domingo, 21 de novembro de 2010

A vida familiar de Eva





"Eva estava no limite.

Pertencia a uma família de classe média alta.
Há três anos que a história era sempre a mesma. O pai começou a beber regularmente, e ver as discussões entre os pais tiravam-lhe toda a sua energia. 
Ela estava deitada na cama a assistir a mais um dos filmes: "mãe e pai numa discussão", mas desta vez a paciência e força, para superar todo o cenário, já não eram tanta.
Eva estava no limite. E desta vez estava mesmo. Ela levantou-se da cama e dirigiu-se à janela, simplesmente. O barulho entrava pelo quarto como se estivessem ambos ali, a discutir à sua frente. Eva voltou para a cama, mas desta vez nem se limitou a tentar dormir. Pôs os fones nos ouvidos e fechou os olhos. A realidade começava agora a ser afastada, cada vez mais. A música, a pintura e o canto tinham sido a sua "saída de emergência" nos últimos anos.
Ela acabou por adormecer envolvida num manto de pensamentos.
A manhã seguinte foi comum a qualquer outra, arranjou-se para a escola e saiu de casa sem fazer o mínimo barulho. Eva era perita em fugir sem deixar rasto.
No final do dia, Eva estava com a melhor amiga, a irmã com quem nunca teve a sorte de partilhar o mesmo ADN. Enquanto falavam entretidas, Eva recebeu um telefonema da mãe completamente de rastos e as suas únicas palavras foram: "Vem para casa, por favor" ao que ela respondeu: "vou levar a Sofia". E a chamada terminou.
Sofia estava a par de cada pequeno detalhe da sua vida familiar e o quanto Eva sofria, e no quão no limite se encontrava. O caminho até casa foi um pouco stressante para Eva. Ela era uma pessoa extremamente calma e sempre pôs a família num patamar bastante elevado, senão no mais importante, mas ultimamente ela tinha vindo a conhecer uma parte dela mais arrogante e muito menos paciente. Na verdade era compreensível, ver o pai alcoolizado dia sim dia não, durante 3 anos consecutivos deveria ser no mínimo sufocante. Por um lado ela sentia uma raiva enorme quando o via a gritar com a própria mulher, mas por outro percebia toda a sua situação: tinha de gerir uma empresa, olhar pela família, e ainda tinha o peso de toda uma infância problemática em que perdeu o pai e um dos irmãos. Mas Eva achava-o egoísta e fraco por não conseguir ser forte o suficiente e não conseguir olhar para todas aquelas situações como testes evolutivos.
Mal pôs a chave à porta o som, já habitual, dos gritos começou a ser ouvido por ambas as raparigas. A expressão calma e serena de Eva não estava mais presente. Esta agarrou na mão de Sofia e dirigiram-se para o quarto, apressadamente. Sofia começou então com um longo discurso em que lhe pedia para ter calma e não agir de cabeça quente. Eva, completamente descontrolada, agarrou numa mala e começou a pôr roupa ao acaso dentro dela juntamente com todos os produtos de higiene dentária, isto tudo sem deixar escapar uma única palavra. Depois da mala estar pronto dirigiu-se à mãe e ao pai, como se nada fosse.
 - Mãe, vou dormir a casa da Sofia hoje.
 - Sim, sim. Vai. Ia pôr-te essa hipótese.
 - Até amanhã.
 - E onde é que pensas que vais? - perguntou o pai irritado.
As lágrimas começaram a formar-se nos olhos de Eva, mas esta manteve sempre uma postura séria e austera como antes.
 - Como se tivesses o mínimo de interesse.  
Eva dirigiu o olhar a Sofia em que esta percebeu ser a permissão para dormir em sua casa. Sofia sorriu tristemente, devido à situação, e pegou na mala dela ao mesmo tempo em que esta abria a porta de entrada. Ultimamente nem lhe podíamos chamar "porta de entrada" soava muito melhor aos ouvidos de Eva "porta de saída" ou até mesmo "porta da liberdade".
Júlia, mãe de Sofia, já estava completamente habituada a ter a "filha adoptiva" como hospede. Sabia de toda a situação, não pela filha mas sim pela própria mãe. Eram amigas há bastante tempo mas esta sentia-se impotente perante os factos, mas ao ajudar a filha já se sentia automaticamente a ajudar a mãe, o que a deixava mais aliviada.
Sofia mal saiu do alcance da mãe começou a arranjar mil e uma coisas para a distrair. Ela era boa nisso, com ela Eva conseguia mesmo divertir-se e soltar gargalhadas que durassem mais do que 5 segundos. Na presença dela, esquecia-se da família, ou melhor dos pequenos grandes dramas e problemas familiares.
Nessa noite Eva não ouviu nenhum som de voz para além das gargalhadas compulsivas de ambas. Fora isso, foi uma noite de completo sossego. Silêncio. Paz.  

Eva estava disposta a mudar as coisas. Estava disposta a sair de casa e acabar com todo o seu sofrimento diário. Tinha 18 anos, era um facto, mas sempre achou que isso não era razão para faltar ao respeito da mãe, daí ter decidido ir falar primeiro com a mãe antes de sair sem dar qualquer explicação.

No dia seguinte voltou a casa. Era um sábado frio, quase chuvoso. O pai continuava na cama, o que a deixava mais à vontade para falar com a mãe.
As primeiras palavras da mãe, mal a viu, foram "desculpa" por, mais uma vez, ter assistido a uma triste discussão e desta vez com a bónus de ser na companhia da melhor amiga.
Eva não aguentou mais e as palavras tão desejadas saíram finalmente:
- Mãe, vamos embora.
A expressão facial da mãe era correspondente à resposta.
- Eu não posso, querida. Não posso deixar o teu pai sozinho.
- Podes sim, ele é crescido e dinheiro não lhe falta. Ele fica bem.
- Eva...tu não percebes.
Estas palavras foram o impulso necessário e que Eva estava à espera para poder explodir.
- Não mãe, tu é que não percebes. Não tens a mais pálida noção daquilo que sinto nas noites em que vos oiço aos dois a discutir. Não sabes como me sinto quando oiço vidros a partir ou quanto oiço portas a abrir e a fechar. Não calculas o que sofro quando tenho um mau dia e chego a casa e recebo como consolo um pai bêbado e uma mãe fraca que se recusa a ver que o marido não está bem!"
"Eva! Pára! Tu não eras assim. Eras compreensível e sempre foste a mais calma da família. Eu compreendo tudo isso mas tenta..."
"Mas isso mudou mãe, eu tenho limites, e sou uma pessoa normal como as outras. Tem sido assim desde os meus 15 anos, como é suposto reagir? Não sou uma boneca de porcelana, sou tua filha e a tua filha tem sentimentos e só quer ter um ambiente familiar e estável, será pedir muito?"
"Sempre te demos tudo o que querias, não é uma fase fácil Eva..."
"Não, não deram. Ultimamente têm-se esquecido do essencial, sabes?"
Sempre lhe tinham dado muito dinheiro, mas Eva sentia que o principal necessário, o carinho dos pais lhe faltava e era o que mais queria. Sentia falta disso à três anos por parte deles. Por isso é que a vida social lhe era tão importante porque começou em busca de amor fora das paredes de casa.
Desta vez Eva tinha a plena noção que o ponto final da discussão não seriam as suas lágrimas, daquela vez não era assim que a discussão ia terminar.
"Eu vou-me embora, de vez. Tu vens?"
"Filha..."
"Mãe, vens ou não vens?"
Eva sabia qual seria a resposta, no fundo sempre soube, não a julgava por isso mas ela já não era a menina indefesa e a menina dos pais como sempre se foi. As coisas estavam diferentes. Durante 3 anos a mágoa e sofrimento de Eva tinham-na feito crescer, e perceber que a vida era mais do que o conto de fadas que lhe era contado antes de adormecer. Eva estava uma mulher, madura e consciente.
"Eu..."
Eva naquele momento percebeu que não era apenas o pai que precisava de ajuda, mas também a mãe. Ela ia embora definitivamente. Não aguentava mais aquele espaço e aqueles dois seres humanos. Tudo aquilo era sufocante e lhe davam, quase, impulsos suicidas e homicidas. Eva pousou a mão no balcão e foi fazer as malas, desta vez numa quantidade bastaste superior.
Quando pousou as malas à porta voltou a dirigir a palavra à mãe:
- Tens mesmo a certeza mãe?
- Tenho, sim.
- Sempre foi tudo por vocês. Está na altura de fazer algo por mim e por vocês, ao mesmo tempo.
Eva não notou, mas enquanto esta pegava nas malas a mãe desfez-se em lágrimas, tal e qual como uma criança quando perde algo que estima.
Nada foi fácil para ambas, não se pode avaliar quem sofreu mais nestes três anos. Ou podemos? Quem sofreu mais nesta história toda. Eva? A mãe, ou o próprio pai?
Eva tinha a plena noção que não era a única a sofrer, mas não tinha alternativa senão sair dali.
Eva era perita em fugir sem deixar rasto. Mas desta vez não era essa a sua intenção.
A mãe de Sofia já tinha proposto várias vezes para que Eva se mudasse lá para casa durante uns tempos, e foi desta vez que aceitou. Eva sabia que Sofia ia ficar radiante.
Na família de Eva ninguém sabia do que se passava, nem mesmo a sua tia mais próxima. O desespero de Eva fez com que esta lhe quisesse contar, e ela sabia perfeitamente que se lhe contasse ela teria uma atitude exemplar como sempre tinha tido até então. Aquela tia era conhecida como o pilar da família e conhecida como o líder, sem ninguém lhe dizer é claro, mas era.
No caminho para casa de Sofia, Eva pegou no telemóvel e começou a escrever. Desta vez o papel da pessoa sem limites e enervada tinha sido posto de parte e tinha sido substituído pelo papel de rapariga sensível. Pelo papel da própria Eva. As lágrimas formaram-se novamente, desta vez sem serem símbolo de tristeza mas sim lágrimas de alívio e do resultado da revivência dos últimos três anos. O peso no peito ia passando conforme ia contando a sua própria história à tia. As últimas palavras na mensagem foram:


                                                                                                    
  Para: Tia Zé                                                                                 
                                                                                                      
  A mãe precisa de ajuda. E acho que eu também. Amo-te              
  Eva                                                                                               
                                                                                                       
                                                                                                      


- MENSAGEM ENVIADA -




Eva tinha a plena noção que aquela mensagem ia mudar tudo. Mas não a tinha conseguido enviar antes. Talvez por medo de admitir que todos precisavam de ajuda e que ela própria esteve a sofrer imenso com a situação. 
Ao enviar a mensagem à  tia, Eva sentiu-se a acordar de um pesadelo duradouro, que parecia não ter fim. Mas sabia que ia acabar brevemente. Eram uma família, apesar de tudo.

E Eva não era como o pai, Eva no fundo sabia perfeitamente olhar para todas aquelas situações como testes evolutivos.