sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

E aquele sorriso surgiu.



- Olha-me nos olhos, agora, e ouve. 

O pior presente são as promessas. Mal estamos a desfazer o nó e já temos uma leve sensação de que é apenas uma alegria com pouco tempo de vida. Ao desfazermos o nó assistimos também ao desfazer do que é uma promessa: lenta, suave e perceptível. 

- Eu prometo amar-te para sempre. Eu fico contigo. Eu nunca te vou magoar. 
Ela sorri, chorando por dentro. 
- O que foi? 
As palavras não surgiam. A própria voz estava cansada de acreditar naquela repetição. Porque todas as minhas células sabiam a verdade. E a verdade magoa. E a mentira também. Mas era impossível não esboçar um sorriso depois de tudo. Depois daquilo, e ainda daquilo. Lembras-te? Como fomos tolos ao pensar que seriamos nós a mudar o destino. Os meus olhos e o meu sorriso gritavam tudo aquilo que não podia ser dito. Não por cobardia ou por receio, simplesmente pelo facto de que eram palavras repetidas. E para além de palavras repetidas eram palavras gastas. Palavras que nunca nos iam levar a lado nenhum. Quantas vezes já tivemos aquela sensação de conforto, amor e segurança? E quantas vezes já nos tiraram isso? Algumas das vezes somos nós mesmos que o fazemos. Sem uma explicação exacta, sem um porquê concreto. 
- Não foi nada. - respondeu-lhe ela.
Na verdade...foi tudo. Na verdade pareces não me conhecer, e magoaste-me de uma maneira que mais ninguém o sabia fazer, porque estupidamente te levei a espaços no meu interior onde mais ninguém tinha estado. Ninguém lhe tinha visto a luz sequer. Mais ninguém sabia, aliás, que esse espaço existia. Em parte foi graças a ti que esse espaço cresceu, e se expandiu, mas foi também graças a ti que parte dele ficou em ruínas. Porque tu eras o único capaz e com armas suficientes para o fazer. E nunca acreditei que fosses capaz de o fazer. Sempre te defendi. Mas estou arrependida de o ter feito, tanta vez. - Isto sim, era o que ela queria dizer. Isto sim é o que ela sente. Esta é a verdade. Completamente...nua. Não muito feliz, mas nua. Facto, a mentira é parente da verdade. 
- Confia em mim. 
Como podia ela fazê-lo? Ele próprio, o tal que fez tudo aquilo que prometeu não fazer. Como confiar outra vez em alguém quando...perdão, repetindo: como voltar a confiar na pessoa que amam quando foi ela mesma que vos mostrou a definição de desabamento? 
Ele não te ama, ouvia eu. De todos os lados. E o mais engraçado é que até ele transpirava isso mesmo: o fim. Não posso dizer que o odeio, porque não odeio. Mas não sei como se designa este sentimento. Não sei qual a exacta palavra para isto. Secalhar a palavra correcta é o próprio fim. 
Ele abraçou-a. Percebeu então que a estava a perder. E ele nunca, nunca tinha saboreado o que era perdê-la. Não a ela. 
A voz queria ser útil. As palavras estavam a formar-se: 
- Está tudo bem. 
Eu queria dizer tanto mais. Eu não estava furiosa por não termos conseguido vencer a última batalha. Estava furiosa pelo meu próprio sofrimento. Eu queria ser fria, desumana e cruel mas não eram essas palavras que me definiam. Queria dizer-lhe como o odiava. Mas seria mentira. Já não havia nada para ser odiado. 
- Olha-me nos olhos, agora, e ouve. 
Ela levantou os olhos. 
Eu levantei os olhos, sem qualquer expectativa. Eu não o deixei dizer mais nada. Ele um dia iria acabar por perceber tudo. Ele um dia acabaria por perceber a razão pela qual a palavra fim começou a fazer significado em mim. Naquilo que costumava ser o nós. Porque o pior presente são as promessas. 
Oh Deus, percebi agora mesmo que o pior não são as promessas! O pior são as pessoas que as fazem! E ela tem de o perceber...
Ela saiu da enorme sala e dirigiu-se ao bar. Sentou-se e permaneceu imóvel.
Porque o pior... - continuava ela a pensar. 
Porque o pior é a pessoa que promete. 
O senhor do bar sorriu ao ver as lágrimas da rapariga. Aproximou-se dela, posou o pano e agarrou-lhe na cara: 
- Esperámos anos e anos para que o percebesse. Todos lhe demos a resposta, mas não ouvia. A culpa não é sua. Olha-me nos olhos, agora, e ouve. 
E ela ouviu. E ela confiou.
- Tu mereces que te façam feliz. Tu mereces sorrir. Aquele sorrir maravilhoso que te faz sonhar e que te preenche. Olha à tua volta e vê quem te quer bem. Ainda somos alguns. 
A rapariga chorava. A alma purificava. 
- E não queremos que chore. 
E a alegria na rapariga começava agora a surgir: lenta, suave e perceptível. 
Perdoem-me por não ter percebido mais cedo. Eu só queria ser feliz. Com ele. Agradeço-vos  por continuarem a insistir e não desistirem de mim. 
- Obrigado - disse-lhe ela.
- Nós nunca desistiremos de si. 

O coração dela parou por segundos. Ela olhou para o senhor. Ele sorriu-lhe e ainda mantendo o contacto visual disse-lhe: 

- Prometemos. 


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