quinta-feira, 19 de abril de 2012

Quem tem o veneno a correr-lhe no sangue?



O relógio quebrou o silêncio do quarto. 
O relógio batia as 7 horas da manhã. 
Ela levantou-se da cama vestiu o robe e saiu. Não se ouvia nem um som no corredor. Nem dentro dos outros quartos. Caminhou então para a direita e entrou na casa de banho. O silêncio persistia em segui-la. Tomou um banho rápido e voltou para o quarto. Antes de abrir a porta percebeu que começava agora a haver movimento nos outros quartos. Pôs uma das mãos na porta enquanto a outra segurava na toalha, fez força e...
- Bom dia, Leonor. 
Cada palavra era medida pela Directora. E utilizando a palavra errada o preço a pagar era incalculável. 
- Bom dia, senhora Directora. 
O seu sorriso gelado fez arrepiar Leonor. 
- Está tudo pronto? 
- Penso que sim.
Ela entrou no quarto, fechou a porta e preparou-se para vestir. Aquele não era um dia qualquer. 
Passada meia hora as empregadas de cada piso tocavam já o sino para a hora do pequeno-almoço. Ela saiu do quarto e pôs-se na fila. A saia vermelha e as suas meias longas com os sapatos a condizer não eram diferentes  das das outras raparigas na fila. O seu cabelo encontrava-se perfeitamente enrolado. 
Desceram as escadas ordenadamente e entraram no grande salão. A primeira pessoa que Leonor procurou? A Margarida. Por estranho que pareça ainda não tinha entrado no salão. Enquanto se sentava continuava à procura. 
- Beatriz, tens alguma ideia de onde a Margarida possa estar? 
Acabada a frase, ela aparece.
- Vês ali na segunda porta à direita? 
- Sim, obrigada. Bom apetite, Beatriz. 
O olhar de agradecimento. 
Leonor pôs a mão no bolso e sentiu o pequeno frasco abanar. Era bom sinal. Para ela, é claro. 
- Atenção, meninas. 
A Directora. 
Será ela feliz a comandar este inferno? 
- O pequeno-almoço entrará dentro de minutos, espero que façam bom proveito e espero de igual modo que não se atrasem para a 18ª aula de "Boas Maneiras em Todo o Lado". Até então. Bom apetite. 
O coro. A sintonia de todas elas. O ódio à Directora em três pequenas palavras:
- Obrigada, Senhora Directora.
O silêncio voltou a falar. 
As empregadas, desta vez em maior número, entraram pelo salão dentro, distribuindo os tabuleiros. Eram sempre os mesmos revestidos a prata, com um copo, uma taça com sopa, um prato com a comida na quantia necessária e outra taça com fruta diversificada. Ah, e é claro o guardanapo de pano respectivo a cada uma delas. 
Desta vez, Leonor apenas olhava em seu redor. O apetite era quase nulo. Ela olhava em volta e pensava como era possível tanta perfeição a fazer sentir tão imensamente imperfeita
De repente, voltou a focar-se no que interessava naquele dia. Nela. Na Margarida. Ela já a conseguia imaginar a tossir compulsivamente, deitada no chão, sem mesmo conseguir pedir socorro. Obviamente a imagem que Leonor passava era a que lhe tinham ensinado. Sempre foi excelente aluna, dedicada e gentil. Só não gostava muito de regras. Principalmente a do tempo e a do espaço, visto que não podiam entrar na zona masculina. Leonor era a actriz perfeita. Na verdade foi o que sempre desejou ser, mas mudou de ideias recentemente, pensa ela. 
Abriu a boca e projectou a voz para a pequena mesa onde estava inserida. Ela e mais onze raparigas.
- Volto já, com licença.
- Leonor, onde vais? Não é permitido sair da mesa antes do sino tocar. Por favor, senta-te.
Praticamente todos os olhares estavam nela. Por qualquer razão ela voltou a sentar-se. Todos olharam incluindo Margarida. Enquanto uma sorria verdadeiramente, a outra sorria matando-a. 
Depois do almoço e da 18ª aula de "Boas Maneiras em Todo o Lado" era hora de ir apanhar ar fresco ao Jardim das Flores. Era aí que a mistura entre sexos era dada. Fora as horas de pausa do plano diário imposto pela Directora as raparigas não tinham mais tempo para estar com os rapazes.
Quer isto dizer que Leonor apenas tinha este tempo para estar com o Rodrigo. 
Quer isto dizer que Margarida apenas tinha este tempo para estar com o Rodrigo.
E, sem Leonor saber, era este o único tempo dado a Henrique para ver, apenas ver, Leonor. 
As empregadas abriram então as enormes portas que as levariam a apreciar a liberdade prisional imposta pela Directora.
Assim que Leonor pôs o pé no segundo degrau começou então a procurar Margarida. Primeiro ela. Depois ele. 
Ela estava junto da fonte à espera de Rodrigo. 
Quão romântico!
Quando os rapazes se começaram a misturar com as raparigas o olhar de Leonor apenas captou um, um só rapaz. Rodrigo caminhava então em direcção à fonte. Em direcção a Margarida, que na perspectiva de Leonor era o mesmo que dizer, em direcção à...
Traidora!
Desceu os degraus que faltavam e pôs a mão no bolso para se certificar que o frasco lá permanecia. Tirou-o do bolso, olhou para ele e voltou a colocá-lo no mesmo lugar. Ela aumentava agora a velocidade em direcção a ela. Num destes passos velozes foi interrompida. Sentiu um toque que não lhe era familiar. Era novo. Era alguém que nunca lhe tinha tocado antes. 
- Não faças isso.
Surpreendentemente, naquele dia ele não a viu apenas. Ele tocou-lhe. De uma forma que ela nunca imaginaria ser possível num ser humano, só ainda não se tinha apercebido do quão importante e necessário foi um simples toque. Ele iria ser a alteração de todo o futuro estúpido e ingenuamente criado por ela para ela mesma. Leonor pensava estar certa acerca do seu destino. Mas ele apareceu. E o destino encaminhou-se.
A voz dela paralisou-a por segundos. 
- Desculpa, mas a isso referes-te a exactamente o quê?
- Eu conheço esse frasco. Eu conheço o poder desse frasco.
- Ouve-me. Tu não viste absolutamente nada. Isto apenas a mim me diz respeito. Chama-se tomar uma decisão.
Ele surpreendeu-a pelo silêncio. Ele conseguia suportar o silêncio, mesmo fora daquelas paredes. Para quem lê isto pode achar que nada está no silêncio, que é apenas o vazio e o tédio, mas eles graças à sua formação tinham uma visão completamente diferente. Até uns dos outros. Para Leonor o silêncio tornava-se angustiante. Para Henrique tinha-se tornado o código para tudo. O código que dizia tudo. O silêncio...era o código que dizia tudo. 
Visto não ter obtido qualquer tipo de resposta, tentou inventar algo para dizer, mas quando lhe olhou directamente nos olhos não queria falar mais. Porque ela ouviu, mais uma vez, o que ele tinha para lhe dizer. Uma das regras do silêncio e da comunicação é que quanto mais silêncio existe durante um olhar, mais poder há no coração de quem está a falar. 
- Não o faças. Não o faças, simplesmente.
Leonor olhou para trás, viu-os aos dois e voltou para dentro. Quando chegou ao quarto pousou o frasco sobre a mesa de cabeceira. Quando o pousou lembrou-se de uma conversa de semanas com Margarida em que esta se desculpava pelo facto de se ter apaixonado perdidamente por Rodrigo. Que Rodrigo era a única felicidade que restava no colégio. Que sem ele, tudo perderia o sentido. Leonor queria perdoa-la mas era mais complicado do que calculava de início. Ele parecia tê-la esquecido rápido demais, mas Leonor fingiu conseguir lidar com isso e ainda mais com a traição de uma amiga sua. Amiga. Olhou para o frasco uma última vez, desta vez com lágrimas nos olhos, não conseguindo perceber muito bem a razão pela qual estava a desistir do envenenamento. Não queria acreditar ser por amor. Por amor ao Rodrigo e muito menos por amor a Margarida. Mas sentia que era. A felicidade deles mesmo trazendo-lhe o maior desgosto do mundo dava-lhe um sentido ridículo de protecção de ambos. 
Quando desceu novamente para o Jardim, sem que ninguém a visse, percebeu que nada estava como tinha deixado à minutos atrás. Margarida estava devastada interiormente dirigindo-se para o quarto dela, prestes a derramar um rio. 
Sem ter outra hipótese foi ter com Henrique novamente:
- Que se passou?
- Parece que ele não a ama tanto assim.
Era suposto Leonor sentir-se feliz, mas não. 
Nessa noite dormiu cerca de uma hora. As outras restantes foram para tentar perceber o que se tinha passado no interior da cabeça de Rodrigo. 
Sentirá ele ainda algo por mim?
Sentiria? 
Ao almoço Leonor não parou de fixar o olhar em Margarida. Sem dúvida alguma Rodrigo era o equivalente à sua própria vida, pois a diferença nela de um dia para o outro era abismal. Ela estava agora triste, mergulhada numa tristeza preocupante. Aquela tristeza sem expressão. Leonor começou a sentir um ligeiro tremor nas mãos, algo parecido com frio. Levantou-se mas desta vez com a promessa feita a si mesma de que não se iria sentar novamente. Sem sucesso Beatriz chama-a. 
- Leonor!
A Directora via-a do corredor ao pé da grande entrada. Não fez rigorosamente nada, apenas alertar as empregadas para não fazerem nada igualmente. 
- Margarida.
O silêncio pousou em todas as mesas. A cabeça dela mexeu apenas o suficiente para que a pudesse ver. 
- Margarida, lamento.
Aqui está a mostrar a culpa. Sem ter culpa, assume-a como dela. O olhar vazio de Margarida transforma-se em tristeza novamente. Profunda. 
- Não tens culpa. Mas...nada mais me resta.
Leonor respira fundo e volta para o seu lugar, ainda mais confusa. 
No intervalo da tarde, Leonor dá pela  sua falta e decide subir as escadas e procurá-la. O seu coração começa a bater a uma velocidade que não é a normal. Algo estava a acontecer. Algo estava a acontecer, algo profundo. Depois de procurar por todos os corredores decide entrar no seu quarto. Chocada como nunca antes tinha estado na vida, ao abrir a porta encontra Margarida no chão, morta. Leonor não pestanejou sequer. O quarto estava virado do avesso, possivelmente porque o corpo antes vivo pensou que Rodrigo ainda nutria sentimentos por Leonor. Tudo estava vasculhado. E na cabeceira? O frasco aberto. 
Pelas escadas abaixo corria à procura da Directora. Quando a encontrou esta subiu imediatamente ao seu quarto. Ao entrar, sorriu. O sorriso da Directora foi precisamente a lágrima de Leonor. A tragédia era notória, mas só para elas. Mais ninguém viria a ter conhecimento. A Directora aproxima-se do cadáver, olha-o de alto a baixo, finge lamentar a sua morte e guarda o frasco dentro do bolso do casaco. 
- Nem uma palavra, Leonor. Acidentalmente ela caiu e faleceu. Pobre Margarida.
O frasco tinha voltado então de onde veio. Detrás da porta encontrava-se Henrique, que ouviu toda a conversa. Não pedaços, mas sim toda a conversa. Todos os diálogos. E caso não tivessem existido diálogos as imagens acabariam por falar por si. 
- E a si digo o mesmo menino Henrique. A si novamente. Nem uma palavra.
A Directora saiu do corredor, desceu as escadas e chamou as empregadas. Enquanto isso Leonor olha para Henrique e diz tudo o que queria e sente tudo o que não queria. Henrique olha uma última vez para o corpo caído percebendo que há um ano atrás podia muito bem ter estado no lugar de Leonor. Quando olhou para ela novamente, esta percebeu. Percebeu que o silêncio preenche. O silêncio preenche a alma e diz o que inevitavelmente não queremos dizer. Ou bem, o que não podemos. E...o silêncio...era o código que dizia tudo. Henrique amava-a. Henrique amava Leonor. Ela nunca soube, nunca o tinha visto até à dois dias atrás. Mas ela agora sabia. 
Henrique esticou a sua mão e ela passados quatro segundos toca-lhe. Aquele toque que muda uma vida. Aquele toque que transforma todo o corpo em amor. Ele tocou-lhe. De uma forma que ela nunca imaginaria ser possível num ser humano, só ainda não se tinha apercebido do quão importante e necessário foi um simples toque. Ele iria ser a alteração de todo o futuro estúpido e ingenuamente criado por ela para ela mesma. Leonor pensava estar certa acerca do seu destino. Mas ele apareceu. E o destino encaminhou-se. 
Terá valido a pena? 


Silêncio.
Pedro Rei

1 comentário:

  1. Simplesmente SOBERBO.. Digno de todas as letras da palavra.. És realmente uma inspiração e és um génio na conjuntura destas peças que, consciente ou inconscientemente nos deixam sempre a pensar.. Continua com o excelente desempenho e continua a ser uma inspiração para todos nós.. Abraço!

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