sexta-feira, 27 de maio de 2011

Era uma vez um pássaro que se distinguia.





Ele ansiava por:  "estou orgulhosa de ti".
Ele lutava por: "estou orgulhosa de ti". 
Um dia, iriam ser apenas mais umas frase. Apenas mais uma voz. Que não era mais precisa, para haver sucesso. 



Ele nasceu saudável, com um peso normal e com uma cor agressivamente vermelha como todos os recém-nascidos, naturalmente . 
Pouco o distinguia das outras crianças na maternidade. Pelo que parecia
Mas na verdade todas tinham diferenças: uma vida para contar um dia mais tarde, algo a que ascender, problemas a enfrentar. As coisas que transformam a vida na verdadeira vida. 
Podia dizer que ele se destacava de entre todos aqueles pequenos seres, mas não. Se o dissesse, estaria a mentir. E nós gostamos de realismo, apesar de toda a magia que nos  era lida antes de adormecerermos
Cresceu numa casa de classe média. Com o pai. E com duas mães. Um Privilégio, não? 
Uma das mães, a mais nova, Sofia, era bonita, atraente mas inexperiente.  
A outra mãe era mais velha, cerca de 23 anos mais velha. Maria, era bonita, extremamente sensível e experiente.
Ele foi amando as duas, de igual modo. 
Uma delas mostrava mais amor. Via-se isso mesmo no ar, sentia-mo-lo. Não vou dizer qual delas era a que  o transparecia. 
Mas ele continuava a ama-las igualmente. 
Passado anos, deixou a mãe mais velha. Apenas uma distância geográfica. Ele passou a morar apenas com a mãe biológica, Sofia. Embora isso tivesse acontecido, o elo de ligação que o ligava à avó nunca enfraqueceu, muito pelo contrário. Foi só uma prova do amor que tinham conquistado até então. 
Passados outros bons cinco anos, surgiu um ligeiro problema: Daniel começava a sentir a necessidade de ser liberto, de sentir-se compreendido, coisa que não se sentia naquele local. Chegava a ser sufocante, literalmente.
Maria, por outro lado, compreendia-o extremamente bem, conseguia encher-lhe o espírito em segundos e ler-lhe a mente em milésimos de segundos. 
Eram mães diferentes. Uma jovem, fresca, moderna. E a outra, uma mulher com sabedoria, firme, sensível e clássica. As duas juntas transformavam-se numa moeda, cada uma em faces diferentes. Transformavam-se na mãe perfeita e ideal. Coisa que não existe
Ele não se importava, não podia mudar isso. Ele só queria que Sofia o ouvisse como um adulto, como alguém com valor e sentido. Ela tinha uma extrema dificuldade em se expressar perante o filho, não lhe conseguia dizer o quão bom ele era, e no quão bom acreditava que ia ser, futuramente, ao contrário de Maria, que o dizia várias vezes.
Era uma pequena diferença

 Daniel, quando completou os seus 25 anos era já um jovem bem sucedido no mundo do teatro e, até ao momento, nada se lhe podia apontar ao seu carácter e personalidade.
 Depois de ter deixado a casa da mãe, o mundo começou a mostrar-lhe novos horizontes e novos projectos. Tudo mudou na sua vida. Conseguiu, aos poucos, realizar o que queria, com alguma dificuldade é claro, ao contrário do que Sofia imaginava.  
Num dia de Primavera, decidiu escrever uma carta à mãe, que nunca seria entregue. 

"Mãe, 

Eu só pedia as palavras óbvias. As Coisas necessárias. Nunca as disseste e eram precisas. Mas descansa, agora já não são. Já não as quero. Eram um dos meus maiores desejos quando morava contigo e quando tinha os meus 15 anos, mas agora já não as quero. Acho que o efeito que eram suposto fazer já não farão de qualquer das formas. E eu lutei. Lutei pela nossa relação difícil,louca e magica, eu lutei. Embora não me quisesses dar asas e me quisesses dar a tua ideia de vida perfeita, isso não existe, pelo menos essa vida encaixada em mim, no teu filho Daniel. Talvez encaixe na perfeição de ti mesma, talvez fossem esses os sonhos para ti, mas para mim não servem. Como vês, segui a minha vida, como quis, desiludindo-te ou não. Não sei. 
Tu pensas que sempre amei mais a avó do que a ti. Eu sei que pensas isso. Mas a avó mostrava na altura certa o que sentia, e o quanto acreditava em mim, na minha força e na minha ambição. E sim, isso foi muito importante, acho que não tenho bem noção do quão essencial foi esse aspecto, para o desenvolvimento da minha carreira. Porque todos precisamos de amor, mãe. Até tu, e não negues. 
Podias não falar muito, e ainda hoje não o fazes mas eu na maioria das vezes sabia o que pensavas, mas quero que saibas que há uma diferença entre pensar e expressar. Porque há. E sempre fiquei na dúvida se o que eu pensava era realmente o que tu pensavas. E não há maior angústia. Talvez sintas orgulho ao olhar para mim, ao olhar para a vida que construí, não faço ideia. Nunca me o disseste. Portanto não sei. A tua maneira de ser construiu outro ser humano, formou-me a mim. E culpo-te, não num sentido maioritariamente negativo, das características que tenho. As pessoas por vezes dizem que eu sou frio e um pouco duro, mas elas não sabem. Elas não me conhecem como tu me conheces, ou como a avó me conhece. Só não sou tão frio como tu porque a tive a ela e sabes bem. E porque cresci e fui mudando certas coisas, e também graças à pessoa com quem estou a viver, claramente.
Só gostava que um dia agradecesses à tua mãe por tudo o que ela nos deu. Mas antes disso acontecer, adorava que conseguisses cair em ti e que te apercebesses do que ela nos ofereceu, sem pedir nada em troca, e não era obrigação dela. Nunca foi. E nada foi dado por obrigação.
E aqui vai:
Eu amo-te. E precisei desta palavra muito tempo. Nunca ouvi da tua boca o "estou orgulhoso de ti" como ouvi de pessoas que quase não me são nada.
Podes ter pensado milhares de vezes, podes ter dado a entender, mas nunca usaste as palavras. As palavras. Nunca juntaste as letras e as mandaste cá para fora. Nunca ouvi o som da frase através da tua voz. Sempre o imaginei, mas como disse, querida, há uma diferença entre o pensar e o expressar. Sempre me senti um pequeno pássaro ao pé de ti.
Estou a chorar agora, mas acredita que não é por ansiar essas frases, ou por te querer aqui. 
É só pelo facto de ter conseguido tudo o que quis, e perceber que foste dos maiores incentivos. O incentivo eram o querer daquelas frases. 
E agradeço-te isso. Foi graças a nunca as ter ouvido que lutava. Mas hoje as coisas estão diferentes. Hoje luto por mim, só por mim, e sinto-me mais um pavão que um pequeno pássaro.

E eu continuo a amar-te."


Podem achar que o Daniel não queria que a mãe lesse a carta algum dia, mas ele queria. 
É verdade que estava feliz, estável, comprometido, bem sucedido, mas ele no fundo queria que a mãe soubesse o que ele sentiu durante todos os anos. Mas havia uma pequena diferença. Não era esse o seu objectivo de vida. Ele passou a lutar por ele, a sonhar por ele próprio e a conquistar em sua própria dedicação. Pela primeira vez desde há muitos anos. 
Podia mentir-vos e dizer que ela sabia tudo isto, mas...não.


Podia também mentir-vos, agora, ao dizer que ele não se destacava de entre todos aqueles pequenos seres, mas... destacava.
E nós gostamos de realismo, apesar de toda a magia que nos era lida antes de adormecermos. 

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