sábado, 2 de julho de 2011

Quem não espera ir a tempo?



Na verdade, não temos tempo
Isso é uma ilusão. Talvez a maior ilusão de todas. 
Outra grande ilusão são as certezas. Também ninguém as tem, por muito que o afirmem. 

Joana começou a correr, com a carta na mão. Não lhe interessava mais nada. Nem a probabilidade da mala cair, nem mesmo as próprias roupas, a única coisa que ela queria era correr. Chegar a tempo
Finalmente chegou à máquina e comprou um bilhete de ida, toda ela a tremer. Subiu as escadas rolantes o mais depressa que conseguiu, sem mesmo se lembrar de respirar. Quando chegou ao topo das escadas reparou que faltavam exactamente dois minutos para o próximo comboio, o que para ela significavam duas horas. Foram os dois minutos mais desconfortáveis da sua vida. Voltou a reler a carta, agora a uma velocidade maior. Não conseguiu evitar as lágrimas. Andava a evitar uma coisa tão importante e essencial na sua vida por estupidez. Por medo, como o queiram chamar. 
Entrou no comboio e sentou-se num dos lugares desocupados. A vista para o lado de fora da janela não lhe transmitia paz alguma, como já o tinha transmitido anteriormente. Quanto mais longe estava, mais perto estava
A próxima paragem era a sua, e ela levantou-se mal se deu conta. As pessoas à sua volta eram completamente invisíveis para ela. Não significavam nada. Não lhe davam sinais, nem sorrisos, nem mesmo um olhar. Naquele momento só ela importava, e a confusão dentro da sua cabeça impedia-a de ver o resto. Saiu do comboio, mais uma vez a correr. Felizmente, haviam vários táxis fora da estação. Entrou num deles. O taxista, um senhor perto dos 40 fez um ar interrogativo ao olhar para a rapariga. Ela estava ofegante e nervosa. 
Pouco demorou até ela chegar onde queria. Depois de pagar ao taxista e sair caminhou para a casa dele. Tocou à campainha. Não houve resposta. Tocou novamente, desta vez com um tempo de duração maior. A porta abriu-se e lá estava ele. Bernardo, tal e  qual como da última vez que ela o tinha visto. Nada tinha mudado, pelo que parecia
- Bernardo! 
A sua voz tinha uma mistura de contentamento e emoção. 
- Joana? Que estás aqui a fazer? 
Ele olhou-lhe para as mãos e reconheceu a carta, escrita por ele próprio. Ela não respondeu, manteve-se a olhar para ele, apenas, à espera de algo mais. 
- Joana, por favor. Na verdade...
Ela não aguentou. Foi como um choque eléctrico a vir da base das pernas. Não aguentou e beijou-o. Aquelas malditas três semanas tinham-lhe mostrado muita coisa. E a ele também. 
Ele agarrou-lhe na mão e empurrou-a lentamente.
- As coisas não são assim. Já não são. 
- Como assim?
- Eu não tenho tempo para isto. Estive três semanas fora e compreendi coisas que não era capaz se não estivesse longe de ti. 
- Bernardo, por favor. Voltaste. 
- E então? 
- Não tiveste saudades minhas? 
Ele sorriu ligeiramente, como que dizendo: "Por que razão?" 
- Diz-me. Não sentiste saudades minhas? Que significa esta carta? 
- Senti a tua falta sim. Adianta de alguma coisa? E...essa carta...apaga-a da memória. Essas palavras já morreram há algum tempo.
- Eu só a li hoje, B.
- Mas eu mandei dei-te antes de ir embora, o que significa que já a tens há pelo menos quatro semanas. Ou estou enganado? 
- Não. Mas não a consegui abrir, devido aos acontecimentos. 
- Vai-te embora. Peço-te. Não fazes mais nada aqui. 
- As coisas não são assim.
- Agora são.
Houve um breve silêncio. Ele olhou-lhe nos olhos e reproduziu o que lhe ia na alma.
- Estamos acabamos. Seja o que for aquilo que tivemos. Eu não te amo, Joana. 
- Se há coisa que ambos sabemos é que me amas. 
A frase entrou-lhe como uma faca dentro da cabeça. 
- Eu encontrei outra pessoa, de qualquer das formas. 
A reacção de Joana foi clássica: um sorriso. Ela não acreditava. Nunca acreditou. Sempre acreditou no tempo. Mas...não é uma ilusão? 
- É isso que queres? - Disse ela agarrando-lhe no braço. 
- E eu responderei: Foi isso que quiseste, lembraste amor? Sempre ouvi dizer, "cuidado com o que desejas". 
Foi aqui que ela se começou a sentir esquecida. Nesta história não há o mau e o bom. Há sim, duas pessoas. E o tempo. E as provas. Bernardo amava-a, naturalmente. Mas ele necessitava de uma coisa. Uma única coisa: A certeza que ela o amava. E acreditem, a Joana era uma pessoa difícil. Extremamente sensível, mas teimava em manter a postura dura e gélida que sempre passou. Já o Bernardo não. Ele era quente e amoroso. Mas todos temos limites, verdade? Verdade. 
- Bernardo...
- Para a semana vou para Inglaterra, passar uns dias com os meus tios. 
- Isso é bom, não é? Há algum tempo que não os vês, querido. 
- Joana, acabou. É agora ou nunca: Tu amas-me e queres-me, verdadeiramente, ou não? 
Se há coisa que o tempo faz é mudar coisas.
Várias coisas, aliás. Ela apenas achava que o ia ter sempre na sua vida, mesmo que não lutasse e mesmo que não o demonstrasse. Mesmo que mentisse para ela mesma dizendo que não o amava, e que não o queria mais do que qualquer coisa no mundo. 
As lágrimas voltaram a formar-se nos seus olhos, com a pequena sensação de um enorme buraco no estômago. Todos os medos estavam ali. Todos os medos estavam transformados, num só, à sua frente. Ela olhou para trás e reparou que o sol estava a desaparecer. E aí teve noção do tempo. E noção do que significavam todos os momentos. Não se tratava de uma resposta. Tratava-se de amor. De um amor em vias de extinção. 
- Não tens de ter medo, J. 
De um amor puro, saudável e perigoso. 
Ele só precisava daquelas três letras. 

Ela respondeu que sim, se é o que querem saber. 
E agora? Vocês podem não ter a certeza, mas ele e ela têm-na agora. Sendo ilusão ou não. 
Mas ela apercebeu-se que, ninguém tem tempo. 
Foi por isso que correu terminando apenas quando o encontrou. 
Porque na verdade, na verdade não temos tempo
Isso é uma ilusão. Talvez a maior ilusão de todas. 
Sabemos que temos este tempo, agora. Portanto devemos usá-lo com o devido valor. E ela naqueles minutos deve medo de perder tudo, por isso correu. Teve medo de o perder. Teve receio de não conseguir ser verdadeira a tempo. 

Não há tempo para depois. 
Desiludam-se. 

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