quarta-feira, 13 de junho de 2012

A espada está virada para mim.

Existe um problema em todas as histórias. E o problema da dela era bastante comum. Com o passar dos anos o problema ia-se agravando, pensava ela. Embora cada vez mais tivesse a capacidade de saber lidar com as situações, o problema para ela permanecia vivo e cada vez mais forte. Mas a meu ver não era apenas um problema central, havia um problema central sim, mas que se alastrava em diversas direcções dando origem a novos problemas. Ela preferia matar um por um do que acabar com o problema principal e desse modo pôr fim a todos os restantes. Ela no fundo tinha conhecimento deste facto, mas para ela doía muito mais mergulhar no centro da questão que ir resolvendo levianamente cada um deles. 
Levianamente, julgava ela. O leviano dela significavam lágrimas e uma bela fatia de sofrimento. 
O problema dela era, e continua a ser, o não conseguir deixar aquela pessoa tomá-la por completo. Ela acreditava  na paixão na sua forma mais intensa e destruidora. Ela sempre que se apaixonava, morria. Ela sempre que se apaixonava tinha a sensação de ter a cabeça do dragão na mão, ou seja de início aparentava ser uma vencedora, mas depois estar morta em pleno campo de batalha. Todos morriam. Todos morriam, incluindo a personagem principal. De que lhe servia a paixão se nem podia nem sabia usufruir da mesma? De que lhe servia a cabeça do dragão se já nem conseguia respirar por ela própria? 
É essa a questão. Ela suga todo o ar envolvido da relação. Deixa de haver oxigénio. A paixão é de tal forma irreal e ardente que termina mesmo antes de ter começado. É rápido, é como uma flecha que mal se vê ser disparada. Ainda mesmo quando ela está morta em campo, consegue ver-se uma pequena lágrima a percorrer-lhe a face. Porque ela sabe que aquela vitória nunca é uma vitória completa, e nunca mais brilhará. 
Peço-vos que antes de lhe arrancarem a cabeça e antes de viverem essa paixão arrebatadora, que olhem nos olhos do dragão e busquem dentro dele algo que vos faça querer viver realmente um amor verdadeiro e real. Se olharem para dentro dele e não houver nenhuma reacção no vosso corpo, não avancem, apenas pousem a espada e caminhem noutra direcção. E não se preocupem que o dragão não vos fará mal nenhum. Quem carrega a violência não é o dragão. Se por acaso o dragão rosnar não se incomodem, porque ele poderá ter visto algo nos vossos olhos, mas infelizmente e por culpa do destino vocês não, portanto deixem-no rosnar porque ele tem direito de demonstrar que está magoado. Mas mais magoado não poderá sair. É esse o lado positivo. 
É tudo um ciclo. É tudo um grupo de pessoas a quererem resolver karmas, de pessoas a quererem amar, outras a quererem ser amadas e ainda outras apenas a quererem descobrir a definição exacta de amor. Mas todos lutam e todos arrancam cabeças pelo mesmo. Uns fazem-no apenas de maneira mais pacífica, outros como vivem apaixonadamente e sem noção das consequências e dos seus próprios actos acabam por ferir os outros, mas o pior nisso tudo é que essa dor vai acabar por lhes doer no próprio coração, e é daí que surge a tristeza e a frustração.  E aqui falo por experiência própria. 
Agora ocorreu-me uma ideia, bastante estúpida. Mas já alguma vez pensaram entregar a espada em vez de a apontarem logo ao início? 
Na minha opinião, no dia em que entregarem a espada, sem medo do que virá a acontecer ou sem medo de acabarem mortos no chão, aí vocês vencem. Porque aí vocês amam, aí vocês são amados e aí vão descobrir a definição de amor. 
Basicamente, aí começam a sentir o sabor da vitória. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Quem tem o veneno a correr-lhe no sangue?



O relógio quebrou o silêncio do quarto. 
O relógio batia as 7 horas da manhã. 
Ela levantou-se da cama vestiu o robe e saiu. Não se ouvia nem um som no corredor. Nem dentro dos outros quartos. Caminhou então para a direita e entrou na casa de banho. O silêncio persistia em segui-la. Tomou um banho rápido e voltou para o quarto. Antes de abrir a porta percebeu que começava agora a haver movimento nos outros quartos. Pôs uma das mãos na porta enquanto a outra segurava na toalha, fez força e...
- Bom dia, Leonor. 
Cada palavra era medida pela Directora. E utilizando a palavra errada o preço a pagar era incalculável. 
- Bom dia, senhora Directora. 
O seu sorriso gelado fez arrepiar Leonor. 
- Está tudo pronto? 
- Penso que sim.
Ela entrou no quarto, fechou a porta e preparou-se para vestir. Aquele não era um dia qualquer. 
Passada meia hora as empregadas de cada piso tocavam já o sino para a hora do pequeno-almoço. Ela saiu do quarto e pôs-se na fila. A saia vermelha e as suas meias longas com os sapatos a condizer não eram diferentes  das das outras raparigas na fila. O seu cabelo encontrava-se perfeitamente enrolado. 
Desceram as escadas ordenadamente e entraram no grande salão. A primeira pessoa que Leonor procurou? A Margarida. Por estranho que pareça ainda não tinha entrado no salão. Enquanto se sentava continuava à procura. 
- Beatriz, tens alguma ideia de onde a Margarida possa estar? 
Acabada a frase, ela aparece.
- Vês ali na segunda porta à direita? 
- Sim, obrigada. Bom apetite, Beatriz. 
O olhar de agradecimento. 
Leonor pôs a mão no bolso e sentiu o pequeno frasco abanar. Era bom sinal. Para ela, é claro. 
- Atenção, meninas. 
A Directora. 
Será ela feliz a comandar este inferno? 
- O pequeno-almoço entrará dentro de minutos, espero que façam bom proveito e espero de igual modo que não se atrasem para a 18ª aula de "Boas Maneiras em Todo o Lado". Até então. Bom apetite. 
O coro. A sintonia de todas elas. O ódio à Directora em três pequenas palavras:
- Obrigada, Senhora Directora.
O silêncio voltou a falar. 
As empregadas, desta vez em maior número, entraram pelo salão dentro, distribuindo os tabuleiros. Eram sempre os mesmos revestidos a prata, com um copo, uma taça com sopa, um prato com a comida na quantia necessária e outra taça com fruta diversificada. Ah, e é claro o guardanapo de pano respectivo a cada uma delas. 
Desta vez, Leonor apenas olhava em seu redor. O apetite era quase nulo. Ela olhava em volta e pensava como era possível tanta perfeição a fazer sentir tão imensamente imperfeita
De repente, voltou a focar-se no que interessava naquele dia. Nela. Na Margarida. Ela já a conseguia imaginar a tossir compulsivamente, deitada no chão, sem mesmo conseguir pedir socorro. Obviamente a imagem que Leonor passava era a que lhe tinham ensinado. Sempre foi excelente aluna, dedicada e gentil. Só não gostava muito de regras. Principalmente a do tempo e a do espaço, visto que não podiam entrar na zona masculina. Leonor era a actriz perfeita. Na verdade foi o que sempre desejou ser, mas mudou de ideias recentemente, pensa ela. 
Abriu a boca e projectou a voz para a pequena mesa onde estava inserida. Ela e mais onze raparigas.
- Volto já, com licença.
- Leonor, onde vais? Não é permitido sair da mesa antes do sino tocar. Por favor, senta-te.
Praticamente todos os olhares estavam nela. Por qualquer razão ela voltou a sentar-se. Todos olharam incluindo Margarida. Enquanto uma sorria verdadeiramente, a outra sorria matando-a. 
Depois do almoço e da 18ª aula de "Boas Maneiras em Todo o Lado" era hora de ir apanhar ar fresco ao Jardim das Flores. Era aí que a mistura entre sexos era dada. Fora as horas de pausa do plano diário imposto pela Directora as raparigas não tinham mais tempo para estar com os rapazes.
Quer isto dizer que Leonor apenas tinha este tempo para estar com o Rodrigo. 
Quer isto dizer que Margarida apenas tinha este tempo para estar com o Rodrigo.
E, sem Leonor saber, era este o único tempo dado a Henrique para ver, apenas ver, Leonor. 
As empregadas abriram então as enormes portas que as levariam a apreciar a liberdade prisional imposta pela Directora.
Assim que Leonor pôs o pé no segundo degrau começou então a procurar Margarida. Primeiro ela. Depois ele. 
Ela estava junto da fonte à espera de Rodrigo. 
Quão romântico!
Quando os rapazes se começaram a misturar com as raparigas o olhar de Leonor apenas captou um, um só rapaz. Rodrigo caminhava então em direcção à fonte. Em direcção a Margarida, que na perspectiva de Leonor era o mesmo que dizer, em direcção à...
Traidora!
Desceu os degraus que faltavam e pôs a mão no bolso para se certificar que o frasco lá permanecia. Tirou-o do bolso, olhou para ele e voltou a colocá-lo no mesmo lugar. Ela aumentava agora a velocidade em direcção a ela. Num destes passos velozes foi interrompida. Sentiu um toque que não lhe era familiar. Era novo. Era alguém que nunca lhe tinha tocado antes. 
- Não faças isso.
Surpreendentemente, naquele dia ele não a viu apenas. Ele tocou-lhe. De uma forma que ela nunca imaginaria ser possível num ser humano, só ainda não se tinha apercebido do quão importante e necessário foi um simples toque. Ele iria ser a alteração de todo o futuro estúpido e ingenuamente criado por ela para ela mesma. Leonor pensava estar certa acerca do seu destino. Mas ele apareceu. E o destino encaminhou-se.
A voz dela paralisou-a por segundos. 
- Desculpa, mas a isso referes-te a exactamente o quê?
- Eu conheço esse frasco. Eu conheço o poder desse frasco.
- Ouve-me. Tu não viste absolutamente nada. Isto apenas a mim me diz respeito. Chama-se tomar uma decisão.
Ele surpreendeu-a pelo silêncio. Ele conseguia suportar o silêncio, mesmo fora daquelas paredes. Para quem lê isto pode achar que nada está no silêncio, que é apenas o vazio e o tédio, mas eles graças à sua formação tinham uma visão completamente diferente. Até uns dos outros. Para Leonor o silêncio tornava-se angustiante. Para Henrique tinha-se tornado o código para tudo. O código que dizia tudo. O silêncio...era o código que dizia tudo. 
Visto não ter obtido qualquer tipo de resposta, tentou inventar algo para dizer, mas quando lhe olhou directamente nos olhos não queria falar mais. Porque ela ouviu, mais uma vez, o que ele tinha para lhe dizer. Uma das regras do silêncio e da comunicação é que quanto mais silêncio existe durante um olhar, mais poder há no coração de quem está a falar. 
- Não o faças. Não o faças, simplesmente.
Leonor olhou para trás, viu-os aos dois e voltou para dentro. Quando chegou ao quarto pousou o frasco sobre a mesa de cabeceira. Quando o pousou lembrou-se de uma conversa de semanas com Margarida em que esta se desculpava pelo facto de se ter apaixonado perdidamente por Rodrigo. Que Rodrigo era a única felicidade que restava no colégio. Que sem ele, tudo perderia o sentido. Leonor queria perdoa-la mas era mais complicado do que calculava de início. Ele parecia tê-la esquecido rápido demais, mas Leonor fingiu conseguir lidar com isso e ainda mais com a traição de uma amiga sua. Amiga. Olhou para o frasco uma última vez, desta vez com lágrimas nos olhos, não conseguindo perceber muito bem a razão pela qual estava a desistir do envenenamento. Não queria acreditar ser por amor. Por amor ao Rodrigo e muito menos por amor a Margarida. Mas sentia que era. A felicidade deles mesmo trazendo-lhe o maior desgosto do mundo dava-lhe um sentido ridículo de protecção de ambos. 
Quando desceu novamente para o Jardim, sem que ninguém a visse, percebeu que nada estava como tinha deixado à minutos atrás. Margarida estava devastada interiormente dirigindo-se para o quarto dela, prestes a derramar um rio. 
Sem ter outra hipótese foi ter com Henrique novamente:
- Que se passou?
- Parece que ele não a ama tanto assim.
Era suposto Leonor sentir-se feliz, mas não. 
Nessa noite dormiu cerca de uma hora. As outras restantes foram para tentar perceber o que se tinha passado no interior da cabeça de Rodrigo. 
Sentirá ele ainda algo por mim?
Sentiria? 
Ao almoço Leonor não parou de fixar o olhar em Margarida. Sem dúvida alguma Rodrigo era o equivalente à sua própria vida, pois a diferença nela de um dia para o outro era abismal. Ela estava agora triste, mergulhada numa tristeza preocupante. Aquela tristeza sem expressão. Leonor começou a sentir um ligeiro tremor nas mãos, algo parecido com frio. Levantou-se mas desta vez com a promessa feita a si mesma de que não se iria sentar novamente. Sem sucesso Beatriz chama-a. 
- Leonor!
A Directora via-a do corredor ao pé da grande entrada. Não fez rigorosamente nada, apenas alertar as empregadas para não fazerem nada igualmente. 
- Margarida.
O silêncio pousou em todas as mesas. A cabeça dela mexeu apenas o suficiente para que a pudesse ver. 
- Margarida, lamento.
Aqui está a mostrar a culpa. Sem ter culpa, assume-a como dela. O olhar vazio de Margarida transforma-se em tristeza novamente. Profunda. 
- Não tens culpa. Mas...nada mais me resta.
Leonor respira fundo e volta para o seu lugar, ainda mais confusa. 
No intervalo da tarde, Leonor dá pela  sua falta e decide subir as escadas e procurá-la. O seu coração começa a bater a uma velocidade que não é a normal. Algo estava a acontecer. Algo estava a acontecer, algo profundo. Depois de procurar por todos os corredores decide entrar no seu quarto. Chocada como nunca antes tinha estado na vida, ao abrir a porta encontra Margarida no chão, morta. Leonor não pestanejou sequer. O quarto estava virado do avesso, possivelmente porque o corpo antes vivo pensou que Rodrigo ainda nutria sentimentos por Leonor. Tudo estava vasculhado. E na cabeceira? O frasco aberto. 
Pelas escadas abaixo corria à procura da Directora. Quando a encontrou esta subiu imediatamente ao seu quarto. Ao entrar, sorriu. O sorriso da Directora foi precisamente a lágrima de Leonor. A tragédia era notória, mas só para elas. Mais ninguém viria a ter conhecimento. A Directora aproxima-se do cadáver, olha-o de alto a baixo, finge lamentar a sua morte e guarda o frasco dentro do bolso do casaco. 
- Nem uma palavra, Leonor. Acidentalmente ela caiu e faleceu. Pobre Margarida.
O frasco tinha voltado então de onde veio. Detrás da porta encontrava-se Henrique, que ouviu toda a conversa. Não pedaços, mas sim toda a conversa. Todos os diálogos. E caso não tivessem existido diálogos as imagens acabariam por falar por si. 
- E a si digo o mesmo menino Henrique. A si novamente. Nem uma palavra.
A Directora saiu do corredor, desceu as escadas e chamou as empregadas. Enquanto isso Leonor olha para Henrique e diz tudo o que queria e sente tudo o que não queria. Henrique olha uma última vez para o corpo caído percebendo que há um ano atrás podia muito bem ter estado no lugar de Leonor. Quando olhou para ela novamente, esta percebeu. Percebeu que o silêncio preenche. O silêncio preenche a alma e diz o que inevitavelmente não queremos dizer. Ou bem, o que não podemos. E...o silêncio...era o código que dizia tudo. Henrique amava-a. Henrique amava Leonor. Ela nunca soube, nunca o tinha visto até à dois dias atrás. Mas ela agora sabia. 
Henrique esticou a sua mão e ela passados quatro segundos toca-lhe. Aquele toque que muda uma vida. Aquele toque que transforma todo o corpo em amor. Ele tocou-lhe. De uma forma que ela nunca imaginaria ser possível num ser humano, só ainda não se tinha apercebido do quão importante e necessário foi um simples toque. Ele iria ser a alteração de todo o futuro estúpido e ingenuamente criado por ela para ela mesma. Leonor pensava estar certa acerca do seu destino. Mas ele apareceu. E o destino encaminhou-se. 
Terá valido a pena? 


Silêncio.
Pedro Rei

quinta-feira, 15 de março de 2012

E o Universo parou para os ver.



- Não me digas que é amor.

- Mas é a verdade.

- O amor, aqui, não é verdade.



Lá estava ela. Presa. Presa a algo que não existia. Presa à ilusão. Ela própria conseguia sentir as raízes a prenderem-lhe o coração e todo o corpo. Ela não se conseguia mover. Sim, mais uma vez ela não se conseguia movimentar.



- Tu amas-me?



Aqui. Neste momento. O medo incorporado na pergunta. O medo incorporado na resposta.



- Eu nunca amei da forma que sempre imaginei. E não te posso amar a ti.

- Dá-me uma razão.

- Porque eu amo-te.



A verdade despida. A mentira desvanecida. Toda a verdade saiu finalmente. As lágrimas eram o pequeno sinal. A explosão. Ela fechava-se de tal forma que a sua própria explosão era incompreensível. Mas era compreensível ela não o amar.

Ela ainda era o passado. E nada está certo quando queremos o passado e o futuro em vez de querermos o próprio presente. Ninguém pode ser feliz. Nem eu. Nem ela. Nem ele. Nem tu.

Ela diz que nunca amou, mas ela ama. E é isso que a impede de amar mais.

O sorriso formou-se no rosto dela. Era mais um sinal. E ele compreendia-os a todos.



- Diz.

- O quê, exactamente?

- O que tu própria queres ouvir.

- O problema é que eu não me quero ouvir dizer que te amo.

- Então tu…amas-me?



A mão dela começou a tremer ligeiramente em conjunto com as duas pernas. Ela caiu sem sequer ter tentado manter-se de pé.

Ele perdeu-lhe o olhar por segundos. Pegou-lhe nas mãos e perguntou:



-Querida, sou eu. Não vês? Sou eu.



Os olhos dela agora eram pequenos cristais a brilhar em direcção ao olhar dele. Foi dos sentimentos mais fortes que ambos puderam viver. Como se todo o Universo tivesse parado para os ver. Como se o tempo tivesse parado para lhes dar o momento porque tanto tinham esperado. Por aqueles segundos de amor e perfeição. Pelo sentido da vida. Pelo resultado final.

Ela abraçou-o. Parecia que nem o oxigénio era mais preciso. A mão finalmente parou de tremer e a sua boca abriu ligeiramente e tocou nos lábios dele.



- Por favor, não me mates.

- Por favor, querida, não te mates. 

Pedro Rei

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

E aquele sorriso surgiu.



- Olha-me nos olhos, agora, e ouve. 

O pior presente são as promessas. Mal estamos a desfazer o nó e já temos uma leve sensação de que é apenas uma alegria com pouco tempo de vida. Ao desfazermos o nó assistimos também ao desfazer do que é uma promessa: lenta, suave e perceptível. 

- Eu prometo amar-te para sempre. Eu fico contigo. Eu nunca te vou magoar. 
Ela sorri, chorando por dentro. 
- O que foi? 
As palavras não surgiam. A própria voz estava cansada de acreditar naquela repetição. Porque todas as minhas células sabiam a verdade. E a verdade magoa. E a mentira também. Mas era impossível não esboçar um sorriso depois de tudo. Depois daquilo, e ainda daquilo. Lembras-te? Como fomos tolos ao pensar que seriamos nós a mudar o destino. Os meus olhos e o meu sorriso gritavam tudo aquilo que não podia ser dito. Não por cobardia ou por receio, simplesmente pelo facto de que eram palavras repetidas. E para além de palavras repetidas eram palavras gastas. Palavras que nunca nos iam levar a lado nenhum. Quantas vezes já tivemos aquela sensação de conforto, amor e segurança? E quantas vezes já nos tiraram isso? Algumas das vezes somos nós mesmos que o fazemos. Sem uma explicação exacta, sem um porquê concreto. 
- Não foi nada. - respondeu-lhe ela.
Na verdade...foi tudo. Na verdade pareces não me conhecer, e magoaste-me de uma maneira que mais ninguém o sabia fazer, porque estupidamente te levei a espaços no meu interior onde mais ninguém tinha estado. Ninguém lhe tinha visto a luz sequer. Mais ninguém sabia, aliás, que esse espaço existia. Em parte foi graças a ti que esse espaço cresceu, e se expandiu, mas foi também graças a ti que parte dele ficou em ruínas. Porque tu eras o único capaz e com armas suficientes para o fazer. E nunca acreditei que fosses capaz de o fazer. Sempre te defendi. Mas estou arrependida de o ter feito, tanta vez. - Isto sim, era o que ela queria dizer. Isto sim é o que ela sente. Esta é a verdade. Completamente...nua. Não muito feliz, mas nua. Facto, a mentira é parente da verdade. 
- Confia em mim. 
Como podia ela fazê-lo? Ele próprio, o tal que fez tudo aquilo que prometeu não fazer. Como confiar outra vez em alguém quando...perdão, repetindo: como voltar a confiar na pessoa que amam quando foi ela mesma que vos mostrou a definição de desabamento? 
Ele não te ama, ouvia eu. De todos os lados. E o mais engraçado é que até ele transpirava isso mesmo: o fim. Não posso dizer que o odeio, porque não odeio. Mas não sei como se designa este sentimento. Não sei qual a exacta palavra para isto. Secalhar a palavra correcta é o próprio fim. 
Ele abraçou-a. Percebeu então que a estava a perder. E ele nunca, nunca tinha saboreado o que era perdê-la. Não a ela. 
A voz queria ser útil. As palavras estavam a formar-se: 
- Está tudo bem. 
Eu queria dizer tanto mais. Eu não estava furiosa por não termos conseguido vencer a última batalha. Estava furiosa pelo meu próprio sofrimento. Eu queria ser fria, desumana e cruel mas não eram essas palavras que me definiam. Queria dizer-lhe como o odiava. Mas seria mentira. Já não havia nada para ser odiado. 
- Olha-me nos olhos, agora, e ouve. 
Ela levantou os olhos. 
Eu levantei os olhos, sem qualquer expectativa. Eu não o deixei dizer mais nada. Ele um dia iria acabar por perceber tudo. Ele um dia acabaria por perceber a razão pela qual a palavra fim começou a fazer significado em mim. Naquilo que costumava ser o nós. Porque o pior presente são as promessas. 
Oh Deus, percebi agora mesmo que o pior não são as promessas! O pior são as pessoas que as fazem! E ela tem de o perceber...
Ela saiu da enorme sala e dirigiu-se ao bar. Sentou-se e permaneceu imóvel.
Porque o pior... - continuava ela a pensar. 
Porque o pior é a pessoa que promete. 
O senhor do bar sorriu ao ver as lágrimas da rapariga. Aproximou-se dela, posou o pano e agarrou-lhe na cara: 
- Esperámos anos e anos para que o percebesse. Todos lhe demos a resposta, mas não ouvia. A culpa não é sua. Olha-me nos olhos, agora, e ouve. 
E ela ouviu. E ela confiou.
- Tu mereces que te façam feliz. Tu mereces sorrir. Aquele sorrir maravilhoso que te faz sonhar e que te preenche. Olha à tua volta e vê quem te quer bem. Ainda somos alguns. 
A rapariga chorava. A alma purificava. 
- E não queremos que chore. 
E a alegria na rapariga começava agora a surgir: lenta, suave e perceptível. 
Perdoem-me por não ter percebido mais cedo. Eu só queria ser feliz. Com ele. Agradeço-vos  por continuarem a insistir e não desistirem de mim. 
- Obrigado - disse-lhe ela.
- Nós nunca desistiremos de si. 

O coração dela parou por segundos. Ela olhou para o senhor. Ele sorriu-lhe e ainda mantendo o contacto visual disse-lhe: 

- Prometemos. 


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A vida voltou àquela sala



Ela pegou na arma e disparou. Ela matou-o. Na verdade, matou algo que já estava morto há algum tempo. 

Quando voltou a pousar a arma na mesa junto ao sofá, acordou. 
As pessoas à volta dela estavam congeladas. Ela era a única que se conseguia movimentar. Ela era a única que ainda o conseguia ver sangrar no chão. Quando se aproximou dele tudo continuou. A vida voltou àquela sala. Os convidados voltaram à normalidade. Tudo se tinha voltado a mexer. Os dois amigos ao seu lado, curiosamente, tinham assistido a tudo, embora estivessem também eles congelados poucos segundos antes. 
Um deles agarrou-lhe na mão e sorriu. 
Ela não o matou. Na verdade, não se pode matar algo que já está morto há algum tempo. Por vezes, e agora falo por mim, temos a mania mais ridícula de insistir para que algo que já passou permaneça connosco por mais algum tempo. Tal como puxar o passado para um local que lhe é estranho. Porque o passado não sabe lidar com o presente. Nem o presente com o passado. E muito menos o passado com o futuro. 
Quem nunca pediu emprestado um momento do passado? Nem que sejam por uns segundos. Respondam que não e estarão a mentir-me a mim e a vocês próprios. 
O problema é que às vezes não são meros segundos. O problema é que às vezes não são meros minutos. O problema é que às vezes vivemos um presente passado. O tempo move-se como nós não nos movemos. A uma velocidade que nós agora não conseguimos entender e assumir. Mas assumiremos, daqui a um tempo. Sejam eles dois segundos, minutos, horas, dias, meses ou anos. Mas assumiremos que o tempo passou, e que...passou. 
Ela matou-o quando ele já o tinha feito há cerca de um mês. Ela quis continuar a vivê-lo. E pensou que sim, que as circunstâncias e o tempo continuavam os mesmos. Mas não. Quando um dos amigos lhe agarrou na mão foi como se lhe tivesse dito algo semelhante a isto: 

-Bem-vinda de volta. Estás livre, por agora.  

Ela naquele momento teve a percepção. Ela naquele exacto momento percebeu tudo. Que a actualidade é o que mais importa. 
Com isto não estou a dizer que devemos evitar o passado, não, muito pelo contrário. Mas tudo o que somos desaparecerá. E tudo que formos, aparecerá. O passado vai-nos construindo. O passado é uma ilusão, assim como o futuro. Neste momento estão a ler isto, mas daqui a uns dias isto poderá não ser muito. 
Ela agarrava-se aos momentos que já tinham passado. Era como se estivesse pendurada confortavelmente nas mãos da memória. E sem se aperceber, não conseguiu largar. Até que um mês depois sentiu a memória esfriar e aí sentiu o tempo a passar. Aí sentiu o presente. E largou. Pegou na arma e matou-o. 
Depois daquele amigo lhe ter agarrado na mão ela olhou em frente e foi ter junto do corpo caído. Ajoelhou-se junto dele, aproximou-se ainda mais e ouviu-o a respirar, como se estivesse a dormir profundamente. Ela olhou para o peito dele e não existia mais sangue. Nem sangue nem ferida. Nem ódio ou tristeza. Foi aí que ela o perdoou, sorrindo. Levantou-se e caminhou para o que realmente importava. 
Os dois amigos tocaram-lhe no ombro e puxaram-na para juntos deles, abraçando-a. 
O passado estará sempre dentro de nós, lembre-mo-nos ou não. Não é por não lembrá-lo mais que lhe mostramos um maior respeito ou dignidade. Porque ele constrói-nos. Eu sei que me repito, agora. Mas nada disto importa. 
Preparem-se para o presente. Algumas coisas têm de terminar para que algo fresco e sem sofrimento nos possa bater à porta.  
Peguem na arma. Sem ódio.
Porque temos de nos lembrar, sempre, que por vezes podemos matar coisas que na verdade já estavam mortas há algum tempo. Lembrar sem reviver às vezes é o melhor. O que está ao pé de nós agora é o que importa. É só reparar e dar valor. Porque um dia vão olhar e dar valor, ao que agora vos pode parecer o pior. 
Porque tudo o que somos desaparecerá. E tudo o que formos, aparecerá. 


E bem-vindo de volta. Estás livre, por agora.