sexta-feira, 8 de outubro de 2010

ilusão de óptica


            A chamada terminou. Dois minutos a conversar mudaram a razão de uma semana inteira de lágrimas e sofrimento. Era o esclarecimento de uma história, falsa história, agora. Uma ilusão de óptica. Tudo estava esclarecido e tudo estava claro. Eu estava estático no centro da sala. Não conseguia sair do mesmo ponto, desde que desliguei o telemóvel.
É então que uma corrente de força, vinda não sei de onde, me fez movimentar as pernas e agarrar no casaco. Acho que nunca desci tão rápido as escadas do meu prédio. Abri a porta da rua, e a chuva caía violentamente. Pensei voltar atrás, a sério que pensei, mas não podia, não queria e não podia! Respirei fundo e começei a correr novamente.
Como podia estar errado em relação a algo que me parecia tão real? Ela foi julgada por mim, pela pessoa que mais amava, e não acreditei nela simplesmente. Porque tudo parecia encaixar como um puzzle perfeito.  Era essa a razão pela qual estava a correr. Ela merecia um enorme pedido de desculpas. Na verdade, no lugar dela nem sei se eu próprio me perdoaria. 
E à medida que inspirava e expirava, à medida que levava com cada uma das gotas de água na cara apenas me perguntava: "Como pudeste NÃO acreditar nela?"
As pessoas que olhavam para mim naquele momento tinham a imagem de um adolescente em êxtase, sem chapéu de chuva e completamente ensopado...e com pressa.
Mas eu queria lá saber! Na verdade, sentia-me feliz, por toda a passada semana ter sido uma completa mentira. Não me conseguia pôr no lugar dela, mesmo que me esforçasse imenso. Naquele momento ela devia estar devastada por estar a ser acusada por mim, e por todos. Eu tinha sido um péssimo juíz. E lamento admiti-lo, mas falhei.
Tirei o casaco, e nesta altura já conseguia ver a sua casa. O momento mais vergonhoso e o momento mais feliz da minha vida estavam prestes a acontecer, ao mesmo tempo. Dei finalmente um último passo, e parei. Fiquei ali sem saber o que fazer. A chuva continuava a cair e a minha respiração estava acelarada como se tivesse feito a maratona. Foi então que eu decidi levantar o braço e tocar à campaínha. Olhei para a janela à espera de um pequeno sinal dela. Mas nada. Olhei para o relógio e cada segundo parecia uma eternidade. Não era costume mas comecei a mexer a perna devido à ansiedade. No meio de tudo isto ouvi a janela a abrir-se e quando levantei a cara, dei por ela. Para surpresa minha ela fechou a janela, como se eu fosse um total estranho, antes mesmo de eu poder dizer fosse o que fosse. Senti-me um desastre, senti algo parecido com o que um rapaz de 6 anos sente quando lhe  rebentam um balão.
               A porta abriu e eu sorri ligeiramente, não querendo mostrar uma feição de extrema felicidade. Ela desceu os degraus em menos de nada, e depois parou a um passo de mim. Foi um dos momentos mais longos e mais pesados que vivi.
Quando lhe olhei directamente nos olhos, senti revolta e falta de paixão nela própria. Sem saber o que fazer, susurrei: "amor" e abracei-a. "Perdoa-me".  Ela retribuiu o abraço, e as lágrimas começaram a percorrer-lhe a cara. Eu amava-a, e não acreditei nela. Foi bom senti-la nos meus braços sabendo que não me tinha traído nem mentido, mas ela estava, provavelmente, a sentir exactamente o contrário, que a pessoa que dizia amá-la não acreditou nela.
Isto fez-me ama-la mais. A capacidade de perdoar. Não por me ter perdoado a mim, mas simplesmente por conseguir,  e por saber fazê-lo.

E o perdão é da família do amor.

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