domingo, 14 de agosto de 2011

Dispara! Não dispares!




O cheiro e a cor do sangue dela permaneciam todos os dias nas minhas mãos. 


Melhor dizendo, todos os pormenores daquela noite estavam encravados, para sempre, na minha memória. O som do disparo, os berros dela, e o principal: o assassino. 
O gorro, os olhos, uma ligeira cicatriz ao pé do olho direito e o maldito cheiro a rum. 
Íamos casar dali a 5 meses. Uma bala e uma atitude estúpida acabaram com duas vidas, não apenas com uma. Eu acabei por morrer junto dela. Quando a agarrei de costas, na esperança de a ouvir e de a salvar, já a senti sem forças e quando a olhei nos olhos já não havia brilho, ela já não estava lá. 
Nem uma palavra de despedida nos foi dada. Nos filmes trágicos ainda lhes é dado um: "até já" ou um caloroso "amo-te como nunca amei ninguém", mas a nós não nos foi dada essa regalia, tudo era frio. 
Um resumo feito de sangue, lágrimas e ódio. Quando o ser humano ridiculamente diz: "Os homens não choram!" eu só desejo que nunca lhes seja retirado o valor daquilo que me foi tirado a mim, porque aí sentirão a água a formar-se e a escorrer pelas faces. E não vão poder fazer mais nada.  
A vida muda cada ser humano individualmente, todos o sabemos. E a partir daquele 8 de Agosto nunca mais fui o mesmo. É verdade, encontrei o assassino da Rita mas ele não sabia. Andava a segui-lo há umas boas semanas. O meu objectivo não era nenhum para além de o querer matar também. 
Se ele pôde tirar a vida à pessoa que mais amava e continuo a amar, porque não podia eu tirar-lhe a dele, visto ser um pequeno ser egoísta e sem sentimentos?  
E a minha teoria do: "Nunca digas nunca" foi posta à prova no dia em que ela morreu. Quem diz "Nunca farei..." pense duas vezes, ou mais se for necessário. Eu nunca me imaginaria a matar alguém, mas para minha surpresa e do resto das pessoas que me conhecem eu estava com a arma pronta para ser disparada. 
Eu Estava fora do Jeep apenas à espera, à espera que ele passasse como seria habitual, na mesma estrada, com uma imensidão de árvores e sem luz alguma. Estava a fazer aquilo por mim, e por ela. Seria a minha vingança. Ninguém tem o direito de matar alguém, mas poupem-me, naquele momento eu tinha-o.
A paga ali seria eu próprio a dá-la e não o destino. Assim como o destino se juntou ao assassino e lhe tirou a vida. 
Depois de estar pronto e em posição comecei então a ouvir uma mota. Era ele. E era ali que tudo ia ser resolvido e tratado. Perante Deus, perante a minha noiva. 
A arma estava pronta, e o dedo no gatilho. Nada tremia, nem uma única árvore se movimentava. Eu estava calmo, até o chegado momento em que o comecei a ouvir. Nesse instante, voltei ao lugar onde ela foi assassinada, voltei a passar por tudo novamente. Uma corrente eléctrica surgiu em todo o meu corpo, com mais intensidade nas minhas pernas. O som da mota cada vez aumentava mais, e mais. Dentro de segundos, ele estaria morto . 
De repente, pensei na minha mulher. De uma forma diferente, sem ódio por aquilo que aconteceu. Sentia-a ali ao meu lado, com a mão no ombro. Ela não queria que eu dispara-se. A luz dos faróis passou a iluminar um pedaço das estrada e algumas das árvores. A minha mulher permanecia ali, junto a mim, com o terrível mesmo de que eu fosse mesmo capaz de o fazer. Conseguia-se sentir no ar a batalha entre o anjo e o demónio, entre o bem e o mal.  Cheguei a dizer em voz alta: "É agora". Mas o meu coração não estava totalmente certo de que era aquilo que realmente queria. Eu não queria ser fraco, e então desviei todos aqueles pensamentos e concentrei-me apenas na arma, na mota e no alvo. 
Mas continuava a sentia-la comigo, e isso assustava-me. Sentia o amor que tinha por mim, e sentia que ela estava ali por mim, para me salvar a mim e não a ele. Na realidade, ele já não tinha salvação, mas eu ainda tinha. 
Uma decisão é como um relâmpago, é um momento apenas. Sim ou Não. A nossa história estava entrelaçada: a minha, a dela e a do assassino. 
A arma continuava apontada, e as lágrimas apareceram sem avisar. Eram pura raiva, puro ódio, puro descontrolo. 
Ele ia aproximando-se, cada vez mais. Em tempo real, sem puder parar. Foi ali que tudo se passou. E, por um segundo, eu decidi. Ele passaria mesmo em frente à arma. Era minha escolha matar ou não matar. Foi então que quando o meu cérebro enviou a mensagem para o meu dedo pressionar o gatilho que ouvi um berro: "NÃO!"
Parecia a voz dela, confundida com o barulho da mota e misturada com os meus pensamentos. Não consegui disparar. O meu dedo não se movimentou para além de um leve tremor. A mota continuou estrada fora e eu caí no chão. Desta vez as lágrimas tinham um significado diferente: não conseguia disparar, mas eu queria. Eu queria e não consegui. Frustração. Sentimento de culpa. Mas naquela noite percebi, sem sombra de dúvidas que existe sempre a escolha: ou bem, ou o mal. E é como um relâmpago. É uma batalha interior super rápida, mas ela existe. 
Senti uma paz enorme dentro de mim, voltei a visualizar o sorriso da mulher que amo atrás de mim. Enquanto retira a mão das minhas costas e se vai. Com os olhos fechados ouvia-a dizer, com a sua doce e meiga:
"Na realidade, ele já não tem salvação, mas tu querido tens".
Percebi que a vida tinha maneiras de nos fazer crescer, mesmo sendo nós adultos, com formas e acontecimentos e nos transcendem. Mas sempre ouvi dizer que o que vai volta, e era isso mesmo que ela me queria dizer. E se eu tivesse disparado, apenas me estava a condenar a mim próprio. 
Matar é outra forma de...suicídio. 
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