segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Exige a chave, se te faltar o ar.


Eu era apenas mais um membro da família. 
Nada me distinguia da minha mãe quando ela era mais nova. Podemos mesmo afirmar que eu era a sua cópia. Fotocópia, aliás, pois eu tinha tudo, menos cor.
Cada palavra, cada gesto eram simplesmente a força da minha mãe a mexer na marioneta. Ela mexia, eu mexia. 
No carro, mais uma discussão entre a minha mãe e o meu pai. O ar estava a faltar-me. Literalmente. Discretamente pressionei o botão à minha esquerda e a janela abriu suavemente. A  brisa acariciou-me e todo o meu corpo agradeceu. Do lado de fora da janela estavam um casal de jovens fixados a olharem para mim. Na verdade, passados alguns segundos, apercebi-me que não era exactamente para mim que estavam a olhar, mas sim para o enorme e luxuoso objecto que me engolia, o carro. Só depois repararam que havia também uma jovem dentro dele. Alguns seres humanos têm sempre como prioridade os objectos e só depois as pessoas, e o seu interior. 
- Quem te mandou abrir a janela?
Acordou da discussão sem eu própria me aperceber, e o seu próximo passo era descarregar a dor e tristeza na única e habitual: eu mesma. 
Mantive-me a olhar para os jovens até a janela fechar por completo. 
- Beatriz!
Estou a falar consigo, era a próxima fala. 
- Estou a falar consigo! 
- Desculpe, mãe.
- Artur, por favor, faça-nos chegar a tempo. 
Artur, o motorista. Há mais de uma década a trabalhar para a mesma família, tendo as mesmas ordens e estando sempre a ouvir os mesmos problemas e futilidades. 
Ele apenas acena com a cabeça. 
O ar começa a faltar-me outra vez. Desta vez com mais intensidade. Eu só queria chegar à mesa de jantar, fazer o meu papel, voltar para casa e meter-me dentro da cama. 
O Artur estacionou perto das escadas e abriu a porta à minha mãe, e então depois a mim.
- Beatriz...querida. Limite-se a comer, a sorrir e a noite passará tão rápido que nem se irá aperceber. Sim?
Um leve sorriso era a minha resposta afirmativa, isso bastava.
Entrámos pelas duas grandes portas douradas. Primeira captação: Doze mesas circulares, quadros valiosíssimos, uma orquestra tocando Vivaldi, cinco ou seis empregados em movimento, velas,e um enorme, enorme som a...desespero.
A companhia habitual esperava-nos. Válter, Rute, Carmen, Carlos e...mais alguns. Estes recordava apenas por serem bastante faladores. Chegando mesmo a serem chatos a certo ponto. 
Sentei-me e acendi um sorriso. Do meu lado esquerdo tinha o meu pai e do meu lado direito Carmen. Preferia Carmen do meu lado direito à minha própria mãe. Conseguiria aturar até Válter! Menos a minha mãe. Não naquela noite. 
Impressionante como em certo momento Vivaldi encaixou perfeitamente no ambiente. Todos sorriam e davam gargalhadas e eu mantinha-me petrificada a olhar-lhes. Não a eles, mas sim às suas maravilhosas personagens. Posso garantir-vos que 90% dos diálogos eram trabalhados e severamente pensados. 
Por momentos desviei o olhar para o orquestra. Conforme a música se ia desenrolando, e a conversa na mesa ia apodrecendo, o meu oxigénio ia sumindo ao sabor dos acontecimentos.
Mantinha-me com uma das mãos a agarrar os dedos da outra, com o queixo a repousar em ambas. A salvação, por fim, chegou à mesa, nas mãos dos belos empregados: as tartes de maçã. Uma delas foi pousada mesmo à minha frente, dando eu ordem ao empregado para me servir. Não sei bem como mas penso que até o empregado notou a minha ausência de paciência, oxigénio e motivação teatral. Ele próprio deixou escapar um pequeno sorriso, com o qual me contive para não sorrir demasiado. 
Assim que pus a torta à boca voltei ao meu estado normal numa noite em família. Desempenhei o papel na perfeição a partir daí. O sinal da minha mãe acordou-me dizendo que o jantar tinha terminado. Uma ligeira tosse era o sinal. 
Calcei os sapatos imediatamente, pois a meio da noite resolvi tira-los. Sentia-me presa de todas as formas, porque não tirar os sapatos? Tudo o resto era evidente. O retirar dos sapatos não. Despedimo-nos e saímos todos da enorme sala.
Artur estava dentro do carro, já à nossa espera. 
- A Rute, grávida? - encarava a minha mãe o facto. 
- Foi o momento mais difícil da noite para não me desmanchar em risos - disse o meu pai.
Houve uma notícia de gravidez naquela noite e nem me apercebi. Apenas rezava para que a filha não saísse parecida à mãe, e nisto falo interiormente, embora não ache Rute minimamente atraente. 
Finalmente chegámos aos portões de casa. Mais três minutos e estaria no meu quarto. Assim que passei a porta principal corri pela escadaria cima até me enfiar no quarto. Dirigi-me à janela e abri-a totalmente. Ar fresco! Sentia os meus pulmões a sorrir de alívio. A paz foi interrompida assim que ouvi baterem-me à porta. 
- Está tudo bem, menina? 
Eram as duas empregadas que me seguiam quase para todo o lado. Uma delas, a extremamente magra, sorriu-me. 
- Sim, está tudo bem. 
- A sua mãe disse para lhe abrirmos a cama... 
Quase não terminaram a frase e já estavam dentro do meu quarto, de volta da enorme cama. Dirigi-me à casa de banho. Vesti a camisa de dormir branca e caminhei para a cama. 
- Durma bem, menina. Chama-lá-emos de manhã. 
- Boa noite às duas. Podem ir. 
Assim que saíram, levantei-me para voltar a abrir a janela que tinham fechado. 
No dia seguinte, às sete horas e meia, o professor bateria à porta, portanto, as empregadas acordavam todas as pessoas da casa por volta das seis horas, o que nos dava tempo suficiente para um banho e tomar o pequeno-almoço descansadamente. 
Depois de mais uma aula cansativa dada pelo professor na minha própria casa, decidi pedir ao Artur, gentilmente, para me levar a ver o rio. Há bastante tempo que já lá não ia, os dias ultimamente tinham sido como estar presa, só que na minha própria casa, no meu próprio lar.
- Com certeza, Beatriz. - disse o Artur. 
Artur era das únicas pessoas presentes daquela casa que penso compreender-me realmente. Ele no fundo compreendia o meu sofrimento e a minha falta de ar. Porque sempre desconfiei que ele passava pelo mesmo mal. 
Assim que chegámos ao rio, saí do carro. Para sorte minha, o vento correu na minha direcção novamente. Só precisava de um momento de sossego, sem empregadas, sem mãe, sem pai, sem mordomias, sem nada disso. Só pedia quatro...minutos.
Enquanto os meus olhos absorviam toda a paisagem, detectaram um humano. E não, não era Artur. Era alguém mais jovem, um rapaz. 
Dei dois passos à frente e consegui perceber que estava a pintar, bastante concentrado.
A minha vontade era aproximar-me dele. Conforme ia perguntando a mim mesma se me devia aproximar ou não, ele olhou para mim. Como é óbvio, primeiro olhou para o carro e depois para mim. Mas fiquei um tanto ou quanto surpreendida pois pouco tempo desperdiçou a apreciar o carro. Depois desses poucos segundos a olhá-lo, manteve os olhos afundados em mim. Nos meus olhos. Senti-me a corar. 
Tomei uma decisão e andei na sua direcção. Era esquisita a sensação quando olhava para ele. Como hei-de explicar? Olhava para ele e era como se eu pudesse ser quem quisesse, pois eu olhava-o e via-o, na sua simples forma. Para mim, ele era ele, simples e verdadeiro. Ao contrário de mim, que me sentia uma boneca, sem personalidade, e por vezes sem verdade alguma. 
- Guzu. 
Interrompeu a minha batalha interior ao pronunciar o seu nome.
- Guzu? - repeti eu. 
- Sim, trata-me por Guzu. 
Não sabia se havia de estar perplexa devido ao nome, ou devido ao facto de ele me ter realmente falado. 
- Guzu, será. 
- E o teu nome é? 
- Beatriz. Beatriz, é o meu nome...
Conseguia sentir o meu corpo a cumprimentar também pela primeira vez não só Guzu como novos sentimentos e sensações. Eu sentia-me...nervosa e sem saber o que dizer. Esta última já era normal em mim, mas desta vez eu queria falar. Eu queria mesmo falar. 
- Beatriz, será. - Disse ele com um tom especialmente propositado, na tentativa de me imitar.
- O que desenhas? 
- Se não estiveres com pressa, posso mostrar-te. 
- O quê? 
Por breves momentos, perdi-me. 
- Os desenhos, Beatriz. - Disse ele sorrindo, percebendo o meu bloqueio. 
Ajeitei o vestido e sentei-me ao lado dele. 
- Aqui, tens o retrato da minha mãe. 
Quando ele me passou a folha para as mãos, os meus olhos arregalaram. Ele era realmente fantástico a desenhar. A perfeição no olhar da mãe, no pormenor da marca de varicela junto à sobrancelha, de cada fio de cabelo. Perdi as palavras novamente. Definitivamente ele tinha um dom. 
- Brilhante! Está realmente bom, Guzu. 
- Obrigado! Aqui tens os meus melhores amigos...
Todos eles com um ar saudável, libertador, e feliz. Tinham uma expressão natural. Sem fingimento. Sem uma mãe e um pai por trás com as costas mais direitas que uma porta sorrindo, apenas porque ficará bem e porque é necessário para os futuros membros da família reconhecerem que ali estivemos, felizes e unidos. 
Os melhores amigos de Guzu à primeira vista pareciam ser os jovens com quem me gostaria de dar e não sempre aquelas mesmas pessoas incompreensível e...de ouro...fresco. 
Nesse mesmo desenho estava a foto original, em que dava para comprovar a felicidade de todos eles, naquele momento. 
- És muito, muito bom. Parabéns! - Disse-lhe eu sorrindo.
- Se gostaste, fazemos o seguinte: levas os desenhos para casa e amanhã ou depois passas por aqui novamente para mos entregar e partilhas a tua opinião. Que achas da ideia? 
Na verdade, era a melhor ideia dos últimos tempos! Saía de casa, interagia com alguém que não "eles" e respirava ar puro.
- Aceito! Amanhã passarei então por cá e dar-te-ei a minha opinião como prometido. 
- Venho sempre para aqui depois das aulas. Toma, leva-os. É uma boa forma de me conheceres. 
- Porque dizes isso?
- Porque estão aí muitas frustações, muitas paixões e desilusões, e pode ser que sintas parte do que senti ao desenhar. É esse um dos meus objectivos. 
Não lhe respondi. Acenei-lhe apenas e dirigi-me para o carro.
No dia seguinte voltei a pedir ao Artur para me levar ao mesmo local. Já tinha analisado os desenhos e estava surpreendida. Ele tinha razão. Através dos desenhos, compreendi uma parte dele. Através daquelas folhas de papel conheci-o um pouco mais. Algo que não conseguiria conhecer à primeira vista. Algo ao qual não conseguiria ter acesso se apenas olhasse para...outro lugar. 
Para ser directo e honesto, voltámos a encontrar-nos várias vezes depois daquele segundo dia. O Artur, começou a desconfiar que algo se estava a passar entre mim e aquele rapaz, mas pouco me importava. Ficaria mais preocupada se fosse uma das empregadas a suspeitarem de alguma coisa. Com o Artur sentia-me a salvo e mais protegida e até com a possibilidade de fazer coisas que nunca imaginei sequer.
- É interessante o rapaz, menina. - Disse-me ele num daqueles dias. 
Artur foi-se tornando uma espécie de pai para mim. Podia falar sem medo, e foi a partir daqui que tive a oportunidade de me abrir um pouco mais, olhar para dentro de mim e ver-me. Porque antes de conhecer o Guzu e antes de conseguir falar sobre ele com Artur, tenho a plena  noção de que estava presa em mim própria, presa a uma pessoa que não era eu, mas sim a minha mãe. Eu era a sua imagem perfeita. E, a partir daqui, começava a...criar-me, eu própria. A minha verdadeira identidade. 
Na verdade Guzu era apenas o seu apelido. O seu primeiro nome era Tiago. Passado cerca de alguns meses dos encontros com ele, acabámos por nos apaixonar. E até nos apaixonarmos, posso dizer-vos que foi dos caminhos mais belos que alguma vez tive oportunidade de percorrer. 
O Tiago foi a pessoa que me fez crer que eu tinha voz. E que precisava de ser ouvida, ao invés de dar a palavra à minha mãe, como sempre estava habituada a fazer. 
Passado um tempo, a minha mãe percebeu que o meu comportamento se estava a alterar, e notou uma certa liberdade nas minhas palavras e nos meus movimentos, mesmo eu tentando não passar essa imagem de mudança. Então decidiu prender-me no quarto, como antes fazia, sem puder sequer passear de carro com Artur, o que me dava então cartão vermelho para me encontrar com o Tiago. 
- Solta-te. - Dizia-me ele. 
Ao ver a minha mãe tão rígida, o passado voltou. O medo, não sei exactamente do que, retornou. E a pessoa que era tornou a bater-me à porta. 
Mas eu tinha um "amo-te" porque lutar. E todas as frases que ele me tinha dito voltavam a ser ouvidas, mais uma vez, tal como uma cassete sempre a rebobinar. 

- Volta sempre. Para mim. Não te esqueças de quem és. Age. És das pessoas mais fortes que já conheci, só ainda não te apercebeste disso. E vai haver um momento na tua própria história em que te vais surpreender. Só precisas de decidir quando. E ouve, mesmo que penses que não tens cor, tu tens. E sei disso desde o momento em que te olhei nos olhos e desde o momento em que te vi corar. 

Eu estava sentada na cama, de pernas cruzadas. Estava na presença das duas empregadas, como era habitual. Uma delas tinha a chave em sua posse, que me podia deixar sair. 
Não sei bem como fiz aquilo, mas de repente uma onda de calor insuportável percorreu o meu corpo. Pensei que ia explodir, mas a minha única reacção foi pegar na mola do cabelo e tirá-la, arrastando-a. O meu cabelo estava solto, coisa que nunca acontecia. Apenas no banho se mantinha solto, de resto, nas outras alturas permanecia sempre, sempre atado. Abanei a cabeça e foi a sensação mais refrescante que poderia ter. Levantei-me, pus o cabelo para trás e dirigi-me à janela, sem qualquer intuito. Eu precisava de sair dali. Ou melhor: Eu queria sair dali. 
Com uma das mãos na anca, olhei para ambas as empregadas, e notei que foi a primeira vez que me olharam sendo eu, Beatriz, e não a minha própria mãe. 
Uma delas movimentou-se. Pôs a mão no bolso e, finalmente, estendeu-me a chave, velha e dourada. 
Eu olhei para ela e andei na sua direcção, num passo rápido. Mal lhe tirei a chave, inspirei de felicidade, não alterando a minha expressão anterior. Rodei a chave na fechadura e pressionei as duas maçanetas.
O meu único pensamento era ele.
As minhas mãos pousaram na porta e empurraram-na com todas as minhas forças. Forças que estava a conhecer naquele momento, que não sabia existirem. 

Na verdade ele não me tinha mostrado apenas bons desenhos. Ele tinha-me dado algo mais. Algo que nunca tinha visto. Naquele dia rasguei a fotocópia e comecei a pintar a cores. Foi isso que ele me deu. A mudança, o oxigénio, a minha vida. 
Será que não poderemos chamar a isso amor

domingo, 14 de agosto de 2011

Dispara! Não dispares!




O cheiro e a cor do sangue dela permaneciam todos os dias nas minhas mãos. 


Melhor dizendo, todos os pormenores daquela noite estavam encravados, para sempre, na minha memória. O som do disparo, os berros dela, e o principal: o assassino. 
O gorro, os olhos, uma ligeira cicatriz ao pé do olho direito e o maldito cheiro a rum. 
Íamos casar dali a 5 meses. Uma bala e uma atitude estúpida acabaram com duas vidas, não apenas com uma. Eu acabei por morrer junto dela. Quando a agarrei de costas, na esperança de a ouvir e de a salvar, já a senti sem forças e quando a olhei nos olhos já não havia brilho, ela já não estava lá. 
Nem uma palavra de despedida nos foi dada. Nos filmes trágicos ainda lhes é dado um: "até já" ou um caloroso "amo-te como nunca amei ninguém", mas a nós não nos foi dada essa regalia, tudo era frio. 
Um resumo feito de sangue, lágrimas e ódio. Quando o ser humano ridiculamente diz: "Os homens não choram!" eu só desejo que nunca lhes seja retirado o valor daquilo que me foi tirado a mim, porque aí sentirão a água a formar-se e a escorrer pelas faces. E não vão poder fazer mais nada.  
A vida muda cada ser humano individualmente, todos o sabemos. E a partir daquele 8 de Agosto nunca mais fui o mesmo. É verdade, encontrei o assassino da Rita mas ele não sabia. Andava a segui-lo há umas boas semanas. O meu objectivo não era nenhum para além de o querer matar também. 
Se ele pôde tirar a vida à pessoa que mais amava e continuo a amar, porque não podia eu tirar-lhe a dele, visto ser um pequeno ser egoísta e sem sentimentos?  
E a minha teoria do: "Nunca digas nunca" foi posta à prova no dia em que ela morreu. Quem diz "Nunca farei..." pense duas vezes, ou mais se for necessário. Eu nunca me imaginaria a matar alguém, mas para minha surpresa e do resto das pessoas que me conhecem eu estava com a arma pronta para ser disparada. 
Eu Estava fora do Jeep apenas à espera, à espera que ele passasse como seria habitual, na mesma estrada, com uma imensidão de árvores e sem luz alguma. Estava a fazer aquilo por mim, e por ela. Seria a minha vingança. Ninguém tem o direito de matar alguém, mas poupem-me, naquele momento eu tinha-o.
A paga ali seria eu próprio a dá-la e não o destino. Assim como o destino se juntou ao assassino e lhe tirou a vida. 
Depois de estar pronto e em posição comecei então a ouvir uma mota. Era ele. E era ali que tudo ia ser resolvido e tratado. Perante Deus, perante a minha noiva. 
A arma estava pronta, e o dedo no gatilho. Nada tremia, nem uma única árvore se movimentava. Eu estava calmo, até o chegado momento em que o comecei a ouvir. Nesse instante, voltei ao lugar onde ela foi assassinada, voltei a passar por tudo novamente. Uma corrente eléctrica surgiu em todo o meu corpo, com mais intensidade nas minhas pernas. O som da mota cada vez aumentava mais, e mais. Dentro de segundos, ele estaria morto . 
De repente, pensei na minha mulher. De uma forma diferente, sem ódio por aquilo que aconteceu. Sentia-a ali ao meu lado, com a mão no ombro. Ela não queria que eu dispara-se. A luz dos faróis passou a iluminar um pedaço das estrada e algumas das árvores. A minha mulher permanecia ali, junto a mim, com o terrível mesmo de que eu fosse mesmo capaz de o fazer. Conseguia-se sentir no ar a batalha entre o anjo e o demónio, entre o bem e o mal.  Cheguei a dizer em voz alta: "É agora". Mas o meu coração não estava totalmente certo de que era aquilo que realmente queria. Eu não queria ser fraco, e então desviei todos aqueles pensamentos e concentrei-me apenas na arma, na mota e no alvo. 
Mas continuava a sentia-la comigo, e isso assustava-me. Sentia o amor que tinha por mim, e sentia que ela estava ali por mim, para me salvar a mim e não a ele. Na realidade, ele já não tinha salvação, mas eu ainda tinha. 
Uma decisão é como um relâmpago, é um momento apenas. Sim ou Não. A nossa história estava entrelaçada: a minha, a dela e a do assassino. 
A arma continuava apontada, e as lágrimas apareceram sem avisar. Eram pura raiva, puro ódio, puro descontrolo. 
Ele ia aproximando-se, cada vez mais. Em tempo real, sem puder parar. Foi ali que tudo se passou. E, por um segundo, eu decidi. Ele passaria mesmo em frente à arma. Era minha escolha matar ou não matar. Foi então que quando o meu cérebro enviou a mensagem para o meu dedo pressionar o gatilho que ouvi um berro: "NÃO!"
Parecia a voz dela, confundida com o barulho da mota e misturada com os meus pensamentos. Não consegui disparar. O meu dedo não se movimentou para além de um leve tremor. A mota continuou estrada fora e eu caí no chão. Desta vez as lágrimas tinham um significado diferente: não conseguia disparar, mas eu queria. Eu queria e não consegui. Frustração. Sentimento de culpa. Mas naquela noite percebi, sem sombra de dúvidas que existe sempre a escolha: ou bem, ou o mal. E é como um relâmpago. É uma batalha interior super rápida, mas ela existe. 
Senti uma paz enorme dentro de mim, voltei a visualizar o sorriso da mulher que amo atrás de mim. Enquanto retira a mão das minhas costas e se vai. Com os olhos fechados ouvia-a dizer, com a sua doce e meiga:
"Na realidade, ele já não tem salvação, mas tu querido tens".
Percebi que a vida tinha maneiras de nos fazer crescer, mesmo sendo nós adultos, com formas e acontecimentos e nos transcendem. Mas sempre ouvi dizer que o que vai volta, e era isso mesmo que ela me queria dizer. E se eu tivesse disparado, apenas me estava a condenar a mim próprio. 
Matar é outra forma de...suicídio. 
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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Se me virem chorar e eu não souber explicar.



Nasci com uma característica diferente das outras pessoas. Nasci com o dom, ou com a maldição, de saber com quem estive noutras vidas. Por exemplo, a minha mãe actualmente, já foi minha irmã noutra vida. E eu lembro-me de todas as vidas que já estive, e com todas as almas com que já me encontrei. É esse o meu dom, ou maldição, repito. 

Há uns anos tive de me reencontrar com a pessoa que me matou numa das outras vidas. Todo o meu corpo sentiu quando ele me tocou. E não o queria voltar a reencontrar nunca mais. Mas sempre soube que era quase impossível. Impossível, achava eu, poder apaixonar-me por ele. Mas aconteceu. Não consigo dizer como nem bem porquê, mas apaixonei-me. O engraçado era que ele dizia sentir-se mal comigo de vez em quando. Eu bem sabia porquê, na verdade tinha-me morto. Aquela bala atingiu-me, levando-me à morte. A bala não era para mim, mas mesmo assim fui eu que paguei o preço do seu disparo. 
- Não sei, Vanessa. Parece que te devo algo. Parece que te devo sempre algo mais.
Foi o que ele me disse uma vez. Por muito que quisesse, ele nunca ia perceber o que aquela simples frase me dizia. Eu perdoei-o. Sinceramente. E usei as palavras exactas. 
- Eu perdoo-te. Pelo que sentes e pelo resto, Ricardo. 
A parti desse momento, parece que tudo mudou. Abri o meu coração um pouco mais, e ele ficou mais alegre e leve. Senti-o e ele também. Sentia-se mais animado e com mais vida. Ele precisava do meu perdão. E na verdade consegui perdoa-lo realmente. Pura e totalmente.
Meses mais tarde terminámos. De forma natural, ambos o queríamos. Continuámos amigos mas sempre senti a necessidade dele em querer dar-me algo mais. Mais um telefonema, mais um presente de aniversário, mais um abraço. Sempre algo mais. Como se estivesse a querer compensar o pequeno acidente do passado. Engraçado, por um lado. 
Já encontrei outras pessoas que nunca pensei voltar a encontrar. Encontrei uma amiga que andava comigo na faculdade há umas vidas atrás, e o seu maior sonho era ser modelo, mas infelizmente nunca foi conseguiu ser bem sucedida. Para minha felicidade reencontrei-a. Pôs conversa comigo no café já não sei bem porquê, acho que queria usar a caneta que eu estava a utilizar, por um instante. Depois disso, olhou para mim e puxou sempre mais e mais conversa. E eu, obviamente, quando olhei para ela dei-lhe um dos melhores sorrisos que podem existir. Transpareciam muita, muita saudade. Olhei para ela, era lindíssima, ainda mais que na vida anterior. Depois de um tempo de falarmos consegui perceber que era modelo, e desta vez com bastante sucesso. Uma das melhores aliás. Sempre conseguiu o queria. Mais tarde ou mais cedo, todos acabamos por o conseguir.
A partir daí, como já esperava, mantivemos a relação, parada por uns anos devido ao aparecimento da morte. Apenas continuámos a relação que sempre tivemos. E isso era bastante bonito de se ver. Toda a gente dizia que pareciamos irmãs e que nos conhecíamos há muitos mais anos, há uma eternidade. E na verdade, não estavam muito longe da realidade, mas isso só eu sabia. 
Tudo isto tem o seu lado fantástico, é claro, mas por outro já me cruzei com pessoas que não queria. É verdade, eram pessoas diferentes, era uma vida diferente, mas a essência era a mesma. O núcleo, por assim dizer. Por vezes se os acontecidos da vida me levassem a pessoas que não deseja, eu quebrava a relação ou simplesmente não dava hipótese de haver qualquer tipo de comunicação entre nós. Mas anos mais tarde percebi que isso também não tinha nada de produtivo, pois não estava a permitir uma evolução para ambos. Então, depois disso passei a querer dar uma outra oportunidade a todas as pessoas que me feriram anteriormente. E incrivelmente, algumas delas surpreendiam-me pela positiva. Tinham evoluído e estavam mais maduras, e a nossa relação não se comparava nada às anteriores. 
É legítimo perguntar: "E o amor da nossa vida, existe?". Sim, existe. Vários até mas isso é outra história. O meu por exemplo, prometeu e jurou a pés juntos voltar a encontrar-me nesta vida. Era uma pessoa evoluída e com um espírito como nunca vi. E sim, é verdade. Ele cumpriu com a promessa. Voltou a procurar-me, sem saber é claro. 
Lembro-me de estar sentada na relva com ele e me dizer: 
- É estranho sabes? Parece que já te conheço. Parece que isto é só um "olá outra vez". 
Eu apenas pude responder:
- Eu também, curiosamente. 
Muitas vezes chorei em casa, sozinha. Ninguém conseguia perceber o que era arcar com tal responsabilidade. Quem era eu para o fazer apaixonar novamente por mim? Algumas vezes me perguntei, e se desta vez houver algo melhor e um destino maior para ele que não tu? Lágrimas que não conseguia explicar a ninguém. Tinha saudades de pessoas que não nunca mais tinha voltado a ver. Tinha o medo, sempre presente, de voltar a perder certas pessoas e demorar anos e anos até as voltar a encontrar. E muitas das minhas noites foram passadas em claro num choro imenso e profundo, com as perguntas a ecoar na cabeça: "Onde é que ele anda?", "Onde é que eles estão?". 
Mas chegou o dia em que ele apareceu. E ao que parece, ele apaixonou-se por mim, outra vez. Por muito que eu não quisesse ele apaixonou-se. Tentei de tudo para não lhe dar sinais. Queria dar-lhe a oportunidade de ter uma vida ao lado de alguém, outro alguém. Alguém que pudesse ser ainda melhor do que eu era para ele. Mas não conseguiu. Nem ele nem eu. 
Todos os beijos, todos os olhares me diziam mais do que ele podia imaginar. E com esta característica minha, consegui perceber que não existem almas iguais. E que o olhar delas é único e apaixonante. Porque quando chorava do que mais tinha saudades era de um olhar, de um toque, de simples pormenores. Não sentia falta do físico, até porque eu tinha mudado também. O exterior era apenas um aditivo. E ele continuava bonito, como sempre. Chamava-se Salvador, desta vez. 
Antes de o conhecer, tive a oportunidade de encontrei um amigo meu. 
Grande amigo meu. Chama-se Filipe. Até hoje ele nunca soube o que me marcou e o que mudou em mim. Ele reencontrou-me em circunstâncias péssimas e fez-me perceber certas coisas na vida. E acho que ele nunca soube o quão importante era. E vai ser, sempre. Uma vez marcado, para sempre ficará. E não me importo se não vou voltar a falar com ele, porque terei mais outra vida para o procurar, nem que seja para lhe agradecer uma vez mais e para lhe sorrir e dizer que merece, sem dúvida, ser feliz. E que senti falta dele, claro. 
O Salvador, é das pessoas que procurarei sempre. Morra as vezes que morrer, hei-de o encontrar novamente. Porque felicidade como a que tivemos, nesta vida, acho que não vou encontrar com outra alma, com outro ser para além dele. São coisas que não se explicam, nem por palavras. É muito íntimo e forte. É como explicar o que é ver fogo e explicar como é vê-lo dançar sempre com a mesma força. E tenho a certeza que há pessoas, quando digo pessoas digo almas é claro, há pessoas que valem a pena. Porque valem. E sempre tive a sensação que algumas das pessoas que se relacionam comigo hoje, se lembram de mim, de qualquer das maneiras. Porque eu lembro-me delas. Cada sorriso e cada tremor de felicidade no meu peito faz-me ter saudades delas, mesmo que estejam à minha frente. Ali, à minha frente, eu continuarei com saudades, porque já são tão importantes para mim que ninguém as vai substituir. E sei que ainda vou reencontrar muitas muitas pessoas, mas eu vou saber o que tivemos, vou sempre recordar-me. E mesmo que hajam pontos negativos acerca disto, e por vezes via isto como uma maldição pois já encontrei gente bastante negra, vou sempre ver a lembrança como algo extraordinariamente bom, pois trago todas as pessoas comigo, mesmo que elas se esqueçam por um tempo. Eu não. Não esqueço nem por um bocadinho. E se me virem chorar e eu não souber explicar, já sabem porque é. É porque, é porque sinto falta e porque...amo. 
E obrigado por me teres reencontrado. Eu sei que por vezes não me é dada a oportunidade de vos encontrar, mas sim tu a mim, e o brilho no meu olhar quando olhas para mim vem daí mesmo. Dos nossos anos, e dos nossos momentos. E isso abrange todas as pessoas de que já falei, e das outras que ainda estão para vir. 
E se me virem chorar e eu não souber explicar, já sabem porque é. É porque vos amo. E porque me relembro. Porque me relembro.



sábado, 2 de julho de 2011

Quem não espera ir a tempo?



Na verdade, não temos tempo
Isso é uma ilusão. Talvez a maior ilusão de todas. 
Outra grande ilusão são as certezas. Também ninguém as tem, por muito que o afirmem. 

Joana começou a correr, com a carta na mão. Não lhe interessava mais nada. Nem a probabilidade da mala cair, nem mesmo as próprias roupas, a única coisa que ela queria era correr. Chegar a tempo
Finalmente chegou à máquina e comprou um bilhete de ida, toda ela a tremer. Subiu as escadas rolantes o mais depressa que conseguiu, sem mesmo se lembrar de respirar. Quando chegou ao topo das escadas reparou que faltavam exactamente dois minutos para o próximo comboio, o que para ela significavam duas horas. Foram os dois minutos mais desconfortáveis da sua vida. Voltou a reler a carta, agora a uma velocidade maior. Não conseguiu evitar as lágrimas. Andava a evitar uma coisa tão importante e essencial na sua vida por estupidez. Por medo, como o queiram chamar. 
Entrou no comboio e sentou-se num dos lugares desocupados. A vista para o lado de fora da janela não lhe transmitia paz alguma, como já o tinha transmitido anteriormente. Quanto mais longe estava, mais perto estava
A próxima paragem era a sua, e ela levantou-se mal se deu conta. As pessoas à sua volta eram completamente invisíveis para ela. Não significavam nada. Não lhe davam sinais, nem sorrisos, nem mesmo um olhar. Naquele momento só ela importava, e a confusão dentro da sua cabeça impedia-a de ver o resto. Saiu do comboio, mais uma vez a correr. Felizmente, haviam vários táxis fora da estação. Entrou num deles. O taxista, um senhor perto dos 40 fez um ar interrogativo ao olhar para a rapariga. Ela estava ofegante e nervosa. 
Pouco demorou até ela chegar onde queria. Depois de pagar ao taxista e sair caminhou para a casa dele. Tocou à campainha. Não houve resposta. Tocou novamente, desta vez com um tempo de duração maior. A porta abriu-se e lá estava ele. Bernardo, tal e  qual como da última vez que ela o tinha visto. Nada tinha mudado, pelo que parecia
- Bernardo! 
A sua voz tinha uma mistura de contentamento e emoção. 
- Joana? Que estás aqui a fazer? 
Ele olhou-lhe para as mãos e reconheceu a carta, escrita por ele próprio. Ela não respondeu, manteve-se a olhar para ele, apenas, à espera de algo mais. 
- Joana, por favor. Na verdade...
Ela não aguentou. Foi como um choque eléctrico a vir da base das pernas. Não aguentou e beijou-o. Aquelas malditas três semanas tinham-lhe mostrado muita coisa. E a ele também. 
Ele agarrou-lhe na mão e empurrou-a lentamente.
- As coisas não são assim. Já não são. 
- Como assim?
- Eu não tenho tempo para isto. Estive três semanas fora e compreendi coisas que não era capaz se não estivesse longe de ti. 
- Bernardo, por favor. Voltaste. 
- E então? 
- Não tiveste saudades minhas? 
Ele sorriu ligeiramente, como que dizendo: "Por que razão?" 
- Diz-me. Não sentiste saudades minhas? Que significa esta carta? 
- Senti a tua falta sim. Adianta de alguma coisa? E...essa carta...apaga-a da memória. Essas palavras já morreram há algum tempo.
- Eu só a li hoje, B.
- Mas eu mandei dei-te antes de ir embora, o que significa que já a tens há pelo menos quatro semanas. Ou estou enganado? 
- Não. Mas não a consegui abrir, devido aos acontecimentos. 
- Vai-te embora. Peço-te. Não fazes mais nada aqui. 
- As coisas não são assim.
- Agora são.
Houve um breve silêncio. Ele olhou-lhe nos olhos e reproduziu o que lhe ia na alma.
- Estamos acabamos. Seja o que for aquilo que tivemos. Eu não te amo, Joana. 
- Se há coisa que ambos sabemos é que me amas. 
A frase entrou-lhe como uma faca dentro da cabeça. 
- Eu encontrei outra pessoa, de qualquer das formas. 
A reacção de Joana foi clássica: um sorriso. Ela não acreditava. Nunca acreditou. Sempre acreditou no tempo. Mas...não é uma ilusão? 
- É isso que queres? - Disse ela agarrando-lhe no braço. 
- E eu responderei: Foi isso que quiseste, lembraste amor? Sempre ouvi dizer, "cuidado com o que desejas". 
Foi aqui que ela se começou a sentir esquecida. Nesta história não há o mau e o bom. Há sim, duas pessoas. E o tempo. E as provas. Bernardo amava-a, naturalmente. Mas ele necessitava de uma coisa. Uma única coisa: A certeza que ela o amava. E acreditem, a Joana era uma pessoa difícil. Extremamente sensível, mas teimava em manter a postura dura e gélida que sempre passou. Já o Bernardo não. Ele era quente e amoroso. Mas todos temos limites, verdade? Verdade. 
- Bernardo...
- Para a semana vou para Inglaterra, passar uns dias com os meus tios. 
- Isso é bom, não é? Há algum tempo que não os vês, querido. 
- Joana, acabou. É agora ou nunca: Tu amas-me e queres-me, verdadeiramente, ou não? 
Se há coisa que o tempo faz é mudar coisas.
Várias coisas, aliás. Ela apenas achava que o ia ter sempre na sua vida, mesmo que não lutasse e mesmo que não o demonstrasse. Mesmo que mentisse para ela mesma dizendo que não o amava, e que não o queria mais do que qualquer coisa no mundo. 
As lágrimas voltaram a formar-se nos seus olhos, com a pequena sensação de um enorme buraco no estômago. Todos os medos estavam ali. Todos os medos estavam transformados, num só, à sua frente. Ela olhou para trás e reparou que o sol estava a desaparecer. E aí teve noção do tempo. E noção do que significavam todos os momentos. Não se tratava de uma resposta. Tratava-se de amor. De um amor em vias de extinção. 
- Não tens de ter medo, J. 
De um amor puro, saudável e perigoso. 
Ele só precisava daquelas três letras. 

Ela respondeu que sim, se é o que querem saber. 
E agora? Vocês podem não ter a certeza, mas ele e ela têm-na agora. Sendo ilusão ou não. 
Mas ela apercebeu-se que, ninguém tem tempo. 
Foi por isso que correu terminando apenas quando o encontrou. 
Porque na verdade, na verdade não temos tempo
Isso é uma ilusão. Talvez a maior ilusão de todas. 
Sabemos que temos este tempo, agora. Portanto devemos usá-lo com o devido valor. E ela naqueles minutos deve medo de perder tudo, por isso correu. Teve medo de o perder. Teve receio de não conseguir ser verdadeira a tempo. 

Não há tempo para depois. 
Desiludam-se. 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bom dia, querida.


Não havia nada mais claro que o nosso amor. 


Há coisas que nunca mudam. Pelo menos com tanta facilidade. 
Tive oportunidade de a conhecer num dia rotineiro e simples, e o engraçado é que passou a ser um dos dias mais marcantes da minha vida inteira. Porque na verdade não existem dias simples e a rotina é muito traiçoeira. 
O meu irmão ao fim do dia veio ao meu escritório para me pôr a par das novas alterações na empresa:
- Posso? 
- Sim, mas estou de saída.
- Queria apresentar-te o teu novo braço direito. 
Como me ri, interiormente, quando ele disse aquilo. Basicamente eu sou uma pedra em questões de trabalho. 
- Ana Clara, a tua nova assistente.
- Prazer. Seja bem-vinda. Esperemos que dure mais do que a última!
Todo o meu sorriso era desconfortável e sarcástico. 
- Prazer. E eu espero ser aquela que dure mais. 
O sorriso meio cínico que ela me ofereceu fez-me olhar para ela, realmente. 
- Veremos. O meu irmão dar-lhe-á as coisas necessárias para começar a trabalhar, amanhã.
- Oh, não se preocupe, ele já o fez.
- Então tudo em ordem! Agora se me desculpam, vou ter mesmo de sair. João, encontro-te na mãe numa hora. Ana Clara, prazer e seja bem-vinda, mais uma vez.
- O prazer é todo meu. 
- Ah, Ana Clara, mais uma coisa. Se estiver à espera de um ambiente calmo e civilizado por aqui, é melhor esquecer.
Mais um sorriso e com pausas perfeitas entre as palavras. 
- Adoro caos, não se preocupe.
Mais uma vez, a resposta, surpreendeu-me.
- Sendo assim, perfeito. 

No dia seguinte entrei no escritório com o stress do costume. Ela já lá estava dentro, mais o meu irmão. Entrei, pousei a mala na secretária e sentei-me a ligar o computador sem lhes dizer absolutamente nada. Era habitual em mim, este comportamento. 
- Bom dia Carlos. 
O meu irmão olhou para mim, a sorrir, do género: "Ela é tão diferente do resto", mas eu tinha de provar que não. 
Eu sorri, mas não foi um sorriso simpático. 
- Bom dia, Ana Clara. 
- Basta Clara. 
- Clara então. 
- Tem aí o café. O seu irmão disse-me qual é o seu preferido.
- E como sabe que é? 
- Ele é seu irmão. Sabe mais de si que eu. E há uma coisa chamada confiança. Tive de confiar nele. 
- Tem de ficar na dúvida até saber por si, não é? 
- Exacto. 
- Bom, aproxime-se porque tem de ficar a par de certas coisas que o meu irmão não lhe entregou. 
Achava-a extremamente resistente. E era o primeiro dia. A minha 4ª assistente no primeiro dia foi apanhada a chorar na casa de banho. A Clara, pelo contrário, mostrava uma atitude um tanto ou quanto inoportuna e directa, e isso agradava-me. 
A verdade é que ela se estava a aguentar. Trabalhava extremamente bem e entregava-se a 100%. Cheguei a notar entusiasmo pelo próprio trabalho. Fosse o que fosse, ela empenhava-se. 
Houve um dia, no seu 9º mês de trabalho, em que reparei que já era muito tarde para ela continuar a trabalhar, já passavam das 23:00. Mas ela não me dizia nada. E acho que nem se apercebia do tempo a passar. 
- Clara, por favor. Já é tarde, devia ir-se embora. Existem coisas mais importantes para se fazer numa sexta à noite. 
- E você que o diga, não é? 
Respondeu sem sequer olhar para mim, continuava a olhar para os papeis e a virar as páginas.
- Que quer dizer com isso? 
- Trabalho aqui à cerca de 9 meses e nunca o vi a sair primeiro que o resto das pessoas. Fica sempre aqui, depois de me ir embora. 
- Isso é mentira.
- Adora mesmo acreditar em tudo o que pensa? 
 - Eu saí primeiro que toda a gente no dia em que tive o doce privilégio de a conhecer. 
- Ah, cabeça a minha. Um dia. Fantástico!
Aquela atitude irritou-me. Arrumei as coisas todas na mala, desliguei o computador e mantive-me em pé à frente dela. 
- Eu fico - Disse-me ela.
- Não, não fica. Vamos os dois embora. Chega de trabalho. 
- Só porque preciso de rever isto com mais atenção.
- Sim, só por isso. 
Ela arrumou as coisas dela, vestiu o casaco e fomos para o elevador. Quando chegamos ao primeiro andar, saímos. 
- Boa noite - disse ela ao segurança. 
- Boa noite, menina Clara. 
Estas coisas não eram naturais, para mim. Mas era espantoso ver as atitudes dela perante as coisas. E perante as próprias pessoas. Eramos tão diferentes nesse aspecto. 
- E agora, será capaz de vir tomar um copo comigo? 
- Já tenho coisas combinadas. Tenho uma família e um filho à espera. 
- Sendo assim tudo bem. Mas eu sei que não tem filho nenhum. Mas sim, tenha uma boa noite Carlos. O convite nem era a sério. Era apenas para testar a sua capacidade de fuga. Teve um 20. 
Ela sorriu. Todo o discurso era mergulhado numa onda gigante de simpatia e boa educação. Ela estava realmente a ser simpática. 
- Eu aceito então! 
- Um não é um não. Tem de ficar para a próxima. 
- Não era a sério, era para testar a sua...
- Okay, última oportunidade. Aceita ou não? 
- Vamos no meu carro, eu guio. 
- Não, eu levo carro e eu guio. 
- Porquê? 
- Primeiro porque adoro conduzir, e segundo porque nunca levei um patrão a passear. 
- Isso soou a piada rafeira, percebe? 
Foi uma das minhas primeiras risadas sinceras em meses. 
Ela guiou como combinado e fui no lugar do passageiro. E também cantou. 
- Ela também canta, uau. Boa profissional e boa cantora. 
- Isso foi um elogiu? 
- Foi. 
- Não é assim que se elogia uma rapariga sabe. 
- Desculpa? Tu fazes-me rir!
- Uau - disse ela abanando a cabeça. 
- Que foi? 
- Tratou-me por "tu" e foi genuíno.
Eu ia começar a falar mas...
- Não, deixa estar. Podemos tratar-nos por tu, naturalmente. Não se preocupe que não é um abuso.
- Quem disse que estava preocupado com abusos? 
- Boa, agora estiveste bem. 
Deixou-me ganhar, pela 1ª vez. 
- Saia do carro, chegamos. 
Não conhecia aquele bar, tinha óptimo aspecto. No geral era um belo local. Estava perto do mar e o bar tinha uma esplanada fantástica. Entrei depois dela, e ficámos na mesa que ela escolheu. 
- Então que achas? 
- É...bonzinho. 
Ela ficou a olhar para mim à espera que acrescentasse mais alguma coisa.
- É magnífico. Na verdade, fiquei impressionado quando cheguei. É agradável. 
- Posso perguntar-te uma coisa? 
- Claro.
- Qual é o teu problema? 
- Em relação ao quê, exactamente? - Disse eu a sorrir, porque achei piada ao facto de continuar sempre a ser directa. Sempre. 
- Porque tens de dizer um não antes de dizer que sim? Ou porque é que não mostras entusiasmo e tiras essa capa gélida para as pessoas? 
Fiquei uns segundos a olhar para ela e aquela pergunta emocionou-me especialmente. 
- Desculpa, fui indelicada. 
- Ainda bem que o foste. Não é o que queres saber? Sendo assim podes perguntar.
- Então mantenho a pergunta em jogo. Sim, vamos jogar.
- Quero as regras primeiro. 
- Já estava à espera disso! Uma regra apenas: Atacar os pontos que nos parecem fracos, um do outro. 
- Alinho, então. 
- Uau. Deixa-me só pedir.
Ela chamou o empregado. 
- É um café para mim, e é o favorito deste senhor aqui.
- Desculpe, mas eu não sei qual é. 
- Pois, nem eu. Ele na verdade é meu patrão - disse ela com uma cara engraçada para o empregado. 
- É um cappuccino de chocolate, por favor. 
- Trago já! 
Enquanto o empregado se estava a ir embora ela manteve o mesmo assunto. 
- Então é o seu favorito
- Nunca saberás se fizeste bem em confiar no meu irmão. 
- Talvez. 
- 1ª pergunta: Porque me convidaste para sair? 
- Escolho a opção A - Porque me apeteceu, porque acho que mereces sair e porque te acho boa pessoa, apesar de tudo.
-  Apesar de tudo? 
- Sim, apesar de certas atitudes que vejo nas horas de trabalho.
Todo aquele cenário me estava a impressionar, ela estava a dizer-me os meus próprios defeitos sem mais nem menos, e por incrível que pareça eu estava a achar piada. Se fosse outra pessoa, talvez não achasse tão engraçado. 
- Não sou tão mau assim.
- Eu não acho, mas eles acham!
- Ai é? 
Disse eu com o ar: "Amanhã vão ver". 
- Pois é. Mas acho que não te conhecem. 
- Pois não. 
- Eu também não conheço, atenção. Mas acho que há aí muita coisa para ver. 
- Como sabes? 
- Estás aqui a beber café comigo não estás? Eles nem sonham que és capaz disso. De sair da tua zona de conforto. Eu ao menos sei que é. Com muito esforço da minha parte, mas é!
- Muito esforço?!
- Sim e continuo à espera da resposta!
- A resposta é simples. Porque tem de ser, Clara. Porque as pessoas são más e até ingratas. Porque é melhor assim. Até me provarem o contrário. Eu sei que me devem chamar frio, insensível e muito mais coisas, mas na verdade eu sou assim - Disse eu encolhendo os ombros.  
- E se não fores e apenas te quiseres convencer disso? 
Os cafés chegaram, e por um lado foi bom, porque me deu tempo de pensar naquilo que ela me tinha perguntado. 
- O preferido cappuccino- Disse o empregado a rir. 
- Será? - disse ela. 
- Será
- Vá, responde. 
- Talvez queira, porque é mais fácil. 
- Mas o mais fácil não é o mais certo. E normalmente não é o que traz mais felicidade
- 2ª pergunta: Porque és tão directa? 
- Porque, por vezes, irrita-me andar à volta da questão. E porque é a minha defesa ser directa, inoportuna e descontraída. A tua é ser frio, e um pouco mau. A minha é esta. 
- Muito bem. Muito bem, começo a perceber. 
- O quê? 
- Começo a perceber-te, digo. 
- Tens piada, embora não o aches. 
- E tu és uma óptima profissional, até demais. Devias descontrair nesse aspecto. Se há uma pessoa competente és tu, e olha que já tive muitas assistentes. 
- Mas nenhuma te levou a tomar café! E sim, sou séria demais nesse aspecto, mas com o tempo...
- Nenhuma aguentou!
- Não deves ter sido fácil, desculpa! 
- Só queria fazer delas pessoas mais fortes e com garra. Nenhuma me motivava. 
- Mais motivação do que a que tens?
- Motivação na vida e não no trabalho, Clara. 
- Mais uma pergunta: É culpa do trabalho ainda não teres uma aliança no dedo? 
- Não, é culpa das próprias pessoas que não sabem ter relações. 
- Como assim? 
- Não sabem inovar, não sabem querer, não sabem desejar, não sabem corresponder ao que o outro quer, não sabem crescer em sintonia um com o outro e muito menos tentar ultrapassar as dificuldades e tentar viver sem medo. Não sabem sequer...
- Sim, diz. 
- Não sabem sequer acreditar. E mantê-lo.  
- Concordamos numa coisa! Uau, Carlos! A primeira coisa! - Disse ela num tom de brincadeira para tentar suavizar a conversa.
- Agora a sério, eu percebo. Acho o mesmo. Falta amor. Só isso. 
- E tu? 
- Eu o quê? 
- Porque ainda não tens nenhuma aliança no dedo? 
- Olha porque, simplesmente, nenhum homem se tratou a fazê-lo. 
- Só por isso? 
- Sim, e porque ninguém sabe lidar com a minha entrega. Quando eu gosto, gosto. E é até ao fim. E é uma coisa que vai crescendo, e crescendo. E as pessoas, pelo menos as pessoas com quem estive, acham que é natural uma série de coisas. 
- O quê, por exemplo? 
- Desrespeito e Falta de Comunicação. São duas coisas que não tolero. Comunicação para mim é...a base. É através dela que tudo acontece. Até um olhar é comunicação. 
Quando ela terminou de dizer aquela frase, eu olhei para ela. Para ela. Para dentro dela. E acho que foi a primeira vez que tive uma conversa honesta com ela, sem máscaras e protecções associadas ao dia-a-dia e à rotina. 
- Impressionado é? 
- Um bocadinho. 
Ela sorriu e aproximou-se e disse: 
- É apenas por essa razão que não tenho uma aliança neste dedo. 

Passado cerca de duas horas saímos do bar e ela levou-me de volta à empresa, onde estava o meu carro estacionado. 
- Então boa noite, Carlos. Gostei de te começar a conhecer, e não te preocupes que amanhã cá estaremos com as nossas máscaras. Não é? 
- Tem de ser, verdade? 
- Será? 
- Acho que sim. Boa noite, Clara. Obrigado pela noite, foi muito agradável e tenho sorte com a assistente que tenho. Prestável, inteligente e para além disso é bonita. 
- Estamos a melhorar na forma como elogiamos. Oh, e acabaste de agradecer? Não acredito! 
- Que piada! Boa noite! Daqui a exactamente 4 horas e meia tens de estar no meu escritório! Percebes isso? 
- Sim, patrão. Durma bem. -  Disse ela com um sorriso na cara. 

Dirigi-me para o carro. Estava especialmente bem-disposto. Havia algum tempo que não me sentia assim. Agora começava a reparar que a minha vida estava a ficar tão estupidamente sem vida. 
Na manhã seguinte, no escritório, tudo foi natural. A Clara já lá estava, como sempre. 
- Bom dia, bom dia. 
- Bom dia, Carlos - Disse ela espantada. 
- Conseguiu chegar a horas então. 
- Eu disse que chegava.
- Desculpem mas estou a perder algo, aqui.
O meu irmão não estava a perceber nada da conversa, e ainda estava com um ar um pouco chocado apenas pelo facto de ter desejado um bom dia aos dois, assim que entrei na sala. 
- Testei o teu irmão a ir beber café e ele aceitou. 
- Aceitou? Oh meu Deus. 
- Pois, também me espantou. Mas foi preciso muito!
- Não, não foi. Ela está a mentir. 
- Não, não está Carlos! 
Eu sorri, inevitavelmente. 
- Pronto, não está, admito. Mas foi bom. 
- Uhum, eu reparei. 
O tom do meu irmão fez crescer um ligeiro sorriso na cara da Clara enquanto ele escrevia ao seu lado. Eu percebi que o meu irmão estava a tentar algo connosco. Não foi por acaso que no secundário lhe puseram a alcunha de...pequeno cupído. 
A verdade é que ele, desta vez, tinha razão. O tempo foi passando e as coisas iam-se revelando e crescendo, não propositadamente. Ela já trabalhava comigo à cerca de 2 anos e as coisas, surgiram. Eu e a Clara saímos muitas mais vezes, e quando ela chegou à pergunta 502 eu próprio já tinha pensado na resposta. 
- Pergunta 502...
- Que foi? Diz lá. 
- Pergunta 502 Carlos, preparado? 
- Secalhar mais que tu! Porque...
Interrompeu-me.
- Tu gostas de mim? Estás interessado em mim?  
Deixei um tempo para ver a cara dela. E foi engraçado ver toda a mudança. Quando terminou a frase estava com uma cara de gozo, como já era habitual, mas depois passou a ter uma expressão mais séria e até ansiosa. 
- Será? 
- É uma pergunta directa. Afinal quem não estava prepa...
Tive de a interromper. 
- É óbvio, que sim. 
Parecia uma miúda de 10 anos, assim que me calei. O riso era genuíno e terno. 
- Anda, quero levar-te a um sítio. 
Ela foi calada o caminho inteiro. Eu sei quais eram as preocupações: "O patrão a envolver-se com a assistente", muito clássico. Mas eu não podia fazer nada, e só não lhe tinha tido mais cedo apenas pela parte profissional, e por ela. De resto, tinha todas as provas de que era ela que queria. Apenas estava à espera
Levei-a a uma montanha perto do mar, onde costumava ir com os meus irmãos e com os meus pais quando era mais novo. A lua não estava cheia, mas não foi por isso que deixou de ser romântico. E nem sei bem se era isso que lhe queria dar agora, e se era isso que ela desejava.  
- É muito bonito. Obrigado, Carlos. 
Eu olhei para ela e tive de a beijar. Mas fui seguro, e desta vez precisava de ser eu. 
Pensava que ia haver alguma perturbação no nosso modo de trabalho, mas nada se passou. Houve apenas uma discussão entre nós porque ela não queria de maneira nenhuma que o resto dos empregados se intrometessem entre nós e que mandassem bocas de que iriamos terminar mais tarde ou mais cedo, como todos os casos. Foi então que, passado um tempo, decidi fazer uma reunião com todos os empregados presentes em que lhes disse que a Clara devia ser tratada como eu era, e que estávamos noivos. Sim, estávamos noivos. Tinha-lhe feito a proposta num local perto daquele bar em que ela me levou quando saímos, e ela aceitou. Tudo estava a correr bem, na nossa vida.  
Estávamos a corresponder às expectativas um do outro. E eu queria atender a todos os desejos dela. Eu queria fazê-la realmente feliz. Passou a ser uma das minhas funções, porque ela ,sem se aperceber, alterou-me. Em vários aspectos. Passei a dizer bom dia ao segurança e ao resto dos funcionários, passei a ter uma vida viva, passei a ser mais directo e gentil com as pessoas e passei a deixá-la entrar em mim, coisa que não fazia, nem nunca tinha feito anteriormente. 
Eu sei que também a alterei, como pessoa. Ela parecia mais descontraída a trabalhar e passou a confiar realmente em mim . E tínhamos a base. 
Conseguíamos ultrapassar as situações, e os problemas que nos iam surgindo, naturalmente e ela nunca me abandonou em nada. Sempre me apoiou. 
E foi então que casamos. A pergunta 1210 foi a melhor pergunta de todas:
- Clara, aceitas casar comigo? 
Ambos sabíamos o que aquilo implicava. Eu estava mais que pronto para ser dela, e eu sei que ela estava pronta para ter uma vida comigo e para tentarmos viver da melhor maneira possível, ao lado um do outro. 
O casamento na verdade, foi o início de muita coisa. Comprámos casa. Também discutimos mais vezes. Mas essencialmente, tudo isto mostrou que conseguíamos. Tinhamos uma vida sexual bastante activa e excelente, continuava a desejá-la, como sempre, em termos de confiança já nem era questionável. Estávamos felizes. E o mais importante é que ela sabia o quão feliz me fazia e o quanto mudou a minha vida. Porque mudou. E não ela não se apercebia do que tinha feito.  
Aprendi a amar de uma forma que não calculava ser possível, e a pessoa que nunca dizia bom dia e que era rude e fria passou a ter entusiasmo pela vida e pelas pessoas. E graças a uma só pessoa. Com quem estava casado. E orgulhava-me disso, mas tanto. 
Foi então que algo inesperado aconteceu.
No dia 24 de Novembro a Clara foi parar ao hospital. Estavamos a passear em frente ao rio quando ela se sentiu mal. Chamei a ambulância o mais rápido possível. Eu estava terrivelmente preocupado e assustado. Foi a primeira vez que tive medo, e não queria ter. Não queria. Ela disse para não ter. 
- Carlos.
- Sh, sh, sh, sh. Não digas nada. 
- Amo-te, desde sempre. 
- Eu também te amo. E vai correr tudo bem. Descontrai, mas é. 
Beijei-lhe a testa 3 vezes.
Eu podia estar nervoso, e a viver o terror, mas ela ensinou-me a ser diferente. Fez-me ver a vida de outra perspectiva, e queria dar-lhe segurança acima de tudo. Conforto, amor e segurança. 
Ela entrou no hospital e o meu coração começou a bater mais rápido. As lágrimas surgiram, inevitavelmente. O tempo passava e o médico não aparecia. Parecia que estava incluído num filme, mas não estava. Aquilo era a vida real, e um acontecimento real. E queria sair dele!
Entretanto o médico veio ter comigo, sem pressa. Quando olhei para ele percebi tudo. Aquele olhar disse tudo. O próprio médico pôde assistir à minha queda. Perdi todas as forças, naquele instante. 
- Lamento. 
Sentei-me tal e qual como uma criança, no chão do hospital. E a palavra continuava a ecoar na minha cabeça "Lamento, Lamento, Lamento". 
O meu irmão apareceu pouco tempo depois no hospital. Quando me encontrou segurou-me de uma maneira que nunca o fez. A mulher tinha vindo com ele, e não consegui deixar de o invejar, por alguns segundos. 
Ele pegou em mim e abraçou-me. Eu estava num estado horrível, chorava e meu irmão também. Ele tinha assistido a tudo aquilo, desde o início, desde o começo. Assistiu à entrega de ambos , à confiança, ao amor. E ele sabia o quão difícil era todo esse crescimento. E sabia o quão difícil foi para mim abrir o coração novamente. 
O meu irmão levou-me para casa dele, não me quis deixar sozinho nos próximos tempos. Mal me dei conta que tinha ido para casa dele, depois do hospital. Só pensava na pergunta 502. 
10 anos. Foram os 10 anos ao lado dela. Parecia tão pouco. Eu tinha tinha planeado tão mais. Tinhamos planeado tão mais!
- Foram 10 anos, João. 
O meu irmão tinha o dom de ser mais sensível que eu, pelo menos mostrava mais. E ele estava a sofrer muito comigo. Ouvir-me aos berros de noite e abraçar-me a chorar não era tarefa fácil. Ela era o amor da minha vida e não mudava. Só há um amor na nossa vida e ela era o meu. E queria tanto dizer-lhe, novamente. 
O meu irmão um tempo mais tarde entregou-me uma carta, escrita por ela, para mim. 
- Ela entregou-me e disse para te dar, um dia mais tarde. Acho que ela suspeitava que algo estava mal na saúde dela, agora que penso nisso. 
Eu segurei na carta e saí. Fui para o nosso bar. Sentei-me na cadeira dela, de frente para o mar e comecei a lê-la. Ela sempre foi fantástica com as palavras, sempre. E aquela carta estava tão cheia de amor. Como me custou ler: 
"Amo-te e viver neste mundo sem ti tinha sido tão em vão. Eu amo-te e vou continuar a amar-te até existir vida seja onde for. Aqui ou lá".
Quando terminei a carta virei-a. E comecei a chorar mais e a sorrir, porque sabem? 
Foi a vida mais bem passada. Ao lado dela. Valeu tudo a pena. Tudo. Cada gargalhada, cada discussão, cada beijo, cada toque, tudo valeu a pena com ela, e antes não valia. E foi isso que fez a minha vida e a dela.
Vida sem amor não é vida, e quem me ensinou isso foi ela. Só ela. 
Virei a carta e li: 
"Nunca gastei uma pergunta com: "O cappuccino de chocolate é o teu favorito?", porque sei que não havia favorito até eu aparecer e porque sei que ao longo dos tempos o passou ser. O teu irmão apenas me disse um dos que bebias na altura. E eu não escolhi o que ele disse. Escolhi um, eu própria.
E eu escolhi-te. És a pessoa mais bonita daqui. 
Gosto de ti, 502. 
Clara". 

O empregado veio à minha mesa e eu estava lavado em lágrimas.
- O que vai ser? 
- Nunca mais pergunte isso. Um capppuccino de chocolate. 

Estou-lhe tão grato. E repetia tudo outra vez. Com uma diferença. Tinha-lhe dito bom dia logo no primeiro dia.