alguma vez vi. E o pior de tudo? É que ou se sabe ou não se sabe. Aqui não há "estudos intensivos".
É verdade sim, já tentei "copiar" as respostas mas as perguntas são todas diferentes umas das outras. Então aí, percebo que não existe alternativa senão concentrar-me e decidir o que quero.

 a) , b) ou c) ?

Algumas das perguntas obrigam-me a ficar dias e dias a dar-lhes atenção. E o mais engraçado é que por vezes, independentemente do tempo, falho. E não, não existe correcção possível, ou "segundas oportunidades". Quando erramos tentamos simplesmente fixar a alternativa ou perceber o sentido da coisa para mais tarde, se a voltarmos a encontrar, acertar.
Quando erro, normalmente, digo a mim próprio: "como pudeste ser tão estúpido? Tu até puseste em questão a resposta certa!"
É óbvio que existem perguntas que apenas me afectam ligeiramente, mas outras, as mais complexas, conseguem dar cabo de mim. Talvez me sinta um bocadinho culpado por não ter aberto os olhos e visto e visto de antemão todas as "rasteiras" que ela incluía.
Mas um dia percebi que, neste tipo de perguntas de escolha múltipla não interessa se se erra ou não. O que importa verdadeiramente é se estamos conscientes daquilo que queremos, e que mesmo que seja a resposta errada, que ao menos passemos de ano, ou seja, que cresçamos.

sábado, 25 de setembro de 2010

Rebirth, I think.

Era um final de tarde perfeito. O Sol estava tal e qual uma fatia de laranja cortada ao meio. O mar estava calmo, ainda que com alguma ondulação. Só me encontrava eu na praia naquele momento. Eu estava sentado na areia com os pés completamente enterrados. As lágrimas iam-se formando e, até não terem mais espaço onde ficar, começaram a descer pelo meu rosto. As pontas de cada dedo, como que por magia, fizeram com que desaparecessem. Os meus pés começaram então a movimentar-se, em conjunto com todos os músculos das pernas. Estava finalmente em pé a apreciar a vista magnífica que tinha. Comecei a andar e, incrivelmente as lágrimas voltaram a cair, mas com a diferença de que desta vez as deixei sobreviver. Afinal de contas elas acabarim por se fundir com o mar, e aí ninguém ia distinguir o que eram as minhas lágrimas do que era o mar. A areia, conforme caminhava, ia ficando cada vez mais fria e intacta. Os meus pés chegaram finalmente à água, e queriam voltar para trás. Mas começou a saber-me bem, porque o turbilhão de pensamentos que existia dentro de mim acalmou. Não pensava em mais nada. A única coisa em que pensava era: "tenho frio!"
A ganga começou ficar mais escura e as roupas começaram a pesar mais. Passado alguns segundos tinha água pelos ombros. O meu corpo estava numa espécie de anestesia, não o sentia da mesma maneira. Seguidamente parei e olhei directamente para o Sol. Fechei os olhos e deixei  de movimentar os braços e as pernas, o único meio pelo qual ainda continuava a respirar. Cada cabelo estava agora dentro do mar. Eu era agora parte do mar...ou ele parte de mim. Não se ouviam ruídos, apenas o som das ondas por cima de mim. Inicialmente era a única coisa que conseguia ouvir, mas depois comecei a conseguir ouvir o bater do meu coração cada vez mais acelarado. Passado algum tempo comecei a projectar todo o tipo de memórias, recordações, sons e vivências. Era tudo tão rápido que mal me conseguia prender a cada uma delas. Notei uma pequena sensação de calor na zona do meu peito, mas nem esse facto me preocupou. Comecei apenas a sentir-me mais fraco, e por causa do que estava a acontecer, o local onde me encontrava era agora incerto.
Depois, não sei bem como nem porquê, comecei a subir à superfície.
E numa fracção de segundos... inspirei.
O meu coração naquele momento podia ser comparado com o som de uma bateria a meio de um concerto. Logo depois de ter consumido oxigénio suficiente para me manter vivo uma onda veio contra mim e aí, deixei-me ir. 
Não sei quanto tempo durou tudo aquilo, mas o Sol não era mais a metade da fatia de laranja. Depois de ser levado à beira mar pelos braços das ondas, foi tal e qual como se adormecesse. Mas depois voltei a ser puxado à realidade pelo som das vozes que me rodeavam. Eram três pessoas e Nunca as tinha visto, até então! Independentemente disso, salvaram-me.
E estupidamente, sorri.  

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Que brilhante refúgio

Estou aqui, mas enquanto escrevo não estou exactamente "aqui". Estou em locais onde gostava de estar. Estou com pessoas com quem gostava de estar. Estou a pensar no que será a minha próxima refeição, nos planos para o dia seguinte, estou a pensar nas pessoas que amo, e nas que já amei. Inevitavelmente, também vou para locais, para recordações e especulações menos boas.
Mas não sei porquê acabo sempre por esboçar um sorriso ao pensar em tudo isso. Porque, no fundo todas essas mágoas, dores e sofrimento serviram para construir a pessoa que sou hoje, e por muito básico que seja este facto é pura e simplesmente verdade. Se não tivesse passado por tudo o que passei talvez não tivesse o mesmo carácter e talvez não tivesse a força que tenho hoje.
Óbvio que doeu na altura. Mas, felizmente arranjei maneira de pôr a dor a andar. É como se fosse uma batalha, com dois eus.
Um deles diz:
"És tão fraco. É notório."
E o outro diz:
"Não! Não sou! ... Quase que me convenceste mas não o sou, não me conheces, isto não é a minha totalidade"
E acho que é aqui que me formo. Acho que é neste exacto momento em que subo mais um degrau! É aqui que ganho força.
Que brilhante refúgio.
Na minha opinião ser fraco não é cair. Ser fraco é permanecer no chão, e ignorar as mãos que nos oferecem ajuda.

 E na verdade essas mãos que nos oferecem ajuda são aqueles que amei, aqueles que amo, e aqueles com quem estive nos locais em que estou "agora".
Todas as recordações são nítidas, é tal como ver um filme.


Mas não sei porquê acabo sempre por esboçar um sorriso ao pensar em tudo isso.