domingo, 26 de dezembro de 2010

Bem-vindo de volta, desastre.


http://www.youtube.com/watch?v=k-ImCpNqbJw


Quando entrei dentro do táxi percebi que o frio era ainda maior. O condutor estava à espera que lhe dissesse para onde queria ir, e mal ele sabia de onde eu tinha vindo e para onde eu ia. Na verdade só me apetecia gritar:

- Para casa! 

Depois de lhe dizer para onde queria ir, e depois do carro começar a andar, passei a mão pelo vidro da janela. Queria ver tudo, ou melhor, queria rever tudo. Estava ansioso por rever a família e amigos de infância. Naquele momento não queria lembrar os motivos pelo qual deixei tudo aquilo. Sentia-me totalmente diferente da pessoa que me estava a transformar quando deixei para trás tudo e todos. O objectivo era partir sem levar comigo toda aquela riqueza e toda aquela identificação de poder.
Sempre tive medo de não ter a capacidade de ser humilde o suficiente, e era o que estava a acontecer. Eu estava a tornar-me, aos poucos e poucos, a pessoa fútil e sem sentimentos que recusava admitir. No fundo, afastei-me das raízes para me perder e voltar a encontrar. Foi preciso perder a maior parte das coisas para ficar saudável novamente, para voltar a ser o que era antes de tudo se desmoronar. 
De um momento para o outro comecei a lembrar-me das ruas e de todos os cantos que frequentava. A simples imagem do colégio em que estive inserido durante anos foi a alavanca para ficar emocionado. Sempre pensei que seria mais forte e que o regresso a casa não fosse tão pesado e doloroso, mas estava a ser. Era como ver um filme que já não vemos há muito tempo, mas que para nosso bem tivemos de o deixar de ver, para não enjoar. 
Passado uns cinco minutos o táxi dá a volta a uma rotunda e eu sabia que estávamos perto de minha casa. Quando o carro parou estava em frente ao enorme portão. A cara do taxista era um símbolo cómico porque demonstrava a 100% o seu choque perante o que estava a ver. 
- É aqui? 
- É sim. 
Eu saí do táxi e o segurança dirigiu-se a mim. 
- Boa dia. 
- Bom dia. Sou eu Sr. Mendes, o Martim. 
Ele fechou os olhos durante uns segundos e disse:
- Menino Martim? 
- Sim, sou eu! 
Era adorável a sua reacção, e surpreendentemente abraçou-me. 
- Bem Vindo a Casa.
O Táxi entrou pelos portões da casa apalaçada logo depois. Quando o carro voltou a parar o condutor limitou-se a ficar imóvel no banco. 
- Pode ajudar-me com a bagagem novamente? 
Notou-se o olhar atrapalhado do senhor:
- Claro. 
Levámos as coisas até ao cimo das escadas. Olhei em volta e apreciei a paisagem à bastante esquecida que me era dada todos os dias, antes de ter partido. Esbocei um sorriso de orelha a orelha e agora o nervosismo começava a sentir-se. Depois de ter pago e agradecido ao taxista subi as escadas novamente, pronto para o reencontro, para o que viesse, para os abraços, lágrimas e sorrisos. 
Toquei à campainha. Inevitavelmente comecei a saltitar no mesmo ponto onde me encontrava. A porta começou a abrir-se e pensei: "é agora". 
Era a governanta, a minha querida amiga e companheira de tempos difíceis: D.Helena. 
Foi um dos melhores sorrisos que vi na vida. 
- Menino Martim! 
Levei a mão à boca, tapando-a, emocionado por vê-la. Ela veio direita a mim e abraçou-me. Digamos que quase que me partiu as costelas, e repetia sempre o mesmo:
- Menino Martim. Menino Martim. Menino Martim.
Eu sorria mesmo que ela não estivesse a ver. Era bom voltar a sentir o seu carinho, e voltar a ouvir o meu nome chamado por ela, só como ela o sabia dizer. Olhou para mim e voltou a abraçar-me, desta vez realmente comovida. 
- Vamos para dentro. Está frio! 
Seguia-a. O Hall de Entrada estava na mesma, por estranho que pareça. A minha mãe pouco ou nada tinha alterado. 
- A Srª vai ficar tão espantada quando o vir. Ninguém esperava que viesse!
- Era esse o objectivo Helena. Quis vir agora, e de surpresa. 
- Está com melhor aspecto menino. 
Respondi-lhe com um dos meus sorrisos parvos, mas puros: 
- E a Helena continua na mesma. A Governanta mais esbelta e doce que alguma vez tive oportunidade de conhecer. 
De súbito ouvimos passos a vir do andar de cima. Olhámos os dois ao mesmo tempo sem dizermos uma única palavra. 
- Martim? 
A minha mãe. Olhei para ela, e foi aí que milhares de pensamentos me atingiram. Tudo o que se tinha passado naquela casa, todos os confrontos, todas as guerras, pareciam agora desfeitos e esquecidos. Pareciam.
- Martim! 
Ela desceu as escadas como se de uma criança se tratasse. Chegou junto a mim e disse: 

- Meu querido! 
Nunca esperei tal atitude pela parte dela. Afectos e beijos eram coisas que não ligavam com a Srª Vilar. 
Foi então que caiu nela e me largou, agora mais calma e serena. 
- Vieste sem dizer nada! Porquê agora? 
- Porque não? 
- Estou tão contente por te ver! 
- E eu a ti, mãe. 
- Anda lá dentro, os teus irmãos e o teu pai têm saudades. 
Acabei por me rir quando a ouvi dizer aquilo, do género: "imagino". 
Entrei no salão e lá estavam eles. A Laura veio logo abraçar-me completamente eufórica. 
O Gustavo manteve-se imóvel de boca aberta. E o meu pai. O meu pai olhou para mim tentando ser o mais simpático possível, mas ambos sabíamos que era ele a representar, pura e simplesmente. 
Ele levantou-se, dirigiu-se a mim, enquanto abraçava a Laura, e disse: 
- Bem vindo de volta. 
Continuei a falar com ela como se nada fosse, até que decidi "ouvi-lo". 
- Pai - disse eu sorrindo ligeiramente. 
Ela correu para o sofá novamente gritando vezes sem conta: "o mano voltou! yeah! o mano voltou!" 
O meu pai pousou-me a mão no ombro.
- Sentimos a tua falta. 
Respondi baixo e firmemente.
- E eu a vossa. 
Dirigi-me ao Gustavo, por um lado para evitar o meu pai e por outro porque na verdade, depois de todas as brigas que tive com ele, sentia a sua falta. De todos, penso que era o de quem mais sentia. 
- G. 
Ele manteve-se estático a olhar para mim. 
Nem uma palavra. 
Nem um som. 
Até que ajeitou a voz...
- Olá Martim. 
Disse aquilo tal e qual como se me tivesse visto ontem, ou até mesmo à 5 minutos. 
Não sabia o que dizer. Na verdade, o ambiente estava pesado e silencioso. 
- Bom, eu vou preparar qualquer coisa para o menino comer, sim? 
- Obrigado Helena, agradecia. 
- Pode vir comigo? 
- Claro... 

Entrámos na cozinha. Ali sim, haviam algumas mudanças. Novos desenhos no frigorífico, electrodomésticos novos, etc. 
- Menino, eu quis que viesse comigo porque...porque o menino Gustavo tem sentido a sua falta. Por favor, não lhe diga nada, se ele sabe que lhe contei corta-me a cabeça, literalmente! 
- Esteja descansada eu não lhe conto.
- Ele sofreu bastante quando partiu. 
- Ai foi? Pelas atitudes dele ele não me estimava lá muito. Porque sofreria? 
- Ele sempre gostou de si, mas...sabe bem que ele sempre foi como a sua mãe. Diferente de si e da menina Laura que mostram sentimentos e pedem afectos. Ele tem bom coração, mas você conhece-o, ele é difícil. 
- Continua? 
- Ainda mais depois do menino ter partido. 
- Que bom! 
- Vá, volte para dentro e tente animar os ânimos. Por favor. 
- Será que fiz bem em voltar depois destes anos, Helena? 
- Tinha de voltar menino, algum dia. E para além disso, a sua família pode precisar de si agora. 

Olhei para ela. 
Era normal as coisas terem mudado após a minha ida para o estrangeiro. Mas não liguei muito ao facto da Helena dizer: "a sua família pode precisar de si agora". 
Mas... 
ela tinha razão.
Ela agarrou-me na mão e disse: 
- Estou tão contente por tê-lo de volta Martim.
  

 CONTINUA...