sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bom dia, querida.


Não havia nada mais claro que o nosso amor. 


Há coisas que nunca mudam. Pelo menos com tanta facilidade. 
Tive oportunidade de a conhecer num dia rotineiro e simples, e o engraçado é que passou a ser um dos dias mais marcantes da minha vida inteira. Porque na verdade não existem dias simples e a rotina é muito traiçoeira. 
O meu irmão ao fim do dia veio ao meu escritório para me pôr a par das novas alterações na empresa:
- Posso? 
- Sim, mas estou de saída.
- Queria apresentar-te o teu novo braço direito. 
Como me ri, interiormente, quando ele disse aquilo. Basicamente eu sou uma pedra em questões de trabalho. 
- Ana Clara, a tua nova assistente.
- Prazer. Seja bem-vinda. Esperemos que dure mais do que a última!
Todo o meu sorriso era desconfortável e sarcástico. 
- Prazer. E eu espero ser aquela que dure mais. 
O sorriso meio cínico que ela me ofereceu fez-me olhar para ela, realmente. 
- Veremos. O meu irmão dar-lhe-á as coisas necessárias para começar a trabalhar, amanhã.
- Oh, não se preocupe, ele já o fez.
- Então tudo em ordem! Agora se me desculpam, vou ter mesmo de sair. João, encontro-te na mãe numa hora. Ana Clara, prazer e seja bem-vinda, mais uma vez.
- O prazer é todo meu. 
- Ah, Ana Clara, mais uma coisa. Se estiver à espera de um ambiente calmo e civilizado por aqui, é melhor esquecer.
Mais um sorriso e com pausas perfeitas entre as palavras. 
- Adoro caos, não se preocupe.
Mais uma vez, a resposta, surpreendeu-me.
- Sendo assim, perfeito. 

No dia seguinte entrei no escritório com o stress do costume. Ela já lá estava dentro, mais o meu irmão. Entrei, pousei a mala na secretária e sentei-me a ligar o computador sem lhes dizer absolutamente nada. Era habitual em mim, este comportamento. 
- Bom dia Carlos. 
O meu irmão olhou para mim, a sorrir, do género: "Ela é tão diferente do resto", mas eu tinha de provar que não. 
Eu sorri, mas não foi um sorriso simpático. 
- Bom dia, Ana Clara. 
- Basta Clara. 
- Clara então. 
- Tem aí o café. O seu irmão disse-me qual é o seu preferido.
- E como sabe que é? 
- Ele é seu irmão. Sabe mais de si que eu. E há uma coisa chamada confiança. Tive de confiar nele. 
- Tem de ficar na dúvida até saber por si, não é? 
- Exacto. 
- Bom, aproxime-se porque tem de ficar a par de certas coisas que o meu irmão não lhe entregou. 
Achava-a extremamente resistente. E era o primeiro dia. A minha 4ª assistente no primeiro dia foi apanhada a chorar na casa de banho. A Clara, pelo contrário, mostrava uma atitude um tanto ou quanto inoportuna e directa, e isso agradava-me. 
A verdade é que ela se estava a aguentar. Trabalhava extremamente bem e entregava-se a 100%. Cheguei a notar entusiasmo pelo próprio trabalho. Fosse o que fosse, ela empenhava-se. 
Houve um dia, no seu 9º mês de trabalho, em que reparei que já era muito tarde para ela continuar a trabalhar, já passavam das 23:00. Mas ela não me dizia nada. E acho que nem se apercebia do tempo a passar. 
- Clara, por favor. Já é tarde, devia ir-se embora. Existem coisas mais importantes para se fazer numa sexta à noite. 
- E você que o diga, não é? 
Respondeu sem sequer olhar para mim, continuava a olhar para os papeis e a virar as páginas.
- Que quer dizer com isso? 
- Trabalho aqui à cerca de 9 meses e nunca o vi a sair primeiro que o resto das pessoas. Fica sempre aqui, depois de me ir embora. 
- Isso é mentira.
- Adora mesmo acreditar em tudo o que pensa? 
 - Eu saí primeiro que toda a gente no dia em que tive o doce privilégio de a conhecer. 
- Ah, cabeça a minha. Um dia. Fantástico!
Aquela atitude irritou-me. Arrumei as coisas todas na mala, desliguei o computador e mantive-me em pé à frente dela. 
- Eu fico - Disse-me ela.
- Não, não fica. Vamos os dois embora. Chega de trabalho. 
- Só porque preciso de rever isto com mais atenção.
- Sim, só por isso. 
Ela arrumou as coisas dela, vestiu o casaco e fomos para o elevador. Quando chegamos ao primeiro andar, saímos. 
- Boa noite - disse ela ao segurança. 
- Boa noite, menina Clara. 
Estas coisas não eram naturais, para mim. Mas era espantoso ver as atitudes dela perante as coisas. E perante as próprias pessoas. Eramos tão diferentes nesse aspecto. 
- E agora, será capaz de vir tomar um copo comigo? 
- Já tenho coisas combinadas. Tenho uma família e um filho à espera. 
- Sendo assim tudo bem. Mas eu sei que não tem filho nenhum. Mas sim, tenha uma boa noite Carlos. O convite nem era a sério. Era apenas para testar a sua capacidade de fuga. Teve um 20. 
Ela sorriu. Todo o discurso era mergulhado numa onda gigante de simpatia e boa educação. Ela estava realmente a ser simpática. 
- Eu aceito então! 
- Um não é um não. Tem de ficar para a próxima. 
- Não era a sério, era para testar a sua...
- Okay, última oportunidade. Aceita ou não? 
- Vamos no meu carro, eu guio. 
- Não, eu levo carro e eu guio. 
- Porquê? 
- Primeiro porque adoro conduzir, e segundo porque nunca levei um patrão a passear. 
- Isso soou a piada rafeira, percebe? 
Foi uma das minhas primeiras risadas sinceras em meses. 
Ela guiou como combinado e fui no lugar do passageiro. E também cantou. 
- Ela também canta, uau. Boa profissional e boa cantora. 
- Isso foi um elogiu? 
- Foi. 
- Não é assim que se elogia uma rapariga sabe. 
- Desculpa? Tu fazes-me rir!
- Uau - disse ela abanando a cabeça. 
- Que foi? 
- Tratou-me por "tu" e foi genuíno.
Eu ia começar a falar mas...
- Não, deixa estar. Podemos tratar-nos por tu, naturalmente. Não se preocupe que não é um abuso.
- Quem disse que estava preocupado com abusos? 
- Boa, agora estiveste bem. 
Deixou-me ganhar, pela 1ª vez. 
- Saia do carro, chegamos. 
Não conhecia aquele bar, tinha óptimo aspecto. No geral era um belo local. Estava perto do mar e o bar tinha uma esplanada fantástica. Entrei depois dela, e ficámos na mesa que ela escolheu. 
- Então que achas? 
- É...bonzinho. 
Ela ficou a olhar para mim à espera que acrescentasse mais alguma coisa.
- É magnífico. Na verdade, fiquei impressionado quando cheguei. É agradável. 
- Posso perguntar-te uma coisa? 
- Claro.
- Qual é o teu problema? 
- Em relação ao quê, exactamente? - Disse eu a sorrir, porque achei piada ao facto de continuar sempre a ser directa. Sempre. 
- Porque tens de dizer um não antes de dizer que sim? Ou porque é que não mostras entusiasmo e tiras essa capa gélida para as pessoas? 
Fiquei uns segundos a olhar para ela e aquela pergunta emocionou-me especialmente. 
- Desculpa, fui indelicada. 
- Ainda bem que o foste. Não é o que queres saber? Sendo assim podes perguntar.
- Então mantenho a pergunta em jogo. Sim, vamos jogar.
- Quero as regras primeiro. 
- Já estava à espera disso! Uma regra apenas: Atacar os pontos que nos parecem fracos, um do outro. 
- Alinho, então. 
- Uau. Deixa-me só pedir.
Ela chamou o empregado. 
- É um café para mim, e é o favorito deste senhor aqui.
- Desculpe, mas eu não sei qual é. 
- Pois, nem eu. Ele na verdade é meu patrão - disse ela com uma cara engraçada para o empregado. 
- É um cappuccino de chocolate, por favor. 
- Trago já! 
Enquanto o empregado se estava a ir embora ela manteve o mesmo assunto. 
- Então é o seu favorito
- Nunca saberás se fizeste bem em confiar no meu irmão. 
- Talvez. 
- 1ª pergunta: Porque me convidaste para sair? 
- Escolho a opção A - Porque me apeteceu, porque acho que mereces sair e porque te acho boa pessoa, apesar de tudo.
-  Apesar de tudo? 
- Sim, apesar de certas atitudes que vejo nas horas de trabalho.
Todo aquele cenário me estava a impressionar, ela estava a dizer-me os meus próprios defeitos sem mais nem menos, e por incrível que pareça eu estava a achar piada. Se fosse outra pessoa, talvez não achasse tão engraçado. 
- Não sou tão mau assim.
- Eu não acho, mas eles acham!
- Ai é? 
Disse eu com o ar: "Amanhã vão ver". 
- Pois é. Mas acho que não te conhecem. 
- Pois não. 
- Eu também não conheço, atenção. Mas acho que há aí muita coisa para ver. 
- Como sabes? 
- Estás aqui a beber café comigo não estás? Eles nem sonham que és capaz disso. De sair da tua zona de conforto. Eu ao menos sei que é. Com muito esforço da minha parte, mas é!
- Muito esforço?!
- Sim e continuo à espera da resposta!
- A resposta é simples. Porque tem de ser, Clara. Porque as pessoas são más e até ingratas. Porque é melhor assim. Até me provarem o contrário. Eu sei que me devem chamar frio, insensível e muito mais coisas, mas na verdade eu sou assim - Disse eu encolhendo os ombros.  
- E se não fores e apenas te quiseres convencer disso? 
Os cafés chegaram, e por um lado foi bom, porque me deu tempo de pensar naquilo que ela me tinha perguntado. 
- O preferido cappuccino- Disse o empregado a rir. 
- Será? - disse ela. 
- Será
- Vá, responde. 
- Talvez queira, porque é mais fácil. 
- Mas o mais fácil não é o mais certo. E normalmente não é o que traz mais felicidade
- 2ª pergunta: Porque és tão directa? 
- Porque, por vezes, irrita-me andar à volta da questão. E porque é a minha defesa ser directa, inoportuna e descontraída. A tua é ser frio, e um pouco mau. A minha é esta. 
- Muito bem. Muito bem, começo a perceber. 
- O quê? 
- Começo a perceber-te, digo. 
- Tens piada, embora não o aches. 
- E tu és uma óptima profissional, até demais. Devias descontrair nesse aspecto. Se há uma pessoa competente és tu, e olha que já tive muitas assistentes. 
- Mas nenhuma te levou a tomar café! E sim, sou séria demais nesse aspecto, mas com o tempo...
- Nenhuma aguentou!
- Não deves ter sido fácil, desculpa! 
- Só queria fazer delas pessoas mais fortes e com garra. Nenhuma me motivava. 
- Mais motivação do que a que tens?
- Motivação na vida e não no trabalho, Clara. 
- Mais uma pergunta: É culpa do trabalho ainda não teres uma aliança no dedo? 
- Não, é culpa das próprias pessoas que não sabem ter relações. 
- Como assim? 
- Não sabem inovar, não sabem querer, não sabem desejar, não sabem corresponder ao que o outro quer, não sabem crescer em sintonia um com o outro e muito menos tentar ultrapassar as dificuldades e tentar viver sem medo. Não sabem sequer...
- Sim, diz. 
- Não sabem sequer acreditar. E mantê-lo.  
- Concordamos numa coisa! Uau, Carlos! A primeira coisa! - Disse ela num tom de brincadeira para tentar suavizar a conversa.
- Agora a sério, eu percebo. Acho o mesmo. Falta amor. Só isso. 
- E tu? 
- Eu o quê? 
- Porque ainda não tens nenhuma aliança no dedo? 
- Olha porque, simplesmente, nenhum homem se tratou a fazê-lo. 
- Só por isso? 
- Sim, e porque ninguém sabe lidar com a minha entrega. Quando eu gosto, gosto. E é até ao fim. E é uma coisa que vai crescendo, e crescendo. E as pessoas, pelo menos as pessoas com quem estive, acham que é natural uma série de coisas. 
- O quê, por exemplo? 
- Desrespeito e Falta de Comunicação. São duas coisas que não tolero. Comunicação para mim é...a base. É através dela que tudo acontece. Até um olhar é comunicação. 
Quando ela terminou de dizer aquela frase, eu olhei para ela. Para ela. Para dentro dela. E acho que foi a primeira vez que tive uma conversa honesta com ela, sem máscaras e protecções associadas ao dia-a-dia e à rotina. 
- Impressionado é? 
- Um bocadinho. 
Ela sorriu e aproximou-se e disse: 
- É apenas por essa razão que não tenho uma aliança neste dedo. 

Passado cerca de duas horas saímos do bar e ela levou-me de volta à empresa, onde estava o meu carro estacionado. 
- Então boa noite, Carlos. Gostei de te começar a conhecer, e não te preocupes que amanhã cá estaremos com as nossas máscaras. Não é? 
- Tem de ser, verdade? 
- Será? 
- Acho que sim. Boa noite, Clara. Obrigado pela noite, foi muito agradável e tenho sorte com a assistente que tenho. Prestável, inteligente e para além disso é bonita. 
- Estamos a melhorar na forma como elogiamos. Oh, e acabaste de agradecer? Não acredito! 
- Que piada! Boa noite! Daqui a exactamente 4 horas e meia tens de estar no meu escritório! Percebes isso? 
- Sim, patrão. Durma bem. -  Disse ela com um sorriso na cara. 

Dirigi-me para o carro. Estava especialmente bem-disposto. Havia algum tempo que não me sentia assim. Agora começava a reparar que a minha vida estava a ficar tão estupidamente sem vida. 
Na manhã seguinte, no escritório, tudo foi natural. A Clara já lá estava, como sempre. 
- Bom dia, bom dia. 
- Bom dia, Carlos - Disse ela espantada. 
- Conseguiu chegar a horas então. 
- Eu disse que chegava.
- Desculpem mas estou a perder algo, aqui.
O meu irmão não estava a perceber nada da conversa, e ainda estava com um ar um pouco chocado apenas pelo facto de ter desejado um bom dia aos dois, assim que entrei na sala. 
- Testei o teu irmão a ir beber café e ele aceitou. 
- Aceitou? Oh meu Deus. 
- Pois, também me espantou. Mas foi preciso muito!
- Não, não foi. Ela está a mentir. 
- Não, não está Carlos! 
Eu sorri, inevitavelmente. 
- Pronto, não está, admito. Mas foi bom. 
- Uhum, eu reparei. 
O tom do meu irmão fez crescer um ligeiro sorriso na cara da Clara enquanto ele escrevia ao seu lado. Eu percebi que o meu irmão estava a tentar algo connosco. Não foi por acaso que no secundário lhe puseram a alcunha de...pequeno cupído. 
A verdade é que ele, desta vez, tinha razão. O tempo foi passando e as coisas iam-se revelando e crescendo, não propositadamente. Ela já trabalhava comigo à cerca de 2 anos e as coisas, surgiram. Eu e a Clara saímos muitas mais vezes, e quando ela chegou à pergunta 502 eu próprio já tinha pensado na resposta. 
- Pergunta 502...
- Que foi? Diz lá. 
- Pergunta 502 Carlos, preparado? 
- Secalhar mais que tu! Porque...
Interrompeu-me.
- Tu gostas de mim? Estás interessado em mim?  
Deixei um tempo para ver a cara dela. E foi engraçado ver toda a mudança. Quando terminou a frase estava com uma cara de gozo, como já era habitual, mas depois passou a ter uma expressão mais séria e até ansiosa. 
- Será? 
- É uma pergunta directa. Afinal quem não estava prepa...
Tive de a interromper. 
- É óbvio, que sim. 
Parecia uma miúda de 10 anos, assim que me calei. O riso era genuíno e terno. 
- Anda, quero levar-te a um sítio. 
Ela foi calada o caminho inteiro. Eu sei quais eram as preocupações: "O patrão a envolver-se com a assistente", muito clássico. Mas eu não podia fazer nada, e só não lhe tinha tido mais cedo apenas pela parte profissional, e por ela. De resto, tinha todas as provas de que era ela que queria. Apenas estava à espera
Levei-a a uma montanha perto do mar, onde costumava ir com os meus irmãos e com os meus pais quando era mais novo. A lua não estava cheia, mas não foi por isso que deixou de ser romântico. E nem sei bem se era isso que lhe queria dar agora, e se era isso que ela desejava.  
- É muito bonito. Obrigado, Carlos. 
Eu olhei para ela e tive de a beijar. Mas fui seguro, e desta vez precisava de ser eu. 
Pensava que ia haver alguma perturbação no nosso modo de trabalho, mas nada se passou. Houve apenas uma discussão entre nós porque ela não queria de maneira nenhuma que o resto dos empregados se intrometessem entre nós e que mandassem bocas de que iriamos terminar mais tarde ou mais cedo, como todos os casos. Foi então que, passado um tempo, decidi fazer uma reunião com todos os empregados presentes em que lhes disse que a Clara devia ser tratada como eu era, e que estávamos noivos. Sim, estávamos noivos. Tinha-lhe feito a proposta num local perto daquele bar em que ela me levou quando saímos, e ela aceitou. Tudo estava a correr bem, na nossa vida.  
Estávamos a corresponder às expectativas um do outro. E eu queria atender a todos os desejos dela. Eu queria fazê-la realmente feliz. Passou a ser uma das minhas funções, porque ela ,sem se aperceber, alterou-me. Em vários aspectos. Passei a dizer bom dia ao segurança e ao resto dos funcionários, passei a ter uma vida viva, passei a ser mais directo e gentil com as pessoas e passei a deixá-la entrar em mim, coisa que não fazia, nem nunca tinha feito anteriormente. 
Eu sei que também a alterei, como pessoa. Ela parecia mais descontraída a trabalhar e passou a confiar realmente em mim . E tínhamos a base. 
Conseguíamos ultrapassar as situações, e os problemas que nos iam surgindo, naturalmente e ela nunca me abandonou em nada. Sempre me apoiou. 
E foi então que casamos. A pergunta 1210 foi a melhor pergunta de todas:
- Clara, aceitas casar comigo? 
Ambos sabíamos o que aquilo implicava. Eu estava mais que pronto para ser dela, e eu sei que ela estava pronta para ter uma vida comigo e para tentarmos viver da melhor maneira possível, ao lado um do outro. 
O casamento na verdade, foi o início de muita coisa. Comprámos casa. Também discutimos mais vezes. Mas essencialmente, tudo isto mostrou que conseguíamos. Tinhamos uma vida sexual bastante activa e excelente, continuava a desejá-la, como sempre, em termos de confiança já nem era questionável. Estávamos felizes. E o mais importante é que ela sabia o quão feliz me fazia e o quanto mudou a minha vida. Porque mudou. E não ela não se apercebia do que tinha feito.  
Aprendi a amar de uma forma que não calculava ser possível, e a pessoa que nunca dizia bom dia e que era rude e fria passou a ter entusiasmo pela vida e pelas pessoas. E graças a uma só pessoa. Com quem estava casado. E orgulhava-me disso, mas tanto. 
Foi então que algo inesperado aconteceu.
No dia 24 de Novembro a Clara foi parar ao hospital. Estavamos a passear em frente ao rio quando ela se sentiu mal. Chamei a ambulância o mais rápido possível. Eu estava terrivelmente preocupado e assustado. Foi a primeira vez que tive medo, e não queria ter. Não queria. Ela disse para não ter. 
- Carlos.
- Sh, sh, sh, sh. Não digas nada. 
- Amo-te, desde sempre. 
- Eu também te amo. E vai correr tudo bem. Descontrai, mas é. 
Beijei-lhe a testa 3 vezes.
Eu podia estar nervoso, e a viver o terror, mas ela ensinou-me a ser diferente. Fez-me ver a vida de outra perspectiva, e queria dar-lhe segurança acima de tudo. Conforto, amor e segurança. 
Ela entrou no hospital e o meu coração começou a bater mais rápido. As lágrimas surgiram, inevitavelmente. O tempo passava e o médico não aparecia. Parecia que estava incluído num filme, mas não estava. Aquilo era a vida real, e um acontecimento real. E queria sair dele!
Entretanto o médico veio ter comigo, sem pressa. Quando olhei para ele percebi tudo. Aquele olhar disse tudo. O próprio médico pôde assistir à minha queda. Perdi todas as forças, naquele instante. 
- Lamento. 
Sentei-me tal e qual como uma criança, no chão do hospital. E a palavra continuava a ecoar na minha cabeça "Lamento, Lamento, Lamento". 
O meu irmão apareceu pouco tempo depois no hospital. Quando me encontrou segurou-me de uma maneira que nunca o fez. A mulher tinha vindo com ele, e não consegui deixar de o invejar, por alguns segundos. 
Ele pegou em mim e abraçou-me. Eu estava num estado horrível, chorava e meu irmão também. Ele tinha assistido a tudo aquilo, desde o início, desde o começo. Assistiu à entrega de ambos , à confiança, ao amor. E ele sabia o quão difícil era todo esse crescimento. E sabia o quão difícil foi para mim abrir o coração novamente. 
O meu irmão levou-me para casa dele, não me quis deixar sozinho nos próximos tempos. Mal me dei conta que tinha ido para casa dele, depois do hospital. Só pensava na pergunta 502. 
10 anos. Foram os 10 anos ao lado dela. Parecia tão pouco. Eu tinha tinha planeado tão mais. Tinhamos planeado tão mais!
- Foram 10 anos, João. 
O meu irmão tinha o dom de ser mais sensível que eu, pelo menos mostrava mais. E ele estava a sofrer muito comigo. Ouvir-me aos berros de noite e abraçar-me a chorar não era tarefa fácil. Ela era o amor da minha vida e não mudava. Só há um amor na nossa vida e ela era o meu. E queria tanto dizer-lhe, novamente. 
O meu irmão um tempo mais tarde entregou-me uma carta, escrita por ela, para mim. 
- Ela entregou-me e disse para te dar, um dia mais tarde. Acho que ela suspeitava que algo estava mal na saúde dela, agora que penso nisso. 
Eu segurei na carta e saí. Fui para o nosso bar. Sentei-me na cadeira dela, de frente para o mar e comecei a lê-la. Ela sempre foi fantástica com as palavras, sempre. E aquela carta estava tão cheia de amor. Como me custou ler: 
"Amo-te e viver neste mundo sem ti tinha sido tão em vão. Eu amo-te e vou continuar a amar-te até existir vida seja onde for. Aqui ou lá".
Quando terminei a carta virei-a. E comecei a chorar mais e a sorrir, porque sabem? 
Foi a vida mais bem passada. Ao lado dela. Valeu tudo a pena. Tudo. Cada gargalhada, cada discussão, cada beijo, cada toque, tudo valeu a pena com ela, e antes não valia. E foi isso que fez a minha vida e a dela.
Vida sem amor não é vida, e quem me ensinou isso foi ela. Só ela. 
Virei a carta e li: 
"Nunca gastei uma pergunta com: "O cappuccino de chocolate é o teu favorito?", porque sei que não havia favorito até eu aparecer e porque sei que ao longo dos tempos o passou ser. O teu irmão apenas me disse um dos que bebias na altura. E eu não escolhi o que ele disse. Escolhi um, eu própria.
E eu escolhi-te. És a pessoa mais bonita daqui. 
Gosto de ti, 502. 
Clara". 

O empregado veio à minha mesa e eu estava lavado em lágrimas.
- O que vai ser? 
- Nunca mais pergunte isso. Um capppuccino de chocolate. 

Estou-lhe tão grato. E repetia tudo outra vez. Com uma diferença. Tinha-lhe dito bom dia logo no primeiro dia.


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