sexta-feira, 6 de maio de 2011

Não é preciso resposta.




Ela olhava-se ao espelho e por vezes não se via a ela própria, apenas via o que outros diziam ver. 

Há dois anos era uma pessoa completamente diferente. Ingénua, pura, e era costume pensar, como alguns diziam: "sonhas demasiado alto". Ela olhava ao espelho e por vezes reparava nas diferenças, não só físicas mas psicológicas, enquanto o tempo ia passando. Muitos diziam que não valia a pena pensar naquele assunto, mas ela continuava a achar que valia bastante. Na verdade ela reparava nalgumas pessoas que nem sequer se apercebiam das mudanças que ocorriam nas suas vidas. Talvez pela simples razão de que foram demasiado rápidas, ou demasiado pequenas. Mas ela tinha o dom de ver o pequeno, de ver o pormenor, de ambicionar o perfeccionismo. De querer sentir.  
- Entramos em cena em 10 minutos! 
E ali estava ela, a olhar para ela própria. Não por estar em frente a um espelho, por algo mais. Era o tempo que tinha. Dali a 10 minutos ia estar a olhar para outra pessoa, para outra mulher, para outra vida que não a dela. Sim isso animava-a mas mais do que isso, fazia-a sentir-se algo parecido com ela. Era como se estivesse à busca dela própria enquanto encarnava outras vidas, e outras personalidades. 
- Dois minutos, gente! 
Desta vez ia viver a vida de uma senhora extremamente rica que à primeira vista parecia uma pessoa fútil e sem quaisquer valores, mas que na verdade era humana e brilhante.
Não se levantou da cadeira em frente ao espelho sem antes respirar fundo e sorrir para si própria. 
- As cortinas vão levantar dentro de 30 segundos! Palco! Palco! Palco! 
Fechou os seus doces olhos azuis, abriu-os novamente e estava pronta para não ser ela. 
Na primeira cena podiamos ver, Filomena, a senhora rica aparentemente fútil e sem quaisquer provas de possuir sentimentos. Patrícia encarnava-a na perfeição. A expressão, a postura, a emoção era sentida por toda a plateia. Nas duas primeiras cenas, Filomena, era vista como a "má da fita" o que na verdade não acontecia. Na cena final, podiamos vê-la bastante emocionada na companhia do filho mais velho, devido ao acordo de divórcio. O filho abraçou-a, pois sabia que a mãe tinha amor para dar e que o pai simplesmente estava a desistir de tudo o que tinha prometido. E não eram promessas pequenas. Na verdade, isso existe, promessas pequenas?
Depois da última lágrima e do abraço afectuoso entre ambos, as cortinas baixaram. 
Patrícia respirou fundo novamente, deu a mão ao resto dos actores e as cortinas voltaram a levantar. Num piscar de olhos passou a ter centenas de pessoas à sua frente, em pé, a baterem palmas. Os actores fizeram uma vénia em forma de agradecimento, voltaram para trás e a cortina desceu novamente. Ela olhou para o resto dos actores à sua volta e as cortinas voltaram a subir. Quão maravilhosa era a sensação de receber o afecto de todas aquelas pessoas, os sorrisos e os intensos "bravo". Sorriu novamente e a cortina vermelha apareceu novamente à sua frente. Sentiu um arrepio depois de tudo aquilo ter terminado. Sentada novamente na cadeira em frente ao espelho, demorou exactamente três minutos para derramar a primeira lágrima. Era legítimo perguntar: "Porque chora ela?" E eu podia responder. Ela chorava pela Filomena. Ela chorava por todas as pessoas que tinha dentro dela, que incrivelmente não eram ela. Apenas as construía. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto enquanto pensava no quão óptimo tinha sido partilhar a dor e o amor  com aquela mulher. Foi como conhecer alguém perto demais, tão perto que até a conseguia sentia dentro dela própria. E tudo o que Filomena sentia, ela acabou por sentir também, o que acontecia com as restantes personagens que já tinha criado. Mas por um lado ela ficava satisfeita, com o simples facto de viver outros dramas que não o dela, outros problemas, e ver que os outros também sofriam e amavam. Mesmo que, exteriormente dessem a impressão contrária. 
Patrícia pegou na mala, e caminhou até ao carro. Entrou e guiou até casa. Agora era a vida dela, os seus sentimentos e a sua história. 
Uma vez numa entrevista, perguntaram-lhe: 
- Como consegue? Ser tão realista e verdadeira enquanto está em cena?
- Eu acho que transmito tudo isso porque na verdade todas as personagens sou eu própria, num certo momento da minha vida. São um pedaço de mim, mais aprofundado. 

Espantoso era, que as pessoas que assistiam conseguiam perceber toda a personagem e até compreendê-la e chegar a amá-la, mas a ela não. Não faziam isso fora das paredes do teatro. Não se esforçavam para tentar entrar nas profundezas dos outros, dos que os rodeavam. Ficavam pelo superficial, pelo lado carnal. 
Quando uma vez lhe disseram: "Sonhas demasiado alto" nem se estavam a referir especificamente à questão profissional, visto que esse sonho já estava a ser vivido. Referiam-se sim ao ela querer amar toda a gente. Ela queria amar, nem que fosse amar por odiar. As suas relações anteriores nunca resultaram. Duas traições, um abandono repentino, e um "não somos feito um para outro". Tudo coisas que não ligavam de maneira nenhuma com o juramento: "Vou fazer-te feliz", como podem imaginar. É verdade, também era acusada de sentir demasiado. Mas ela era assim. Ninguém lhe podia destruir essa magia, esse silêncio perfeito, esse olhar astral

Passados exactamente 5 meses depois de fazer a peça: "A mulher de ouro", em que fazia o papel de Filomena, apareceu um homem na sua vida chamado Afonso. Também actor por sinal. Uma vez disse-lhe:
- Sentes tanto, sentes tudo com tanta intensidade e não te apercebes do quão fantástico isso é. 
Ela sorriu e olhou para a chávena de chá. 
- Vês? É disso que falo. Não é preciso resposta. Consigo ler-te sem dizeres uma palavra. E sinto-te. 

Era a primeira vês, que alguém se preocupava com ela, com aquela sinceridade. Não preocupado com a fútil, a perfeita, a pobre, a rica, a prostituta, a dona de casa, não. A Patrícia. Ela própria. As profundezas. 
Na verdade, ela sabia quem era. Uma coisa tão passageira. Ela era mudança, sonho e  o crescimento, e tanto mais! Que mais?


Como Afonso, agora actual noivo, lhe disse uma vez: 
- Tu podes ser quem quiseres, amor.
E ela, com uma voz doce e serena, respondeu:
- Mas ninguém percebe porquê.


Mas nós percebemos. Certo?  

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