segunda-feira, 4 de julho de 2011

Se me virem chorar e eu não souber explicar.



Nasci com uma característica diferente das outras pessoas. Nasci com o dom, ou com a maldição, de saber com quem estive noutras vidas. Por exemplo, a minha mãe actualmente, já foi minha irmã noutra vida. E eu lembro-me de todas as vidas que já estive, e com todas as almas com que já me encontrei. É esse o meu dom, ou maldição, repito. 

Há uns anos tive de me reencontrar com a pessoa que me matou numa das outras vidas. Todo o meu corpo sentiu quando ele me tocou. E não o queria voltar a reencontrar nunca mais. Mas sempre soube que era quase impossível. Impossível, achava eu, poder apaixonar-me por ele. Mas aconteceu. Não consigo dizer como nem bem porquê, mas apaixonei-me. O engraçado era que ele dizia sentir-se mal comigo de vez em quando. Eu bem sabia porquê, na verdade tinha-me morto. Aquela bala atingiu-me, levando-me à morte. A bala não era para mim, mas mesmo assim fui eu que paguei o preço do seu disparo. 
- Não sei, Vanessa. Parece que te devo algo. Parece que te devo sempre algo mais.
Foi o que ele me disse uma vez. Por muito que quisesse, ele nunca ia perceber o que aquela simples frase me dizia. Eu perdoei-o. Sinceramente. E usei as palavras exactas. 
- Eu perdoo-te. Pelo que sentes e pelo resto, Ricardo. 
A parti desse momento, parece que tudo mudou. Abri o meu coração um pouco mais, e ele ficou mais alegre e leve. Senti-o e ele também. Sentia-se mais animado e com mais vida. Ele precisava do meu perdão. E na verdade consegui perdoa-lo realmente. Pura e totalmente.
Meses mais tarde terminámos. De forma natural, ambos o queríamos. Continuámos amigos mas sempre senti a necessidade dele em querer dar-me algo mais. Mais um telefonema, mais um presente de aniversário, mais um abraço. Sempre algo mais. Como se estivesse a querer compensar o pequeno acidente do passado. Engraçado, por um lado. 
Já encontrei outras pessoas que nunca pensei voltar a encontrar. Encontrei uma amiga que andava comigo na faculdade há umas vidas atrás, e o seu maior sonho era ser modelo, mas infelizmente nunca foi conseguiu ser bem sucedida. Para minha felicidade reencontrei-a. Pôs conversa comigo no café já não sei bem porquê, acho que queria usar a caneta que eu estava a utilizar, por um instante. Depois disso, olhou para mim e puxou sempre mais e mais conversa. E eu, obviamente, quando olhei para ela dei-lhe um dos melhores sorrisos que podem existir. Transpareciam muita, muita saudade. Olhei para ela, era lindíssima, ainda mais que na vida anterior. Depois de um tempo de falarmos consegui perceber que era modelo, e desta vez com bastante sucesso. Uma das melhores aliás. Sempre conseguiu o queria. Mais tarde ou mais cedo, todos acabamos por o conseguir.
A partir daí, como já esperava, mantivemos a relação, parada por uns anos devido ao aparecimento da morte. Apenas continuámos a relação que sempre tivemos. E isso era bastante bonito de se ver. Toda a gente dizia que pareciamos irmãs e que nos conhecíamos há muitos mais anos, há uma eternidade. E na verdade, não estavam muito longe da realidade, mas isso só eu sabia. 
Tudo isto tem o seu lado fantástico, é claro, mas por outro já me cruzei com pessoas que não queria. É verdade, eram pessoas diferentes, era uma vida diferente, mas a essência era a mesma. O núcleo, por assim dizer. Por vezes se os acontecidos da vida me levassem a pessoas que não deseja, eu quebrava a relação ou simplesmente não dava hipótese de haver qualquer tipo de comunicação entre nós. Mas anos mais tarde percebi que isso também não tinha nada de produtivo, pois não estava a permitir uma evolução para ambos. Então, depois disso passei a querer dar uma outra oportunidade a todas as pessoas que me feriram anteriormente. E incrivelmente, algumas delas surpreendiam-me pela positiva. Tinham evoluído e estavam mais maduras, e a nossa relação não se comparava nada às anteriores. 
É legítimo perguntar: "E o amor da nossa vida, existe?". Sim, existe. Vários até mas isso é outra história. O meu por exemplo, prometeu e jurou a pés juntos voltar a encontrar-me nesta vida. Era uma pessoa evoluída e com um espírito como nunca vi. E sim, é verdade. Ele cumpriu com a promessa. Voltou a procurar-me, sem saber é claro. 
Lembro-me de estar sentada na relva com ele e me dizer: 
- É estranho sabes? Parece que já te conheço. Parece que isto é só um "olá outra vez". 
Eu apenas pude responder:
- Eu também, curiosamente. 
Muitas vezes chorei em casa, sozinha. Ninguém conseguia perceber o que era arcar com tal responsabilidade. Quem era eu para o fazer apaixonar novamente por mim? Algumas vezes me perguntei, e se desta vez houver algo melhor e um destino maior para ele que não tu? Lágrimas que não conseguia explicar a ninguém. Tinha saudades de pessoas que não nunca mais tinha voltado a ver. Tinha o medo, sempre presente, de voltar a perder certas pessoas e demorar anos e anos até as voltar a encontrar. E muitas das minhas noites foram passadas em claro num choro imenso e profundo, com as perguntas a ecoar na cabeça: "Onde é que ele anda?", "Onde é que eles estão?". 
Mas chegou o dia em que ele apareceu. E ao que parece, ele apaixonou-se por mim, outra vez. Por muito que eu não quisesse ele apaixonou-se. Tentei de tudo para não lhe dar sinais. Queria dar-lhe a oportunidade de ter uma vida ao lado de alguém, outro alguém. Alguém que pudesse ser ainda melhor do que eu era para ele. Mas não conseguiu. Nem ele nem eu. 
Todos os beijos, todos os olhares me diziam mais do que ele podia imaginar. E com esta característica minha, consegui perceber que não existem almas iguais. E que o olhar delas é único e apaixonante. Porque quando chorava do que mais tinha saudades era de um olhar, de um toque, de simples pormenores. Não sentia falta do físico, até porque eu tinha mudado também. O exterior era apenas um aditivo. E ele continuava bonito, como sempre. Chamava-se Salvador, desta vez. 
Antes de o conhecer, tive a oportunidade de encontrei um amigo meu. 
Grande amigo meu. Chama-se Filipe. Até hoje ele nunca soube o que me marcou e o que mudou em mim. Ele reencontrou-me em circunstâncias péssimas e fez-me perceber certas coisas na vida. E acho que ele nunca soube o quão importante era. E vai ser, sempre. Uma vez marcado, para sempre ficará. E não me importo se não vou voltar a falar com ele, porque terei mais outra vida para o procurar, nem que seja para lhe agradecer uma vez mais e para lhe sorrir e dizer que merece, sem dúvida, ser feliz. E que senti falta dele, claro. 
O Salvador, é das pessoas que procurarei sempre. Morra as vezes que morrer, hei-de o encontrar novamente. Porque felicidade como a que tivemos, nesta vida, acho que não vou encontrar com outra alma, com outro ser para além dele. São coisas que não se explicam, nem por palavras. É muito íntimo e forte. É como explicar o que é ver fogo e explicar como é vê-lo dançar sempre com a mesma força. E tenho a certeza que há pessoas, quando digo pessoas digo almas é claro, há pessoas que valem a pena. Porque valem. E sempre tive a sensação que algumas das pessoas que se relacionam comigo hoje, se lembram de mim, de qualquer das maneiras. Porque eu lembro-me delas. Cada sorriso e cada tremor de felicidade no meu peito faz-me ter saudades delas, mesmo que estejam à minha frente. Ali, à minha frente, eu continuarei com saudades, porque já são tão importantes para mim que ninguém as vai substituir. E sei que ainda vou reencontrar muitas muitas pessoas, mas eu vou saber o que tivemos, vou sempre recordar-me. E mesmo que hajam pontos negativos acerca disto, e por vezes via isto como uma maldição pois já encontrei gente bastante negra, vou sempre ver a lembrança como algo extraordinariamente bom, pois trago todas as pessoas comigo, mesmo que elas se esqueçam por um tempo. Eu não. Não esqueço nem por um bocadinho. E se me virem chorar e eu não souber explicar, já sabem porque é. É porque, é porque sinto falta e porque...amo. 
E obrigado por me teres reencontrado. Eu sei que por vezes não me é dada a oportunidade de vos encontrar, mas sim tu a mim, e o brilho no meu olhar quando olhas para mim vem daí mesmo. Dos nossos anos, e dos nossos momentos. E isso abrange todas as pessoas de que já falei, e das outras que ainda estão para vir. 
E se me virem chorar e eu não souber explicar, já sabem porque é. É porque vos amo. E porque me relembro. Porque me relembro.



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