segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Exige a chave, se te faltar o ar.


Eu era apenas mais um membro da família. 
Nada me distinguia da minha mãe quando ela era mais nova. Podemos mesmo afirmar que eu era a sua cópia. Fotocópia, aliás, pois eu tinha tudo, menos cor.
Cada palavra, cada gesto eram simplesmente a força da minha mãe a mexer na marioneta. Ela mexia, eu mexia. 
No carro, mais uma discussão entre a minha mãe e o meu pai. O ar estava a faltar-me. Literalmente. Discretamente pressionei o botão à minha esquerda e a janela abriu suavemente. A  brisa acariciou-me e todo o meu corpo agradeceu. Do lado de fora da janela estavam um casal de jovens fixados a olharem para mim. Na verdade, passados alguns segundos, apercebi-me que não era exactamente para mim que estavam a olhar, mas sim para o enorme e luxuoso objecto que me engolia, o carro. Só depois repararam que havia também uma jovem dentro dele. Alguns seres humanos têm sempre como prioridade os objectos e só depois as pessoas, e o seu interior. 
- Quem te mandou abrir a janela?
Acordou da discussão sem eu própria me aperceber, e o seu próximo passo era descarregar a dor e tristeza na única e habitual: eu mesma. 
Mantive-me a olhar para os jovens até a janela fechar por completo. 
- Beatriz!
Estou a falar consigo, era a próxima fala. 
- Estou a falar consigo! 
- Desculpe, mãe.
- Artur, por favor, faça-nos chegar a tempo. 
Artur, o motorista. Há mais de uma década a trabalhar para a mesma família, tendo as mesmas ordens e estando sempre a ouvir os mesmos problemas e futilidades. 
Ele apenas acena com a cabeça. 
O ar começa a faltar-me outra vez. Desta vez com mais intensidade. Eu só queria chegar à mesa de jantar, fazer o meu papel, voltar para casa e meter-me dentro da cama. 
O Artur estacionou perto das escadas e abriu a porta à minha mãe, e então depois a mim.
- Beatriz...querida. Limite-se a comer, a sorrir e a noite passará tão rápido que nem se irá aperceber. Sim?
Um leve sorriso era a minha resposta afirmativa, isso bastava.
Entrámos pelas duas grandes portas douradas. Primeira captação: Doze mesas circulares, quadros valiosíssimos, uma orquestra tocando Vivaldi, cinco ou seis empregados em movimento, velas,e um enorme, enorme som a...desespero.
A companhia habitual esperava-nos. Válter, Rute, Carmen, Carlos e...mais alguns. Estes recordava apenas por serem bastante faladores. Chegando mesmo a serem chatos a certo ponto. 
Sentei-me e acendi um sorriso. Do meu lado esquerdo tinha o meu pai e do meu lado direito Carmen. Preferia Carmen do meu lado direito à minha própria mãe. Conseguiria aturar até Válter! Menos a minha mãe. Não naquela noite. 
Impressionante como em certo momento Vivaldi encaixou perfeitamente no ambiente. Todos sorriam e davam gargalhadas e eu mantinha-me petrificada a olhar-lhes. Não a eles, mas sim às suas maravilhosas personagens. Posso garantir-vos que 90% dos diálogos eram trabalhados e severamente pensados. 
Por momentos desviei o olhar para o orquestra. Conforme a música se ia desenrolando, e a conversa na mesa ia apodrecendo, o meu oxigénio ia sumindo ao sabor dos acontecimentos.
Mantinha-me com uma das mãos a agarrar os dedos da outra, com o queixo a repousar em ambas. A salvação, por fim, chegou à mesa, nas mãos dos belos empregados: as tartes de maçã. Uma delas foi pousada mesmo à minha frente, dando eu ordem ao empregado para me servir. Não sei bem como mas penso que até o empregado notou a minha ausência de paciência, oxigénio e motivação teatral. Ele próprio deixou escapar um pequeno sorriso, com o qual me contive para não sorrir demasiado. 
Assim que pus a torta à boca voltei ao meu estado normal numa noite em família. Desempenhei o papel na perfeição a partir daí. O sinal da minha mãe acordou-me dizendo que o jantar tinha terminado. Uma ligeira tosse era o sinal. 
Calcei os sapatos imediatamente, pois a meio da noite resolvi tira-los. Sentia-me presa de todas as formas, porque não tirar os sapatos? Tudo o resto era evidente. O retirar dos sapatos não. Despedimo-nos e saímos todos da enorme sala.
Artur estava dentro do carro, já à nossa espera. 
- A Rute, grávida? - encarava a minha mãe o facto. 
- Foi o momento mais difícil da noite para não me desmanchar em risos - disse o meu pai.
Houve uma notícia de gravidez naquela noite e nem me apercebi. Apenas rezava para que a filha não saísse parecida à mãe, e nisto falo interiormente, embora não ache Rute minimamente atraente. 
Finalmente chegámos aos portões de casa. Mais três minutos e estaria no meu quarto. Assim que passei a porta principal corri pela escadaria cima até me enfiar no quarto. Dirigi-me à janela e abri-a totalmente. Ar fresco! Sentia os meus pulmões a sorrir de alívio. A paz foi interrompida assim que ouvi baterem-me à porta. 
- Está tudo bem, menina? 
Eram as duas empregadas que me seguiam quase para todo o lado. Uma delas, a extremamente magra, sorriu-me. 
- Sim, está tudo bem. 
- A sua mãe disse para lhe abrirmos a cama... 
Quase não terminaram a frase e já estavam dentro do meu quarto, de volta da enorme cama. Dirigi-me à casa de banho. Vesti a camisa de dormir branca e caminhei para a cama. 
- Durma bem, menina. Chama-lá-emos de manhã. 
- Boa noite às duas. Podem ir. 
Assim que saíram, levantei-me para voltar a abrir a janela que tinham fechado. 
No dia seguinte, às sete horas e meia, o professor bateria à porta, portanto, as empregadas acordavam todas as pessoas da casa por volta das seis horas, o que nos dava tempo suficiente para um banho e tomar o pequeno-almoço descansadamente. 
Depois de mais uma aula cansativa dada pelo professor na minha própria casa, decidi pedir ao Artur, gentilmente, para me levar a ver o rio. Há bastante tempo que já lá não ia, os dias ultimamente tinham sido como estar presa, só que na minha própria casa, no meu próprio lar.
- Com certeza, Beatriz. - disse o Artur. 
Artur era das únicas pessoas presentes daquela casa que penso compreender-me realmente. Ele no fundo compreendia o meu sofrimento e a minha falta de ar. Porque sempre desconfiei que ele passava pelo mesmo mal. 
Assim que chegámos ao rio, saí do carro. Para sorte minha, o vento correu na minha direcção novamente. Só precisava de um momento de sossego, sem empregadas, sem mãe, sem pai, sem mordomias, sem nada disso. Só pedia quatro...minutos.
Enquanto os meus olhos absorviam toda a paisagem, detectaram um humano. E não, não era Artur. Era alguém mais jovem, um rapaz. 
Dei dois passos à frente e consegui perceber que estava a pintar, bastante concentrado.
A minha vontade era aproximar-me dele. Conforme ia perguntando a mim mesma se me devia aproximar ou não, ele olhou para mim. Como é óbvio, primeiro olhou para o carro e depois para mim. Mas fiquei um tanto ou quanto surpreendida pois pouco tempo desperdiçou a apreciar o carro. Depois desses poucos segundos a olhá-lo, manteve os olhos afundados em mim. Nos meus olhos. Senti-me a corar. 
Tomei uma decisão e andei na sua direcção. Era esquisita a sensação quando olhava para ele. Como hei-de explicar? Olhava para ele e era como se eu pudesse ser quem quisesse, pois eu olhava-o e via-o, na sua simples forma. Para mim, ele era ele, simples e verdadeiro. Ao contrário de mim, que me sentia uma boneca, sem personalidade, e por vezes sem verdade alguma. 
- Guzu. 
Interrompeu a minha batalha interior ao pronunciar o seu nome.
- Guzu? - repeti eu. 
- Sim, trata-me por Guzu. 
Não sabia se havia de estar perplexa devido ao nome, ou devido ao facto de ele me ter realmente falado. 
- Guzu, será. 
- E o teu nome é? 
- Beatriz. Beatriz, é o meu nome...
Conseguia sentir o meu corpo a cumprimentar também pela primeira vez não só Guzu como novos sentimentos e sensações. Eu sentia-me...nervosa e sem saber o que dizer. Esta última já era normal em mim, mas desta vez eu queria falar. Eu queria mesmo falar. 
- Beatriz, será. - Disse ele com um tom especialmente propositado, na tentativa de me imitar.
- O que desenhas? 
- Se não estiveres com pressa, posso mostrar-te. 
- O quê? 
Por breves momentos, perdi-me. 
- Os desenhos, Beatriz. - Disse ele sorrindo, percebendo o meu bloqueio. 
Ajeitei o vestido e sentei-me ao lado dele. 
- Aqui, tens o retrato da minha mãe. 
Quando ele me passou a folha para as mãos, os meus olhos arregalaram. Ele era realmente fantástico a desenhar. A perfeição no olhar da mãe, no pormenor da marca de varicela junto à sobrancelha, de cada fio de cabelo. Perdi as palavras novamente. Definitivamente ele tinha um dom. 
- Brilhante! Está realmente bom, Guzu. 
- Obrigado! Aqui tens os meus melhores amigos...
Todos eles com um ar saudável, libertador, e feliz. Tinham uma expressão natural. Sem fingimento. Sem uma mãe e um pai por trás com as costas mais direitas que uma porta sorrindo, apenas porque ficará bem e porque é necessário para os futuros membros da família reconhecerem que ali estivemos, felizes e unidos. 
Os melhores amigos de Guzu à primeira vista pareciam ser os jovens com quem me gostaria de dar e não sempre aquelas mesmas pessoas incompreensível e...de ouro...fresco. 
Nesse mesmo desenho estava a foto original, em que dava para comprovar a felicidade de todos eles, naquele momento. 
- És muito, muito bom. Parabéns! - Disse-lhe eu sorrindo.
- Se gostaste, fazemos o seguinte: levas os desenhos para casa e amanhã ou depois passas por aqui novamente para mos entregar e partilhas a tua opinião. Que achas da ideia? 
Na verdade, era a melhor ideia dos últimos tempos! Saía de casa, interagia com alguém que não "eles" e respirava ar puro.
- Aceito! Amanhã passarei então por cá e dar-te-ei a minha opinião como prometido. 
- Venho sempre para aqui depois das aulas. Toma, leva-os. É uma boa forma de me conheceres. 
- Porque dizes isso?
- Porque estão aí muitas frustações, muitas paixões e desilusões, e pode ser que sintas parte do que senti ao desenhar. É esse um dos meus objectivos. 
Não lhe respondi. Acenei-lhe apenas e dirigi-me para o carro.
No dia seguinte voltei a pedir ao Artur para me levar ao mesmo local. Já tinha analisado os desenhos e estava surpreendida. Ele tinha razão. Através dos desenhos, compreendi uma parte dele. Através daquelas folhas de papel conheci-o um pouco mais. Algo que não conseguiria conhecer à primeira vista. Algo ao qual não conseguiria ter acesso se apenas olhasse para...outro lugar. 
Para ser directo e honesto, voltámos a encontrar-nos várias vezes depois daquele segundo dia. O Artur, começou a desconfiar que algo se estava a passar entre mim e aquele rapaz, mas pouco me importava. Ficaria mais preocupada se fosse uma das empregadas a suspeitarem de alguma coisa. Com o Artur sentia-me a salvo e mais protegida e até com a possibilidade de fazer coisas que nunca imaginei sequer.
- É interessante o rapaz, menina. - Disse-me ele num daqueles dias. 
Artur foi-se tornando uma espécie de pai para mim. Podia falar sem medo, e foi a partir daqui que tive a oportunidade de me abrir um pouco mais, olhar para dentro de mim e ver-me. Porque antes de conhecer o Guzu e antes de conseguir falar sobre ele com Artur, tenho a plena  noção de que estava presa em mim própria, presa a uma pessoa que não era eu, mas sim a minha mãe. Eu era a sua imagem perfeita. E, a partir daqui, começava a...criar-me, eu própria. A minha verdadeira identidade. 
Na verdade Guzu era apenas o seu apelido. O seu primeiro nome era Tiago. Passado cerca de alguns meses dos encontros com ele, acabámos por nos apaixonar. E até nos apaixonarmos, posso dizer-vos que foi dos caminhos mais belos que alguma vez tive oportunidade de percorrer. 
O Tiago foi a pessoa que me fez crer que eu tinha voz. E que precisava de ser ouvida, ao invés de dar a palavra à minha mãe, como sempre estava habituada a fazer. 
Passado um tempo, a minha mãe percebeu que o meu comportamento se estava a alterar, e notou uma certa liberdade nas minhas palavras e nos meus movimentos, mesmo eu tentando não passar essa imagem de mudança. Então decidiu prender-me no quarto, como antes fazia, sem puder sequer passear de carro com Artur, o que me dava então cartão vermelho para me encontrar com o Tiago. 
- Solta-te. - Dizia-me ele. 
Ao ver a minha mãe tão rígida, o passado voltou. O medo, não sei exactamente do que, retornou. E a pessoa que era tornou a bater-me à porta. 
Mas eu tinha um "amo-te" porque lutar. E todas as frases que ele me tinha dito voltavam a ser ouvidas, mais uma vez, tal como uma cassete sempre a rebobinar. 

- Volta sempre. Para mim. Não te esqueças de quem és. Age. És das pessoas mais fortes que já conheci, só ainda não te apercebeste disso. E vai haver um momento na tua própria história em que te vais surpreender. Só precisas de decidir quando. E ouve, mesmo que penses que não tens cor, tu tens. E sei disso desde o momento em que te olhei nos olhos e desde o momento em que te vi corar. 

Eu estava sentada na cama, de pernas cruzadas. Estava na presença das duas empregadas, como era habitual. Uma delas tinha a chave em sua posse, que me podia deixar sair. 
Não sei bem como fiz aquilo, mas de repente uma onda de calor insuportável percorreu o meu corpo. Pensei que ia explodir, mas a minha única reacção foi pegar na mola do cabelo e tirá-la, arrastando-a. O meu cabelo estava solto, coisa que nunca acontecia. Apenas no banho se mantinha solto, de resto, nas outras alturas permanecia sempre, sempre atado. Abanei a cabeça e foi a sensação mais refrescante que poderia ter. Levantei-me, pus o cabelo para trás e dirigi-me à janela, sem qualquer intuito. Eu precisava de sair dali. Ou melhor: Eu queria sair dali. 
Com uma das mãos na anca, olhei para ambas as empregadas, e notei que foi a primeira vez que me olharam sendo eu, Beatriz, e não a minha própria mãe. 
Uma delas movimentou-se. Pôs a mão no bolso e, finalmente, estendeu-me a chave, velha e dourada. 
Eu olhei para ela e andei na sua direcção, num passo rápido. Mal lhe tirei a chave, inspirei de felicidade, não alterando a minha expressão anterior. Rodei a chave na fechadura e pressionei as duas maçanetas.
O meu único pensamento era ele.
As minhas mãos pousaram na porta e empurraram-na com todas as minhas forças. Forças que estava a conhecer naquele momento, que não sabia existirem. 

Na verdade ele não me tinha mostrado apenas bons desenhos. Ele tinha-me dado algo mais. Algo que nunca tinha visto. Naquele dia rasguei a fotocópia e comecei a pintar a cores. Foi isso que ele me deu. A mudança, o oxigénio, a minha vida. 
Será que não poderemos chamar a isso amor

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