quinta-feira, 5 de maio de 2011

Não é uma questão de sangue.




Já sentia a falta dele, na verdade. 
Ele estava fora há 4 dias, o que nos deixava um pouco preocupados. Ele era dono de si, é um facto, mas eu notava a preocupação nos olhos dos meus pais e sentia-a dentro de mim. 
Ainda para mais, desapareceu numa altura estranha. O carro dos nossos pais tinha sido incendiado, antes dele desaparecer. 

Estávamos num jantar banal, em casa, com as conversas do costume. Eu, o meu pai e a minha mãe. O meu irmão continuava fora, algures. A minha teoria era a de que tinha sido encantado por uma rapariga qualquer, para um sítio a dois. Não seria a primeira a vez que saía assim sem dizer nada para estar com a...amiga. Mas nunca levou tantos dias a regressar.
Mal acabei de pousar o copo na mesa de vidro, a porta de entrada abriu-se mas, assim que me apercebi disso, ouvi um estrondo. Ouvimos dois passos e, como eu estava de frente para o arco que precede a porta de entrada, fui o primeiro a vê-lo. Era ele. O meu irmão.
A minha mãe deu meia volta na cadeira e olhou para ele. Sem perceber muito bem porquê ela retraiu-se e virou-se para a frente novamente sem dizer mais nada. Foi então que me levantei para o cumprimentar, mas não tive sequer a hipótese de inspirar para o fazer.
- Rodrigo, vai fazer as malas - Disse ele, com uma voz directa e fria. 
Eu não resisti e mandei uma leve gargalhada.
- Malas? Ai...Itália ou Inglaterra? Sabes bem que são os únicos sítios aos quais eu...
- Fazes o que eu te digo, sem questionar, uma vez na vida Rodrigo?
- Se me explicares porquê, talvez o faça sim. E eu já sei que me chamo Rodrigo!

- Aqui não. Depois, quando estivermos os dois, falamos...
Foi então que uma nova voz se juntou à conversa, a voz feminina. 
- Leonardo, que se passa? 
A última palavra foi engolida por um berro.
- É que nem me dirijas a palavra! Nem tu, nem ele. 
Aqui sim, comecei a ser invadido por um mau estar, sem perceber muito bem a razão. Mas eu sabia que havia uma. 
- E tu sobe e faz as malas se fazes favor. 
- Eu vou-me sentar, até esta família voltar ao normal está bem?
Era sempre a minha saída: a piada, a gargalhada, o bem-estar. Mas isto já não chegava para o meu irmão. Pelo menos naquele estado, naquelas circunstâncias. Não sabia onde tinha estado, mas onde quer que tivesse sido, tinha-o modificado. Ele nunca tinha gritado comigo até ao momento. Toda a casa sentiu a sua voz, as paredes pareciam tremer e o ambiente ficou mais pesado e frágil do que estava anteriormente.
- Rodrigo, já te perguntaste se esta é mesmo a tua família, hum? - Respondeu-me com um riso cínico mas os olhos dele mostravam alguma sensibilidade.
A minha única reacção foi não ter nenhuma. Fiquei fixo que nem uma estátua presa no mesmo chão há anos. 
- Leonardo...
- Pai, por favor não diga nada, só vai pior as coisas. Eu e o Rodrigo saímos desta casa hoje mesmo. 
- Mas porquê? - intrometi-me eu.
Depois de terminar a minha pergunta desejei não o ter feito. Ele veio direito a mim, como se não lhe restasse nem mais uma gota de paciência. Pegou no meu braço com mais força do que ele próprio imaginava e levou-me até ás escadas tão rápido que nem consegui articular as palavras.
- Larga-me! Que se passa contigo?!

- Sobe e faz as malas!

Eu subi. Limitei-me a fazer as malas, tal como ele mandou. Enquanto fechava o fecho da mala aquela frase intrometia-se vezes sem conta na minha cabeça: "já te perguntaste se esta é mesmo a tua família?". Não me queria envolver nela, não queria pôr sequer a hipótese. Isso implicaria destruiu tudo o que me restava.
Desci as escadas e vi um dos copos a ir direito à parede, junto da lareira desfazendo-se em mil pedaços. A mãe deixou escapar um berro estridente. Pousei as malas e fui direito à sala de jantar, novamente.
- Rodrigo, mas que se passa contigo? Que estás a tentar fazer afinal? 
- Já fizeste as malas?
- Fazer e questionar, não era isso que querias?
- Óptimo. 
- Mas não saio até falares com a mãe decentemente.
- Tu não percebes pois não? Ela não é minha mãe! Compreendes? Nem minha nem tua Rodrigo! Nenhum de nós nesta sala partilha o mesmo ADN! 
Foi como se não o tivesse ouvido:
- Eu sabia que bebida era a tua cena, agora...ácidos?
O meu irmão certamente não estava bem, encostou-me à parede sem mesmo sequer se preocupar com o quadro que tinha deixar cair no chão, e agarrou-me pelo colarinho. Acalmou-se, mas ainda a segurar-me disse:
- Vamos embora, por favor. Eu estou a falar a verdade. Nós não somos irmãos.
Eu não sabia o que havia de fazer. Todos os meus pensamentos estavam distorcidos e as frases ditas por ele eram demasiado fortes para um dia normal como aquele. Ele chegou, sem dizer olá sequer, e passado cerca de 40 segundos diz que não somos parentes. Como é suposto reagir? O que deveria fazer? 
Voltei à realidade simplesmente porque reparei nas lágrimas no rosto do meu irmão. Ele sentou-se na cadeira há direita e chorava como nunca antes o tinha visto. Eu fiquei um tempo em silêncio. Por um lado tinha medo da sua reacção seguinte, e por outro não sabia o que podia dizer ou fazer na situação em que nos encontrávamos. Ele poupou-me e falou:
- Como foste capaz? 
- Leonardo, nós...amamo-vos.
De repente tal como se alguém me tivesse estalado um dedo mesmo em frente à cara a dizer "Olha, é verdade, sabes? Tudo isto...", eu mudei de atitude e de postura sem intenção, e senti o sangue a ferver cada vez mais e o meu peito a ser injectado com outra substância qualquer sem ser oxigénio. Não era mais oxigénio. Era ódio puro, desamor e desprezo. A minha vontade era destruir tudo o havia à nossa volta. E àquelas pessoas também, ou lá o que eram. 
Uma coisa eram de certeza: mentirosas.
- Rodrigo! Rodrigo! 
O meu irmão seguiu-me para fora de casa.
- Espera!
- Leva-me daqui para fora!
- Desculpa.
- Isso é uma forma de eu me irritar mais? É que está a resultar. Leva-me daqui para fora.
Ele ligou o carro e eu não disse mais nada. Não haviam mais palavras. Não havia mais nada a ser dito, pensava eu. A dor era muita. Era demasiada. 
Era de noite e até chegarmos à outra casa eram precisos uns 15 minutos. 
- Rodrigo, tu para mim continuas meu...
- Epá, nem digas mais nada! Eu não quero saber. Não quero saber. Destruíste tudo aquilo que eu tinha. Sabes aquela sensação de chegares a casa e...depois de um dia cansativo e angustiante teres a família lá para te apoiar? Sabes essa sensação? Eu nunca mais a vou ter. 
Eu sabia que estava a descarregar nele, tudo o que podia. Ele não acrescentou mais nada, e eu continuei...
- É engraçado como os pais andam anos e anos a convencer-nos de que existe uma coisa chamada amor, quando na verdade nem eles próprios têm isso para dar. Nem isso, nem outra coisa qualquer. Mas também, porque é que eu estou a reagir assim, não é? Foi só uma mentira de de nada. - Disse eu com um sorriso cínico.
- Rodrigo pára! Pára com essas piadas protectoras e estúpidas. 
Era a noite das verdades, pelo que parecia.
Ele parou o carro e olhou para mim. Eu não aguentei. Eu não queria, mas todas as emoções, que eu não as sabia identificar vieram à tona, e comecei a chorar.
- Achas que eu não sei, o que estás a sentir? Eles também me mentiram caso não te consigas lembrar. E estes dias serviram apenas, apenas, para tentar arranjar uma maneira de te tirar dali e de te contar, calmamente. Sim, falhei na parte calma, não contei da melhor forma mas...descontrolei-me. Mal olhei para ti na sala, a primeira a coisa que pensei foi: "Olha o meu irmão", e na verdade tinha lido papeis que afirmavam o contrário, e não sabia te dizer. Tu és a única razão pela qual a minha vida é mais fácil e fantástica, e apercebi-me disso, ainda mais, nestes dias. - Continuou ele.

Eu saí do carro. A minha fraqueza não podia ser vista por mais ninguém. Muito menos por ele. Ter um irmão e no minuto seguinte não o ter, é do pior que podem fazer a alguém. Podíamos ter ficado sem casa, sem o carro, sem os electrodomésticos mas eu preferia continuar a ver aquelas pessoas como sendo da minha família, como sendo parte de mim e eu parte delas. Queria olhar para eles e continuar a sentir protecção, conforto e segurança, e naquele momento não conseguia sentia nada disso. Nada disso. Sentia que tudo era uma mentira, e que o ser humano não era capaz de uma coisa tão simples, tão simples como a honestidade. E os meus pais, eram o caso mais brilhante neste aspecto. Mesmo eu, saindo do carro e sabendo de tudo continuava a vê-los como meus pais e chamava-os de tal. Família são os sentimentos e a partilha, ou é tudo uma mera questão de misturas de sangue? Perguntei-me eu naquele momento. Chorei ainda mais quando me lembrei do simples pormenor de nunca, nunca ter ouvido algo como: "Tens os olhos da tua mãe". 

O meu irmão saiu do carro,  em lágrimas como eu, e abraçou-me:
-Vamos para casa.
Para meu espanto, deixei-me ficar um pouco. E para minha surpresa, ele mudou de direcção quando entrámos no carro, e voltamos para casa, dos pais.
- Sim, para casa. 
Não vinham tempos fáceis ou algo similar, mas...ele tinha razão.
Olhei para o meu irmão, e senti que foi tudo por mim. E por nós. 
Eu sentia-me a família dele. E era.
Vinda do nada, surgiu-me a possibilidade:
- Foste tu que incendiaste o carro? - Disse eu esboçando um sorriso.
- Uhum, eu mesmo! 

Sem dúvida, ele era parte de mim.

1 comentário:

  1. mais um texto optimo! ;) gostei bastante, pedro. espero pelo proximo eheh

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