quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A vida voltou àquela sala



Ela pegou na arma e disparou. Ela matou-o. Na verdade, matou algo que já estava morto há algum tempo. 

Quando voltou a pousar a arma na mesa junto ao sofá, acordou. 
As pessoas à volta dela estavam congeladas. Ela era a única que se conseguia movimentar. Ela era a única que ainda o conseguia ver sangrar no chão. Quando se aproximou dele tudo continuou. A vida voltou àquela sala. Os convidados voltaram à normalidade. Tudo se tinha voltado a mexer. Os dois amigos ao seu lado, curiosamente, tinham assistido a tudo, embora estivessem também eles congelados poucos segundos antes. 
Um deles agarrou-lhe na mão e sorriu. 
Ela não o matou. Na verdade, não se pode matar algo que já está morto há algum tempo. Por vezes, e agora falo por mim, temos a mania mais ridícula de insistir para que algo que já passou permaneça connosco por mais algum tempo. Tal como puxar o passado para um local que lhe é estranho. Porque o passado não sabe lidar com o presente. Nem o presente com o passado. E muito menos o passado com o futuro. 
Quem nunca pediu emprestado um momento do passado? Nem que sejam por uns segundos. Respondam que não e estarão a mentir-me a mim e a vocês próprios. 
O problema é que às vezes não são meros segundos. O problema é que às vezes não são meros minutos. O problema é que às vezes vivemos um presente passado. O tempo move-se como nós não nos movemos. A uma velocidade que nós agora não conseguimos entender e assumir. Mas assumiremos, daqui a um tempo. Sejam eles dois segundos, minutos, horas, dias, meses ou anos. Mas assumiremos que o tempo passou, e que...passou. 
Ela matou-o quando ele já o tinha feito há cerca de um mês. Ela quis continuar a vivê-lo. E pensou que sim, que as circunstâncias e o tempo continuavam os mesmos. Mas não. Quando um dos amigos lhe agarrou na mão foi como se lhe tivesse dito algo semelhante a isto: 

-Bem-vinda de volta. Estás livre, por agora.  

Ela naquele momento teve a percepção. Ela naquele exacto momento percebeu tudo. Que a actualidade é o que mais importa. 
Com isto não estou a dizer que devemos evitar o passado, não, muito pelo contrário. Mas tudo o que somos desaparecerá. E tudo que formos, aparecerá. O passado vai-nos construindo. O passado é uma ilusão, assim como o futuro. Neste momento estão a ler isto, mas daqui a uns dias isto poderá não ser muito. 
Ela agarrava-se aos momentos que já tinham passado. Era como se estivesse pendurada confortavelmente nas mãos da memória. E sem se aperceber, não conseguiu largar. Até que um mês depois sentiu a memória esfriar e aí sentiu o tempo a passar. Aí sentiu o presente. E largou. Pegou na arma e matou-o. 
Depois daquele amigo lhe ter agarrado na mão ela olhou em frente e foi ter junto do corpo caído. Ajoelhou-se junto dele, aproximou-se ainda mais e ouviu-o a respirar, como se estivesse a dormir profundamente. Ela olhou para o peito dele e não existia mais sangue. Nem sangue nem ferida. Nem ódio ou tristeza. Foi aí que ela o perdoou, sorrindo. Levantou-se e caminhou para o que realmente importava. 
Os dois amigos tocaram-lhe no ombro e puxaram-na para juntos deles, abraçando-a. 
O passado estará sempre dentro de nós, lembre-mo-nos ou não. Não é por não lembrá-lo mais que lhe mostramos um maior respeito ou dignidade. Porque ele constrói-nos. Eu sei que me repito, agora. Mas nada disto importa. 
Preparem-se para o presente. Algumas coisas têm de terminar para que algo fresco e sem sofrimento nos possa bater à porta.  
Peguem na arma. Sem ódio.
Porque temos de nos lembrar, sempre, que por vezes podemos matar coisas que na verdade já estavam mortas há algum tempo. Lembrar sem reviver às vezes é o melhor. O que está ao pé de nós agora é o que importa. É só reparar e dar valor. Porque um dia vão olhar e dar valor, ao que agora vos pode parecer o pior. 
Porque tudo o que somos desaparecerá. E tudo o que formos, aparecerá. 


E bem-vindo de volta. Estás livre, por agora.


2 comentários:

  1. loved it. tive de ler 2 vezes porque realmente as tuas palavras agarram de uma forma intensa. ;) bom texto!!!

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  2. Era bom, que por vezes, pudéssemos "disparar" sobre o passado, esconder qualquer evidência e seguir, livre, era. Era bom!

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