sábado, 23 de outubro de 2010

Uns simples minutos mudam uma vida. Ou duas.


Uma corrente de acontecimentos fizeram com que a conhecesse. E hoje, fico grato por me ter atrasado aqueles 15 minutos.

- DIA 1 -
Eram 10:15 da manhã e estava atrasado para o emprego.  
Eu ainda estava a caminho do café matinal como era costume. Fazia parte da minha rotina: sair de casa e logo a seguir ir ao café antes de me dirigir para o trabalho.
Conforme saí do carro, uma rapariga entra no café antes de mim, o que me deixa ainda mais stressado.
A empregada chamada Clara minha ex colega, que me costuma atender todos os dias, quando me viu a entrar pela porta cerca de 20 minutos atrasado do habitual comentou: 
"Não estás atrasado hoje?" 
"Estou, claro que sim!"
A rapariga que tinha entrado antes de mim, percebendo a minha situação, olhou para mim e disse:
"É melhor ser primeiro, eu não tenho pressa."
Sinceramente fiquei sem saber o que dizer. Saiu-me apenas:
"Oh, obrigado"
Ela sorriu e dirigiu-se para trás de mim de forma subtil.
"É o habitual, já sabes!" disse eu para a Clara.
"Vai sentar que já te levo."
Eu soltei uma gargalhada, porque o seu tom de voz foi um tanto ou quanto provocador e engraçado. 
"Eu hoje não me sento!"
Quando me entregou o café olhei para a rapariga e agradeci novamente.
"Vê se chegas a horas amanhã!"
"Sabes que sim!" respondi-lhe literalmente a correr. 


Foi um dia normal tal como todos os outros. Ou pelo menos era o que eu pensava.

- DIA 2 -
Curiosamente, no dia seguinte o meu despertador não tocou, e já eram 10:16 da manhã.
Entrei no café, voltei a ouvir a Clara resmungar que estava atrasado e antes de sair para me dirigir para o carro reparei que a rapariga do dia anterior já estava sentada. Não sei bem porquê mas ela olhou para mim, tal e qual como se tivesse gritado o seu nome. Visto que não estava à espera que tal fosse acontecer limitei-me a sorrir e ela retribuiu um pequeno sorriso, abanando a cabeça ao mesmo tempo, tal como se estivesse a dizer: "atrasado outra vez!".
Saí do café e o dia continuou, naturalmente.

- DIA 3 -
Acordei a horas decentes e a rotina normalisou. Entrei no café, desta vez com um ar mais calmo e sereno, e meti conversa com a Clara:
"Hoje não me atrasei, vês?"

"Estava a tornar-se um hábito!"
Conforme ela acabou de dizer estas palavras a tal rapariga entrou pelo café, com o meu ar do dia anterior, ou seja - "estou atrasado para o emprego".
Quando está precisamente a dois passos de mim, a Clara comenta:
"Tão cedo hoje?"
"Na verdade estou atrasada! Tenho reunião e perdi completamente a noção do tempo!"
Eu achei piada à situação no geral, então olhei para trás e disse:
"É melhor ser primeiro, eu não tenho pressa."
Ela mostrou-me o melhor sorriso do mundo: sincero e belo.
"Obrigada, fico a dever-lhe uma."
"Não não, na verdade estamos quites."
Fiquei admirado quando ela me esticou a mão e disse o seu nome:
"Isabel."
"Chamo-me Afonso, prazer"
Ela estava a olhar-me nos olhos. Era como se estivesse a ler todo o meu interior numa fracção de segundos. 
"Está aqui Isabel!"
Desunimos as mãos e ela pegou no café. 
"Bom, até amanhã então."
Sorri e respondi:
"Até amanhã Isabel" 
Na verdade era quase impossível voltar a encontrá-la. Só no caso de eu estar atrasado ou no caso de ela chegar mais cedo é que nos podiamos voltar a ver.
"Simpática ela..."
"É, simpática e gira! E pelo que sei solteira!"
"És engraçada tu!"

- DIA 4 -

O despertador tocou.

"Aqui está o café..."
"Obrigado..."
Houve uns segundos de pausa.
"Fazes-me um favor?"
"Sim Clara, claro!"
Ela respirou fundo e aconselhou-me:
"Espera por ela!"
Não me conti e soltei uma gargalhada tão grande que o café inteiro olhou para mim.
"Desculpa?"
"Sim, espera pela Isabel, ora!"
Fiquei estupefacto por ela me estar a incentivar a esperar por ela. Na verdade fiquei de boca aberta uns 15 segundos.
"Sim, e digo o quê?"
"Simples! Toma um café comigo."
"E atrasei-me hoje novamente, foi?"
"Não, dizes que ficaste aqui, exactamente para tomar o café da manhã com ela" disse ela a sorrir.
"Não sei porque te dou ouvidos!"
"Shiu! Ainda me vais agradecer! De joelhos! Trago já o café dela, ela deve estar quase aí."
Estava parvo comigo mesmo! Não sabia porque tinha concordado com a ideia. Bom, na verdade sabia. Eu queria conversar com ela e até me pareceu uma boa ideia tomarmos café juntos.
Quando ela entrou já eu estava sentado com os dois cafés. Tenho a impressão que ela nem me viu.
"Bom dia Clara, já sabes é o habitual..."
"Não, não é querida. Hoje é diferente." disse a Clara com o seu ar engraçado.
Consegui notar a sua cara de espanto a falar com ela, e depois passado alguns segundos, olhou para mim e sorriu. Eu levantei-me do sofá e fiz sinal. Ela pegou na mala e dirigiu-se lentamente para a mesinha onde eu estava. Quando chegou ao pé de mim sentou-se, colocou a voz e disse:
"Obrigado pelo café." Fez uma pausa breve "A que se deve todo este cavalheirismo?" disse ela com um ar extremamente doce.
"Pensei que não haveria mal em tomarmos café juntos. Ambos vimos todos os dias a este mesmo café, a horas diferentes, sem companhia. Agora estamos aqui, à mesma hora, ambos com a companhia um do outro."
Ela sorriu e voltou a olhar para mim.
"Mas está atrasado!"  
Olhei para ela, directamente nos olhos, tal e qual como se a estivesse a ler numa fracção de segundos. 
"Não me parece."  


Uma corrente de acontecimentos fizeram com que a conhecesse. E hoje, fico grato por me ter atrasado aqueles 15 minutos.
Não existem coincidências.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

ilusão de óptica


            A chamada terminou. Dois minutos a conversar mudaram a razão de uma semana inteira de lágrimas e sofrimento. Era o esclarecimento de uma história, falsa história, agora. Uma ilusão de óptica. Tudo estava esclarecido e tudo estava claro. Eu estava estático no centro da sala. Não conseguia sair do mesmo ponto, desde que desliguei o telemóvel.
É então que uma corrente de força, vinda não sei de onde, me fez movimentar as pernas e agarrar no casaco. Acho que nunca desci tão rápido as escadas do meu prédio. Abri a porta da rua, e a chuva caía violentamente. Pensei voltar atrás, a sério que pensei, mas não podia, não queria e não podia! Respirei fundo e começei a correr novamente.
Como podia estar errado em relação a algo que me parecia tão real? Ela foi julgada por mim, pela pessoa que mais amava, e não acreditei nela simplesmente. Porque tudo parecia encaixar como um puzzle perfeito.  Era essa a razão pela qual estava a correr. Ela merecia um enorme pedido de desculpas. Na verdade, no lugar dela nem sei se eu próprio me perdoaria. 
E à medida que inspirava e expirava, à medida que levava com cada uma das gotas de água na cara apenas me perguntava: "Como pudeste NÃO acreditar nela?"
As pessoas que olhavam para mim naquele momento tinham a imagem de um adolescente em êxtase, sem chapéu de chuva e completamente ensopado...e com pressa.
Mas eu queria lá saber! Na verdade, sentia-me feliz, por toda a passada semana ter sido uma completa mentira. Não me conseguia pôr no lugar dela, mesmo que me esforçasse imenso. Naquele momento ela devia estar devastada por estar a ser acusada por mim, e por todos. Eu tinha sido um péssimo juíz. E lamento admiti-lo, mas falhei.
Tirei o casaco, e nesta altura já conseguia ver a sua casa. O momento mais vergonhoso e o momento mais feliz da minha vida estavam prestes a acontecer, ao mesmo tempo. Dei finalmente um último passo, e parei. Fiquei ali sem saber o que fazer. A chuva continuava a cair e a minha respiração estava acelarada como se tivesse feito a maratona. Foi então que eu decidi levantar o braço e tocar à campaínha. Olhei para a janela à espera de um pequeno sinal dela. Mas nada. Olhei para o relógio e cada segundo parecia uma eternidade. Não era costume mas comecei a mexer a perna devido à ansiedade. No meio de tudo isto ouvi a janela a abrir-se e quando levantei a cara, dei por ela. Para surpresa minha ela fechou a janela, como se eu fosse um total estranho, antes mesmo de eu poder dizer fosse o que fosse. Senti-me um desastre, senti algo parecido com o que um rapaz de 6 anos sente quando lhe  rebentam um balão.
               A porta abriu e eu sorri ligeiramente, não querendo mostrar uma feição de extrema felicidade. Ela desceu os degraus em menos de nada, e depois parou a um passo de mim. Foi um dos momentos mais longos e mais pesados que vivi.
Quando lhe olhei directamente nos olhos, senti revolta e falta de paixão nela própria. Sem saber o que fazer, susurrei: "amor" e abracei-a. "Perdoa-me".  Ela retribuiu o abraço, e as lágrimas começaram a percorrer-lhe a cara. Eu amava-a, e não acreditei nela. Foi bom senti-la nos meus braços sabendo que não me tinha traído nem mentido, mas ela estava, provavelmente, a sentir exactamente o contrário, que a pessoa que dizia amá-la não acreditou nela.
Isto fez-me ama-la mais. A capacidade de perdoar. Não por me ter perdoado a mim, mas simplesmente por conseguir,  e por saber fazê-lo.

E o perdão é da família do amor.