segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tudo.




Desci aqueles degraus com uma calma tal que até a mim me surpreendi, quando reparei. 

Faltavam poucos minutos para o metro chegar. Poucos minutos. 
E eu sabia que algo ia acontecer. A calma normalmente é um sinal. Então em mim era definitivamente um sinal. 

A música a tocar nos meus ouvidos, a entrar directamente na minha alma, impedia-me de ouvir qualquer outra coisa, qualquer outra perturbação. 
O metro parou à minha frente e entrei, naturalmente. Um lugar chamou-me a atenção, fui direito a ele e sentei-me, e não sei porquê retirei os phones dos ouvidos. Sentei-me e, incrivelmente, comecei a reparar em todos os pormenores que me rodeavam. A senhora à minha frente rondava os 40 anos, era alta e pelo que pude ver era extremamente sofisticada. A certa altura os nossos olhos chocaram e eu entrei dentro dela, num estalar de dedos. Aquela postura rígida não condizia com o seu interior. Eu voava sob algo frágil, via um alguém que só precisava de um pouco de compreensão e daquele ingrediente chave que todos procuramos mesmo que o neguemos vezes e vezes sem conta.  Só voltei a mim no momento em que ela sorriu. O meu peito encheu-se de poder, de força e de felicidade. 
Eu saí de casa a andar como se estivesse completo. Alegre, satisfeito comigo mesmo, e com o amor que recebia das pessoas mais próximas. Algumas em especial, claro. Mas isso é outra história. 
E agora estava ali, em frente a uma perfeita desconhecida a ser alvo de uma coisa tão especial e rara. Rara, sim. 
Momentos depois o metro parou de uma forma bastante violenta. Tudo se alterou bruscamente. Praticamente todos os passageiros caíram no chão, incluindo eu próprio. Mas eu mantive-me no chão, ao contrário de certas pessoas. A senhora que anteriormente estava à minha frente, levantou-se num ápice e olhou em volta. A voz do condutor passou a transmitir uma informação que ia mudar todo o comportamento das pessoas naquele comboio. 
Eu bloqueei quando ouvi que um outro comboio se encontrava na mesma linha em que nos encontravamos sem paragem, a poucos minutos dali. Simplesmente...bloqueei. Mas não podia. Voltei a ser acordado por gritos e movimentos de pânico. Eu levantei-me e sentei-me, novamente, em frente à  tal senhora. Ela estava a tremer e a tentar fazer uma chamada para alguém. Não um alguém qualquer. Era um dos filhos. Quando ele atendeu ela, automaticamente, desfez-se em lágrimas sem conseguir explicar o que se passava. Ela só precisava de ouvir aquela palavra, porque já não lhe restava esperança, e na verdade era o que ela precisava para se sentir como eu me senti naquela manhã, alguém mais completo. Um ser quase divino. A palavra foi dita. A palavra foi ouvida por aquela mulher e eu ao olha-la percebi que palavra era e o que significava para ela, e o que significava naquele momento. 

"- Eu também te amo, querido." disse ela enquanto soluçava compulsivamente. 

Foram as últimas palavras antes da chamada cair. Ela voltou aquele lugar, ao presente, e olhou para mim e sorriu mesmo que em lágrimas. Aí as lágrimas surgiram-me também e eu entrei dentro de mim. 
O dia anterior tinha sido algo tão mágico, tão imperfeitamente perfeito. Tudo estava a correr bem, quero dizer, a vida! Porque estava. Sentia-me amado pela minha família. Sentia-me amado pela pessoa que me acordou, pela pessoa que me fez ver a vida com outros olhos, de uma forma que nem eu pensava ser possível ser vista. Os meus amigos, relações extraordinárias baseadas em confiança e gargalhadas. Tudo o resto? Tudo o resto foi menos importante. Eu estava sentado e imagens invadiram o meu pensamento tal e qual como se as tivessem a injectar no cérebro. Risos, lágrimas, paisagens, desenhos, letras, declarações de amor, música, o lar, os cafés, os sorrisos de estranhos, a magia. 
Por incrível que pareça, a senhora agarrou-me na mão enquanto tudo isto estava a acontecer. Agarrou-me nas mão e pousou a testa, suavemente, sem pressa. O meu peito estava tão limpo. Eu não queria nada, sabem? Naquele momento, não queria as calças que tinha visto na semana passada, não queria aquele carro, não. Talvez quisesse uma coisa, se me o tivessem perguntado. Eu queria uma palavra. Sim, se me tivessem perguntado era isso que teria respondido. 
A mulher levantou a cabeça. As pessoas à nossa volta estavam muito mais calmas agora, num choro subtil e preocupante. Umas tentavam sair do metro, outras falavam alto e outras simplesmente estavam sentadas. 
Eu não conseguia sorrir agora. Mas a senhora conseguia. Eu precisava daquela palavra. Os meus olhos voltaram a encher-se de lágrimas e quando a senhora as viu percorrem o meu rosto apertou as minhas mãos e, sorriu. Ela estava a surpreender-se a ela própria. Ela estava a mostrar, sem qualquer problema, daquilo que era feita: aquela sensibilidade, preocupação e sentido de protecção. Pode parecer idiota, mas eu conheci um pedaço daquela senhora que muitas outras pessoas que lidavam com ela diariamente nunca chegaram a conhecer. Os dois, sentimos o comboio a andar ligeiramente para a frente, sem saber qual o objectivo em concreto, mas sem sentirmos qualquer tipo de esperança.
Um barulho infernal vinha lá de fora. Era o barulho do outro comboio a tentar parar. Não barulhos quaisquer mas sim guinchos e ruído. Aí, acalmei-me e fechei os olhos. Tal como um filme, vi algumas caras e olhares, e então, quando já nada era possível ser ouvido, nem quase os próprios pensamentos, eu disse o que precisava de ouvir.

"-Amo-te."

Um estrondo terminou com a minha voz, com a sinfonia da palavra, com a dança das cordas vocais. As minhas mãos desprenderam-se das da senhora e, acabou. 
Simplesmente...acabou.  

Tanto que imaginei a morte, e tanto que escrevi sobre ela e sobre a vida, e na verdade aconteceu tudo em menos de 10 segundos. Tudo me foi tirado. Tudo me foi dado. E não se preocupem. Eu senti-me completo. Eu tive tudo, enquanto vivia. E agora podia ver isso mesmo, mas de uma perspectiva e de uma vida diferente. 
Eu tinha tudo. Talvez soubesse a pouco de vez em quando, mas agora que analiso, oh meu Deus, tinha tudo

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Rainha.

Conhecem aquela sensação? Aquela eletricidade que nos percorre as veias, sempre que (não) desejamos? Eu conheço. E posso dizer que a conheço relativamente bem.

Vista como uma droga, uma coisa sobrenatural, um dom, uma maldição. Algo poderoso e negro. Os meus braços eram pedra, agora. A minha mente estava forte e concentrada, em algo que não merecia a mínima atenção. Mas ela tem esse hábito, que hei eu de fazer? 
Cada palavra que saía da minha boca eram como se fossem flechas directas aquele céu azul, a minha única plateia. 
Quanto mais pensava, mais me consumia. Quanto mais pensava, mais forte me tornava. Quanto mais pensava, mais fraco me tornava. Funcionava assim. A minha mente começava por criar os cenários mais violentos e escuros que conseguia e tinha, e o meu corpo sentia-os e revelava-os. Era como se não fosse eu mas sim o reflexo negro no espelho, o gémeo mau, a obscuridade encarnada em mim. 
A fase número 2, era a fase mais complicada e mais desgastante. 
A violência desapareceu sem se despedir e assim que saiu entraram duas suas conhecida: a dama tristeza e a senhora apatia. 
A força que a raiva me dava já não existia, começava agora a cair em mim e a aperceber-me do sucedido. E não queria acreditar. Não queria dizer em voz alta: "Não existe amor entre vocês os dois".  Na verdade, não encontrava a Rainha à bastante tempo. Nunca mais me bateu à porta. Não como antigamente, em que entrava e me transformava no que de melhor existia no planeta. Nunca mais a vi, e pelo que parecia, tinha perdido o contacto com ela.

Aquela ideia que me torturava e me confundia: "Isso não existe, Isso não existe". Eu começava a questionar-me acerca de uma coisa que nunca me ocorreu questionar, porque parecia verdadeiro e...bonito:  "Será que a Rainha existe mesmo?" 

Aquela cama tinha agora um poder sobre mim. Era onde residia toda a força que me restava. Não conseguia fazer mais nada senão assistir aos meus sonhos de criança a serem destruídos, sem puder fazer mais nada, sem querer fazer mais nada, num estalar de dedos.
Cada vez que movia mais magoado saía. As feridas estavam profundas, tão profundas que nem eu no momento sabia quem era. 

"Será que a Rainha existe mesmo?"

Preferia morrer a não ter sonhos. 
Eu preferia viver no conto de fadas a ser mísero e viver numa infelicidade comum. Infelicidade que contagia. 
Preferia acreditar na Rainha
Mas não conseguia, naquela altura. 
Para mim, aquele momento era a morte de toda a família Real. A Rainha morrer faria com que tudo o resto se desmoronasse. O Rei de nome próprio Comunicação, morreria também caso a Rainha perdesse a vida. E os príncipes também sofreriam. O mais velho, Confiança, e o mais novo chamado Respeito. Todos se alterariam com uma única morte. Bastava um morrer para todos morrerem com ele. E neste caso foi a Rainha. A fonte.
Eu não queria acreditar. 
Ninguém compreendia o significado das minhas lágrimas naquele mês. Destruiram um sonho, destruiram um sorriso. Podem pensar: "Um sorriso não é algo demais", mas é. Acreditem que é. 
O meu corpo entrou em piloto-automático. Nada fazia sentido agora, nem as pessoas, nem as atitudes, nem os planos. Nem a própria Rainha fazia sentido.  
Durante isto, a minha vista estava alterada. Tinha um anjo ao meu lado e só o via como uma pessoa. Mas, anteriormente, tinha uma pessoa ao meu lado e via-a como um anjo. 
Não queria construir algo para voltar a ser destruído. Isso nem se punha em questão. 
Mas eu não percebo porquê mas agarrei-me aquela alma. E acho que agora percebo porquê. Porque era a única alma que me fazia...sentir. E era esse o sinal. É esse o sinal, o sentir, o apaixonar. 
É verdade, estou a construir uma coisa nova, uma história, um paraíso interior. 
Não me perguntem como, ou porquê. Mas eu sei que estou. Só não quero dizer em voz alta, pois o irmão da Rainha pode ouvir e as coisas poderiam cair no mesmo ciclo. O seu irmão, o Medo.
Mas ele não tem tanto poder assim, sabem? Ele só se alimenta de nós, porque nós deixamos. Ele no fundo não quer nada de nós é só um teste nosso.

Nada disto tem fundamento, ou lógica. 
Ando à procura de lógica à anos! Mas percebi que não é necessário quando se sente. 

Se repararem bem e se ouvirem com atenção, a Rainha está a bater-me à porta. E olha...um sorriso.