sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Rainha.

Conhecem aquela sensação? Aquela eletricidade que nos percorre as veias, sempre que (não) desejamos? Eu conheço. E posso dizer que a conheço relativamente bem.

Vista como uma droga, uma coisa sobrenatural, um dom, uma maldição. Algo poderoso e negro. Os meus braços eram pedra, agora. A minha mente estava forte e concentrada, em algo que não merecia a mínima atenção. Mas ela tem esse hábito, que hei eu de fazer? 
Cada palavra que saía da minha boca eram como se fossem flechas directas aquele céu azul, a minha única plateia. 
Quanto mais pensava, mais me consumia. Quanto mais pensava, mais forte me tornava. Quanto mais pensava, mais fraco me tornava. Funcionava assim. A minha mente começava por criar os cenários mais violentos e escuros que conseguia e tinha, e o meu corpo sentia-os e revelava-os. Era como se não fosse eu mas sim o reflexo negro no espelho, o gémeo mau, a obscuridade encarnada em mim. 
A fase número 2, era a fase mais complicada e mais desgastante. 
A violência desapareceu sem se despedir e assim que saiu entraram duas suas conhecida: a dama tristeza e a senhora apatia. 
A força que a raiva me dava já não existia, começava agora a cair em mim e a aperceber-me do sucedido. E não queria acreditar. Não queria dizer em voz alta: "Não existe amor entre vocês os dois".  Na verdade, não encontrava a Rainha à bastante tempo. Nunca mais me bateu à porta. Não como antigamente, em que entrava e me transformava no que de melhor existia no planeta. Nunca mais a vi, e pelo que parecia, tinha perdido o contacto com ela.

Aquela ideia que me torturava e me confundia: "Isso não existe, Isso não existe". Eu começava a questionar-me acerca de uma coisa que nunca me ocorreu questionar, porque parecia verdadeiro e...bonito:  "Será que a Rainha existe mesmo?" 

Aquela cama tinha agora um poder sobre mim. Era onde residia toda a força que me restava. Não conseguia fazer mais nada senão assistir aos meus sonhos de criança a serem destruídos, sem puder fazer mais nada, sem querer fazer mais nada, num estalar de dedos.
Cada vez que movia mais magoado saía. As feridas estavam profundas, tão profundas que nem eu no momento sabia quem era. 

"Será que a Rainha existe mesmo?"

Preferia morrer a não ter sonhos. 
Eu preferia viver no conto de fadas a ser mísero e viver numa infelicidade comum. Infelicidade que contagia. 
Preferia acreditar na Rainha
Mas não conseguia, naquela altura. 
Para mim, aquele momento era a morte de toda a família Real. A Rainha morrer faria com que tudo o resto se desmoronasse. O Rei de nome próprio Comunicação, morreria também caso a Rainha perdesse a vida. E os príncipes também sofreriam. O mais velho, Confiança, e o mais novo chamado Respeito. Todos se alterariam com uma única morte. Bastava um morrer para todos morrerem com ele. E neste caso foi a Rainha. A fonte.
Eu não queria acreditar. 
Ninguém compreendia o significado das minhas lágrimas naquele mês. Destruiram um sonho, destruiram um sorriso. Podem pensar: "Um sorriso não é algo demais", mas é. Acreditem que é. 
O meu corpo entrou em piloto-automático. Nada fazia sentido agora, nem as pessoas, nem as atitudes, nem os planos. Nem a própria Rainha fazia sentido.  
Durante isto, a minha vista estava alterada. Tinha um anjo ao meu lado e só o via como uma pessoa. Mas, anteriormente, tinha uma pessoa ao meu lado e via-a como um anjo. 
Não queria construir algo para voltar a ser destruído. Isso nem se punha em questão. 
Mas eu não percebo porquê mas agarrei-me aquela alma. E acho que agora percebo porquê. Porque era a única alma que me fazia...sentir. E era esse o sinal. É esse o sinal, o sentir, o apaixonar. 
É verdade, estou a construir uma coisa nova, uma história, um paraíso interior. 
Não me perguntem como, ou porquê. Mas eu sei que estou. Só não quero dizer em voz alta, pois o irmão da Rainha pode ouvir e as coisas poderiam cair no mesmo ciclo. O seu irmão, o Medo.
Mas ele não tem tanto poder assim, sabem? Ele só se alimenta de nós, porque nós deixamos. Ele no fundo não quer nada de nós é só um teste nosso.

Nada disto tem fundamento, ou lógica. 
Ando à procura de lógica à anos! Mas percebi que não é necessário quando se sente. 

Se repararem bem e se ouvirem com atenção, a Rainha está a bater-me à porta. E olha...um sorriso. 
  

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